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2015-05-20

Cólera [curta]

Se você pesquisar no dicionário, verá que a palavra "cólera" tem dois significados. O primeiro se refere a um sentimento de ira, fúria, um impulso violento. O segundo se refere a uma doença infectocontagiosa, que pode causar facilmente uma epidemia dependendo das condições do local. Ambas definições se encaixam perfeitamente para Cólera, curta dirigido e escrito por Aritz Moreno, baseado em uma história de Bruce Jones.


Cólera, o curta, nos conta a história de um povoado que se vê ameaçado pela chegada de uma pessoa doente em suas imediações. O curta foi produzido como apenas um grande plano longo, ou seja, sem cortes aparentes de edição. Na verdade, há dois cortes invisíveis no filme, segundo o diretor em um comentário, assim como é feito em Birdman, com a diferença em que Birdman teoricamente se trata de um plano-sequência (já que as cenas se passam em mais de um ambiente) e em Cólera é um plano longo (a cena se desenrola em apenas um ambiente).

Apesar do curta ser em espanhol (e ter legendas em inglês), mesmo quem não conhece nenhuma dessas duas línguas consegue entender bem o seu conteúdo. Vejam:


Cólera from Sr.&Sra.

Com um plot twist em seu final que é genial, carregado de ironia, Cólera é um curta brilhantemente filmado (além da fotografia em si, o tempo de filmagem, 3 dias segundo o making-of, mostra como foi bem feita a produção). A sequência inicial, a turba à lá perseguidores do monstro de Frankestein, é excelente. Além disso, as atuações são boas, e em apenas pouco mais de quatro minutos, temos uma história concisa e que nos remete a reflexões.

Dica via Short of the Week - Cholera.

2015-05-14

As divertidas ilustrações caricaturais e fofas de Manuel Kilger

Manuel Kilger é um artista alemão que trabalha como ilustrador freelancer. Com um estilo mais para o caricato, as ilustrações de Manuel Kilger são cheias de referências ao mundo pop, brincando com esses símbolos culturais e transformando-os em engraçadas e divertidas caricaturas, com um traço fofo como ilustrações de livros infantis (mas com temáticas sarcásticas e mais adultas).

As ilustrações do artista vão desde uma versão fofa (!?) de Game of Thrones, uma homenagem aos filmes de Paul Verhoeven (com direito a cartunescos Robocop, Sharon Stone e sua cruzada de perna, e o mutante Kuato de O Vingador do Futuro), a piadas com personagens de games (como Mario Bros., Angry Birds, Zelda e Metroid), além de símbolos pop como o Nyan Cat (sendo devorado por um lobo-rosquinha). Muito divertido e cheio de referências.

Vejam as divertidas ilustrações caricaturais e fofas de Manuel Kilger:

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Manuel Kilger ilustrações caricatas divertidas engraçadas cultura pop

Imagens via site de Manuel Kilger. Dica via Supersonic Art - Manuel Kilger.

2015-01-23

Aprenda a ser Chefe: Diferença entre chefe e subordinado está na interpretação de comportamentos - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 23/01/2015, com a série "Aprenda a ser Chefe", com a diferença na interpretação de comportamentos de chefes e subordinados.

Áudio original disponível no site da CBN. E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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Aprenda a ser Chefe: Diferença entre chefe e subordinado está na interpretação de comportamentos

chefe vs. subordinado

Entre outras coisas, a diferença entre ser chefe e ser subordinado é uma questão de como se interpreta comportamentos semelhantes de um e de outro, em situações iguais. Aqui vão alguns exemplos:

Se o subordinado deixa de fazer uma tarefa, ele é preguiçoso. Se o chefe deixa de fazer uma tarefa, ele é muito ocupado.

Se o subordinado demora para fazer um trabalho, ele é lento. Se o chefe demora para fazer um trabalho, ele é analítico.

Se o subordinado faz alguma coisa fora da rotina, ele está invadindo a área dos outros. Se o chefe faz a mesma coisa, ele demonstra iniciativa.

Se o subordinado não muda de ideia, ele é teimoso. Se o chefe não muda, ele é conservador.

Se o subordinado muda de ideia, ele é volúvel. Se o chefe muda, ele é progressista.

Se o chefe grita, ele mostra autoridade. Se o subordinado grita, ele é histérico.

Se o chefe erra, ele é humano. Se o subordinado erra, ele é distraído.

Se o funcionário bate papo, ele está enrolando. Se o chefe bate papo, ele está estreitando o relacionamento interpessoal.

Se o chefe faz muitas ligações externas, é networking. Se o subordinado é que faz, a empresa bota um cadeado no telefone.

Se o chefe não veio trabalhar, ele está doente. Se o subordinado não veio trabalhar, ele está se fingindo de doente.

Se o chefe diz que pretende um dia chegar a presidente da empresa, ele tem ambição. E se o subordinado diz isso, ele é uma ameaça.

Existem duas maneiras de encarar essas diferenças hierárquicas. Uma é se revoltar e ficar reclamando que a vida não é justa. E a outra é aprender o conceito de hierarquia se divertindo com ele. Porque, um dia, a vida será igualmente justa para todos neste mundo. Mas isso dificilmente, no mercado de trabalho, irá acontecer ainda neste século.

Max Gehringer, para CBN.

2015-01-22

Aprenda a ser Chefe: As cinco maneiras de chatear o seu chefe - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 22/01/2015, com a série "Aprenda a ser Chefe", com cinco coisas que você pode fazer para irritar profundamente o seu chefe.

Áudio original disponível no site da CBN. E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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Aprenda a ser Chefe: As cinco maneiras de chatear o seu chefe

chefe irritado

Certa vez, aproveitando uma reunião da qual participaram cerca de 50 gerentes de empresas, eu fiz uma pequena pesquisa. Pedi para que os presentes me dissessem quais eram as cinco principais características do subordinado chato. Para minha surpresa, as variações nas respostas foram mínimas, como se existissem mesmo apenas cinco coisas que irritam os chefes. E eu até pensei em escrever um pequeno manual, cujo título poderia ser "Como chatear o seu chefe".

Então, para quem está a fim de deixar o chefe profundamente irritado hoje, aqui vão cinco dicas:

Primeira: entre na sala sem pedir licença. Apareça de repente na frente do chefe. Se ele levar um susto e derrubar o café, é sinal de que a sua entrada foi perfeita.

Segunda: interrompa o chefe quando ele estiver falando. De preferência, para fazer uma observação que nada adiciona ao assunto, do tipo: "É isso mesmo chefe, concordo inteiramente". Melhor ainda é interromper o chefe quando ele estiver falando ao telefone. Mesmo que o chefe faça aquele sinal de "um momentinho", não pare de falar. E se ele tapar o ouvido, continue a se comunicar por sinais.

Terceira: seu problema é sempre mais urgente, você tem preferência. Não se intimide se a secretária do chefe disser para você voltar depois porque ele está muito ocupado. Chefe tem mais é que estar disponível.

Quarta: nunca vá direto ao assunto. Diga que tem algo urgente para tratar e comece a falar. Cinco minutos depois, quando o chefe estiver interessadíssimo, diga que, na verdade, você tinha vindo falar de outra coisa.

Quinta: se você entendeu tudo o que o chefe pediu, mesmo assim faça perguntas. E no caso de o chefe chegar afobado, suando, com a voz alterada e lhe pedir alguma coisa urgente, pergunte com calma: "Pode ser depois do almoço?"

Você quer ter um chefe irritado? É fácil. Mas, para a sua carreira, não é sábio.

Max Gehringer, para CBN.

2015-01-20

Aprenda a ser Chefe: Meia dúzia de maneiras práticas para irritar o chefe - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 20/01/2015, com a série "Aprenda a ser Chefe", com uma pequena lista de frases para dizer para o chefe para irritá-lo.

Áudio original disponível no site da CBN. E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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Aprenda a ser Chefe: Meia dúzia de maneiras práticas para irritar o chefe

chefe irritado

Quem não tem um chefe chato, já teve. E quem não tem, nem teve, um dia com certeza vai ter. Chefe de verdade é aquele que manda pelo prazer de mandar. E os chefes não são assim porque têm algum trauma de infância mal curado. Eles são assim porque são chefes. E a primeira regra de sobrevivência em qualquer empresa é nunca falar mal do chefe, por pior que ele seja.

Pensando no bem geral dos subordinados, eu fiz uma pequena pesquisa com alguns dos chefes mais ácidos e mais severos que eu conheci na vida. Obviamente, eu não disse isso para nenhum deles. Apenas pedi que eles me respondessem quais eram as frases que eles menos gostavam de ouvir de seus subordinados. Para minha surpresa, as respostas foram muito parecidas. Então, aqui vai a meia dúzia de maneiras práticas de irritar o chefe:

- É urgente, chefe?

- Posso interromper, chefe?

- Chefe, temos um problema.

- Estamos fazendo o possível, chefia.

- Chefe, não foi culpa minha.

- Veja bem.


Aliás, qualquer frase que comece com "veja bem", raramente vai para algum lugar. Um dos chefes me disse que a única frase pior do que "Veja bem" é "Com certeza". Porque só responde com certeza, quem está em dúvida.

Max Gehringer, para CBN.

2014-01-21

Elogio público pode se transformar em algo inaceitável? - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 21/01/2014, sobre como o elogio público se transformou em algo inaceitável em empresas que adotaram a cartilha do politicamente correto (de maneira exagerada e sem bom senso).

Áudio original disponível no site da CBN. E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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Elogio público pode se transformar em algo inaceitável?

elogios

Um ouvinte escreve: "Sou gerente de um setor. Tenho quatorze subordinados. Sempre agi como recomenda a cartilha do bom chefe, elogiando publicamente e criticando a portas fechadas. Para minha surpresa, em minha última avaliação de desempenho, os elogios que faço em público foram considerados inadequados. Segundo me foi dito, tal atitude faz com que aqueles que nunca são elogiados percam a motivação e se sintam depreciados. Fiquei pasmo! Sou gerente há 12 anos e nunca tinha ouvido nada parecido com isso. Você poderia me esclarecer se, de fato, um elogio público a quem fez por merecê-lo se transformou em algo inaceitável?"

Sim, nas empresas que passaram a adotar a cartilha do politicamente correto. E tudo indica que a sua entrou nessa ciranda.

Em empresas assim, você não pode, por exemplo, publicar uma lista classificando o desempenho dos funcionários por ordem de produtividade, mesmo que os números não deixem dúvidas de que alguns são mais produtivos do que outros. Isso porque os menos produtivos podem ficar deprimidos ou se sentir humilhados por estarem no rodapé da lista, em vez de tentar se esforçar para chegar ao topo dela.

Sistemas desse tipo eliminam no ambiente de trabalho a competitividade entre pares. Se ninguém é criticado, nem elogiado, sem dúvida o ambiente melhora, mesmo que os resultados piorem. Isso também ocorre nas escolas. Nelas não há mais comparação de notas e todo mundo passa de ano.

Minha sugestão seria: seja pragmático. Adapte-se ao sistema que a sua empresa adotou. Lutar contra ele pode ser uma elementar demonstração de bom senso gerencial, mas é politicamente incorreto.

Max Gehringer, para CBN.

2013-07-24

'Meu chefe colocou uma ameaça por escrito a toda a equipe' - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 24/07/2013, com o caso de um chefe que colocou uma verdade por escrito que todo mundo já sabe, mas não fala por causa do politicamente correto.

Áudio original disponível no site da CBN. E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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'Meu chefe colocou uma ameaça por escrito a toda a equipe'

assédio moral

Um ouvinte escreve: "Não sei se meu gerente é irresponsável por natureza ou se ele não foi bem orientado. Mas ele colocou uma ameaça por escrito para toda a equipe, afirmando que 'Os nossos empregos estarão ameaçados se não conseguirmos cumprir as metas de vendas do trimestre.' Estou enganado ou esse é um claríssimo caso de assédio moral?"

Bom, não sei se é tão claríssimo, mas pode ser considerado como tal. O caso de assédio moral que não deixa dúvidas quanto a suas intenções maléficas é o de um superior hierárquico que move uma perseguição contínua e constante a um único subordinado, não raramente submetendo esse subordinado a situações vexatórias e humilhantes na presença dos demais.

O que o gerente do nosso ouvinte fez foi dizer algo que vendedores estão até acostumados a ouvir, mas não a ler: que os empregos são garantidos pelos resultados.

Além disso, o gerente do nosso ouvinte não escreveu "os empregos de vocês", e sim, "os nossos empregos", o que inclui o dele próprio se as metas não forem atingidas. Esse então seria um caso inédito de assédio moral a si mesmo.

Entretanto, só posso concordar que o gerente não deveria ter escrito o que escreveu e nem poderia falar isso numa reunião com os vendedores. Não porque não seja verdade, mas porque nos últimos tempos aumentou bastante o nível de sensibilidade geral quanto ao politicamente correto e ao assédio moral.

Sob esse prisma, de fato, o gerente pisou na bola. Doravante, seria recomendável que ele verbalizasse de um modo mais carinhoso e mais polido, o que todo mundo já sabe.

Max Gehringer, para CBN.

2013-04-20

Dinheiro é tudo o que importa [comics]

Mais uma tirinha do Malvados, sobre o que move o mundo: dinheiro.

malvados comics

- Ninguém pensa nas necessidades do coração. O dinheiro é a única coisa que importa. Não é um mundo terrível?
- É, mas você não tem dinheiro para comprar outro.

Vejo esses quadrinhos via Quadrin.

2013-04-15

Evite frases feitas nas entrevistas de emprego - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 15/04/2013, com o conselho de não usar frases feitas, de efeito e vazias, em entrevistas de emprego.

Áudio original disponível no site da CBN (link aqui). E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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Evite frases feitas nas entrevistas de emprego

frases feitas

Uma ouvinte escreve: "Tenho 22 anos. Na semana passada, numa entrevista que fiz, eu estava indo muito bem até que o entrevistador me perguntou: 'Em termos de objetivos profissionais, onde você pretende chegar?' E eu, cheia de confiança, respondi: 'O céu é o limite.' Para minha surpresa, o entrevistador me pediu para explicar o que eu queria dizer. A reação dele me deixou sem jeito e sem palavras, porque essa é uma expressão muito conhecida e que não precisa de explicações. Daí em diante eu perdi a segurança e acabei não sendo contratada. Eu errei a resposta ou o entrevistador é que é meio orelhudo?"

Vamos lá. Existem dois céus. Um é o céu metafísico, para o qual vão as almas que se comportaram adequadamente na Terra, segundo os preceitos de cada religião. E o outro é o céu físico, formado pelas diversas camadas que compõem o universo. No primeiro caso, o seu objetivo seria a felicidade eterna pelos séculos dos séculos. E no segundo caso, o seu objetivo seria ser astronauta e colonizar outros planetas.

Por isso, quando o entrevistador lhe pediu para explicar melhor, ele apenas queria que você falasse sobre suas pretensões mais imediatas. Uma resposta boa seria: "Quero dar um passo de cada vez e ir aproveitando as oportunidades que a empresa me der."

Em entrevistas, devem ser sempre evitadas frases que parecem bonitas, mas que no fundo são vazias. Como por exemplo: "Eu sou muito motivada." Você acha que algum candidato diria que não é motivado? Ou que não tem espírito de liderança? Portanto, o mais indicado é evitar as frases feitas. Querer chegar aos céus é, sem dúvida, um belo objetivo. Mas, em entrevistas, o melhor é manter os pés no chão.

Max Gehringer, para CBN.

2012-12-18

O fim do mundo - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 18/12/2012, com um sarcástico comunicado fictício (ou não) de uma empresa para seus colaboradores acerca da chegada do fim do mundo na próxima sexta-feira, 21 de dezembro de 2012. A propósito, este comunicado é uma reciclagem de outro já feito pelo Max em 2008: Comunicação interna nº 928 - Mensagem do fim do mundo.

Áudio original disponível no site da CBN (link aqui). E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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O fim do mundo

fim do mundo

Comunicado geral da alta direção para todos os funcionários:

Prezados colaboradores,

Conforme vem sendo amplamente divulgado pela mídia, na próxima sexta-feira, às 14 horas e 22 minutos, acabará o mundo. Dada a significância do fato, solicitamos a cooperação de todos no sentido de observar as seguintes medidas:

Primeira: por liberalidade da empresa, os funcionários serão dispensados ao meio-dia, sem necessidade de compensação das horas concedidas.

Segunda: embora a hecatombe seja de interesse geral e coletivo, solicitamos que nossos colaboradores evitem demonstrações explícitas de pânico, como chorar copiosamente em seus postos de trabalho ou ficar gritando pelos corredores, como vem ocorrendo cada vez com mais frequência. Se tal fato vier a se repetir, a direção se reserva o direito de suspender o intervalo para o cafezinho.

Terceira: embora concorde com o argumento de que tudo será carbonizado de qualquer jeito, a direção decidiu manter a proibição ao tabagismo em todas as dependências da firma.

Quarta: a tradicional comemoração do amigo secreto está confirmada para as 11 horas da manhã da sexta-feira. Recomendamos evitar a compra de presentes que sejam inflamáveis.

Quinta: já está em vigor a nossa nova campanha motivacional, cujo tema é sustentabilidade pela eternidade. Na quinta-feira, às 17 horas, haverá uma palestra sobre qualidade de vida em estado gasoso.

E sexta: em função da inevitabilidade da situação, a direção se declara propensa a concordar com aqueles engraçadinhos que viviam repetindo que trabalhar nesta empresa era o fim do mundo.

Max Gehringer, para CBN.

2012-10-16

'Como posso saber se sou bem pago?' - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 16/10/2012, sobre salários mundiais.

Áudio original disponível no site da CBN (link aqui). E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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'Como posso saber se sou bem pago?'

peso bom salário

Um ouvinte escreve: "Recentemente ouvi você falar sobre médias salariais. E fiquei com a impressão de que ganho mais do que meus antigos colegas de escola e mais do que a grande maioria de meus parentes. Mas, mesmo assim, tenho a impressão de que ganho pouco em relação ao mercado em geral. Tem alguma maneira de eu confirmar se isso é verdade?"

Bom, como você me informou o seu salário, que é de 2800 reais por mês, posso lhe dizer o seguinte: você faz parte de um seleto grupo de 12% de pessoas que ganham mais dinheiro no mundo. Em todo o planeta, existem mais de 6 bilhões de terráqueos ganhando menos do que você. Não é incrível? Você está pertinho do topo e não sabia.

E como é que eu sei? Através de um site, que é ótimo para inflar o ego de quem acredita que não é bem pago. O site é o www.globalrichlist.com. Ou, traduzindo, lista global dos ricos. Basta entrar nele e começar escolhendo uma moeda. Dólar, por exemplo, já que o site não tem a opção de salários em reais. Aí, digite a sua remuneração anual em dólares, incluindo o décimo-terceiro. E em seguida, clique no quadrinho "Show me the money!"

O resultado é sempre uma festa de motivação pessoal. Alguém que ganhe 10 mil reais por mês, ou 130 mil por ano, já se coloca num grupo privilegiadíssimo: apenas 1% dos habitantes do planeta ganham mais do que isso.

Meu conselho para nosso ouvinte é este: não perca seu tempo comparando-se com dois ou três colegas ou parentes que ganham mais do que você. Em vez disso, entre todos os dias no site antes de sair para trabalhar. E renove o seu otimismo comparando-se com o mundo.

Só espero que chefes não ouçam este comentário e comecem a negar aumentos com o seguinte argumento: "O que? Você já ganha mais do que cinco bilhões de pessoas por aí e ainda quer mais!?"

Max Gehringer, para CBN.

2012-10-02

'O que me falta para eu me adaptar sem emburrecer?' - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 01/10/2012, com um jovem ouvinte estagiário que está com problemas para se adaptar.

Áudio original disponível no site da CBN (link aqui). E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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'O que me falta para eu me adaptar sem emburrecer?'

impacto redes sociais vida real

"Tenho 18 anos e comecei como estagiário em uma empresa de porte", escreve um ouvinte. "Depois de dois meses, estou bem desiludido. Não aprecio a maneira como a maioria das pessoas se comporta e não sei explicar direito porque, mas cada uma tem alguma coisa que me incomoda muito. Coloquei esse tema para discussão nas redes sociais de que participo e descobri que muitos dos meus amigos enfrentam problemas semelhantes. E um deles me sugeriu escrever para você. Já sei que você vai dizer que ninguém é perfeito, começando por mim. E eu concordo. Pergunto o que me faltou, ou está me faltando, para que eu possa me adaptar sem que eu precise emburrecer?"

Muito bem. Vamos lá. Vou arriscar um palpite. Nas redes sociais, você nunca teve qualquer dificuldade para se relacionar com gente que você não conhece pessoalmente. Isso porque amigos virtuais são maravilhosos. Nenhum deles tem mau hálito. Nenhum está com o desodorante vencido. Nenhum tosse, espirra ou se coça. E o que é melhor, você pode teclar uma resposta se quiser e quando quiser.

Agora, ao fazer a transição da vida social do teclado para o burburinho do mercado de trabalho, você encontrou pessoas reais e terá que conviver com elas todos os dias, porque não pode fazê-las desaparecer com o simples clique de um mouse.

O que eu posso lhe sugerir para você não se emburrecer é uma abordagem antropológica. Tente estudar o comportamento dessas pessoas não para ser igual a elas, mas para aprender como elas agem e interagem. Você descobrirá um mundo fascinante, em que o relacionamento se dá através de sons e abraços analógicos. Não que isso seja uma maravilha, mas, por enquanto, ainda é o que o mercado de trabalho tem a oferecer para quem deseja permanecer nele.

Max Gehringer, para CBN.

2012-08-28

'Fui proibido de afixar lista com resultados da equipe' - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 28/08/2012, com a moderna tendência do tratamento humanitário dos empregados.

Áudio original disponível no site da CBN (link aqui). E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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'Fui proibido de afixar lista com resultados da equipe'

chefe bom

"Tenho 49 anos", escreve um ouvinte, "e ocupo cargos de chefia há mais de vinte anos. Semana passada fiquei espantado ao receber uma determinação superior de que eu não poderia mais afixar no quadro de avisos do meu setor, uma lista com os resultados da equipe, como eu vinha fazendo há anos. Segundo me foi dito, a exposição comparativa poderia humilhar aqueles funcionários que ficavam nas últimas colocações. De agora em diante, vou ter que chamar essas pessoas para conversas individuais, mas sem poder mencionar que elas foram as piores. Você poderia me explicar o sentido disso?"

Ah! É que você não tem lido "os modernos manuais de tratamento humanitário no mercado de trabalho". Nós já tivemos o tempo do capataz sem escrúpulos. Evoluimos para o chefe sinceramente respeitoso. E agora estamos entrando em uma nova era. Ela se caracteriza basicamente pela maneira como um subordinado deve ser abordado.

Por exemplo, um chefe não pode mais dizer: "Fulano, você cometeu um erro que uma criança de cinco anos não cometeria." Nada disso. O chefe precisa convidar o subordinado para uma conversa a parte, explicar a ele que suas intenções enquanto chefe são as melhores possíveis, indagar se alguma coisa o está preocupando no tocante à empresa de modo geral, e finalmente perguntar quais são as necessidades do funcionário para que ele faça o que está sendo pago para fazer.

É verdade que a maioria das empresas brasileiras ainda está a léguas de distância de tudo isso. Mas, algumas, como a sua, já incorporaram a nova tendência. Existe quem a chame de hipocritamente correta, porque o que sai pela boca não é nem o que está na cabeça, nem no coração de quem fala. Mas quem é que não gosta de ser tratado com consideração, mesmo que falsa?

Max Gehringer, para CBN.

2012-08-27

Livro: A Trégua

Por indicação (quase uma ordem), li há algum tempo atrás o livro A Trégua, de Mario Benedetti. A sinopse oficial, que consta na contra-capa:

Publicado em 1960, "A Trégua" é o mais famoso romance de Mario Benedetti e uma das obras mais importantes da literatura latino-americana contemporânea. Escrito em formato de diário e com fina ironia, o livro conta a história de Martín Santomé, um "homem maduro, de muita bondade, meio apagado mas inteligente".

Prestes a completar 50 anos, viúvo há mais de vinte, Santomé mora com os três filhos. Não se relaciona bem com nenhum deles, tem poucos amigos e mantém uma rotina monótona e cinzenta. No diário, conta os dias que faltam para a aposentadoria; mas não tem idéia do que fará assim que se livrar do trabalho maçante.

Seu destino, no entanto, mudará quando conhecer Laura Avellaneda, uma jovem discreta e tímida contratada para ser sua subalterna. Com ela, Martín Santomé voltará a conhecer o amor, numa luminosa trégua para uma vida até então triste e opaca.

O livro é ao mesmo tempo uma delícia de se ler, com um ritmo bom, uma narrativa envolvente e pra quem não é fã de obras extensas, há um bônus: ele é bem curtinho (li praticamente em uma noite).

Entretanto, se o texto é delicioso de se ler, ele também esconde uma história simples e previsível, até mesmo clichê em certos momentos (em especial, o final). É, certamente, um daqueles casos em que a jornada importa mais do que o destino, ou traduzindo-se em termos literários, o texto importa mais do que a história (a história é contada pelo texto, mas o texto não se limita a contar a história).

livro capa a trégua

Uma das maneiras pelas quais eu julgo um livro é a quantidade de trechos que acho que valem citações. Em alguns casos, de textos realmente bons, em quase todas as páginas você encontra trechos interessantes que tem vontade de compartilhar. A Trégua foi um desses casos. Mas, claro, não vou transcrever o livro todo aqui, apenas algumas partes que separei durante a leitura:

Sonhando no trabalho:

O que eu menos odeio é a parte mecânica, rotineira, do meu trabalho: repassar um lançamento que já redigi milhares de vezes, efetuar um balanço de saldos e constatar que tudo está em ordem, que não há diferenças a buscar. Esse tipo de tarefa não me cansa, porque me permite pensar em outras coisas e até (por que não dizer a mim mesmo?) também sonhar. É como se eu me dividisse em dois entes díspares, contraditórios, independentes, um que sabe de cor seu trabalho, que domina ao máximo as variantes e os meandros dele, que está sempre seguro de onde pisa, e outro sonhador e febril, frustradamente apaixonado, um sujeito triste que, no entanto, teve, tem e terá vocação para a alegria, um distraído a quem não importa por onde corre a pena nem que coisas escreve a tinta azul que em oito meses ficará negra.

Reflexão sobre a criação dos filhos e a mulher já há muito falecida:

Esteban e Blanca têm os olhos de Isabel. Jaime herdou dela a testa e a boca. O que Isabel pensaria se pudesse vê-los hoje, preocupados, ativos, maduros? Tenho uma pergunta melhor: o que eu pensaria, se pudesse ver Isabel hoje? A morte é uma experiência aborrecida; para os outros, sobretudo para os outros. Eu deveria me sentir orgulhoso por haver ficado viúvo com três filhos e ter conseguido seguir adiante. Mas não me sinto orgulhoso, e sim cansado. O orgulho é para quando se tem 20 ou 30 anos. Seguir adiante com meus filhos era uma obrigação, o único escape para que a sociedade não me encarasse e me dedicasse o olhar inexorável que se reserva aos pais desalmados. Não havia outra solução, e eu segui adiante. Mas tudo sempre foi por demais obrigatório para que pudesse me sentir feliz.

praça montevideu

Sobre a cidade e suas diferentes vidas:

Bom, às vezes não chego ao horizonte e me conformo com me acomodar à janela de um café e registrar a passagem de algumas pernas bonitas.

Estou convecido de que, durante o expediente, a cidade é outra. Conheço a Montevidéu dos homens com horário, os que entram às oito e meia e saem às 12, os que retornam às duas e meia e vão embora definitivamente às sete. Esses rostos crispados e suarentos, esses passos urgentes e tropeçantes são meus velhos conhecidos. Mas existe a outra cidade, a das frescas moçoilas que no meio da tarde saem recém-banhadinhas, perfumadas, desdenhosas, otimistas, espirituosas; a dos filhinhos da mamãe que acordam ao meio-dia e às seis da tarde ainda trazem impecável o colarinho branco de tricolina importada; a dos velhos que tomam o ônibus até a Aduana e depois retornam sem desembarcar, reduzindo sua módica farra à simples mirada reconfortante com que percorrem a Cidade Velha de suas nostalgias; a das mães jovens que nunca saem de noite e entram no cinema, com cara de culpadas, por volta das três e meia da tarde; a das babás que denigrem suas patroas enquanto as moscas devoram as crianças; a dos aposentados e ociosos vários, enfim, que crêem ganhar o céu jogando migalhas aos pombos da praça. Esses são meus desconhecidos, ...

Sabedoria de bêbado:

Esta tarde, quando eu vinha do escritório, um bêbado me deteve na rua. Não protestou contra o governo, nem disse que ele e eu éramos irmãos, nem tocou em nenhum dos incontáveis temas do pileque universal. Era um bêbado estranho, com uma luz especial nos olhos. Segurou meu braço e disse, quase apoiando-se em mim: "Sabe o que lhe acontece? Que você não vai a lugar nenhum." Outro sujeito que passou nesse instante me fitou com uma alegre dose de compreensão e até me dedicou uma piscadela de solidariedade. Mas já faz quatro horas que estou intranquilo, como se realmente não me dirigisse a lugar nenhum e só agora o percebesse.

bebado

Sobre domingo, suicídio e os solitários:

Se eu algum dia me suicidar, será num domingo. É o dia mais desalentador, o mais sem graça. Quem me dera ficar na cama até tarde, pelo menos até as nove ou as dez, mas às seis e meia acordo sozinho e já não consigo pregar o olho. Às vezes penso o que farei quando toda a minha vida for domingo. Quem sabe? Vai ver que me acostumei a despertar às dez horas. Fui almoçar no Centro, porque os rapazes saíram para o fim de semana fora, cada um para seu lado. Comi sozinho. Nem sequer tive forças para entabular com o garçom o fácil e ritualístico intercâmbio de opiniões sobre o calor e os turistas. Duas mesas adiante, havia outro solitário. Tinha o cenho franzido, partia os pãezinhos a socos. Duas ou três vezes olhei para ele, e numa oportunidade seus olhos cruzaram com os meus. Tive a impressão de que ali havia ódio. O que haveria para ele nos meus olhos? Deve ser uma regra geral, isso de nós, os solitários, não simpatizarmos uns com os outros. Ou será que, simplesmente, somos antipáticos?

Rotina e postergação como vício:

Eu mesmo fabriquei minha rotina, mas pelo caminho mais simples: a acumulação. A segurança de me saber capaz para algo melhor me deu o controle da postergação, que no fim das contas é uma arma terrível e suicida. Daí que minha rotina jamais tenha tido caráter nem definição; foi sempre provisória, sempre constituiu um rumo precário, a ser seguido apenas enquanto durava a postergação, apenas para aguentar o dever da jornada durante esse período de preparação que por certo eu considerava imprescindível, antes de me lançar definitivamente à concretização do meu destino. Que tolice, não? O resultado é que agora não tenho vícios importantes (fumo pouco, só por enfado tomo uma caninha de vez em quando), mas creio que já não poderia deixar de me postergar: esse é meu vício, aliás incurável. Porque se agora mesmo eu decidisse me assegurar, numa espécie de juramento tardio: "Vou ser exatamente o que eu quis ser", de nada adiantaria. Primeiro, porque me sinto com escassas forças para jogá-las numa mudança de vida, e depois porque, agora, que validade tem para mim aquilo que eu quis ser? Seria algo como lançar-me conscientemente a uma senilidade prematura. O que desejo hoje é muito mais modesto do que aquilo que desejava trinta anos atrás, e, sobretudo, importa-me bem menos obtê-lo. Aposentadoria, por exemplo. É uma aspiração, naturalmente, mas é uma aspiração em declínio. Sei que vai chegar, sei que virá sozinha, sei que não será preciso que eu proponha nada. Assim é fácil, assim vale a pena entregar-se e tomar decisões.

tempo

Sobre o tempo dele e o tempo dela:

O tempo se vai. Às vezes, penso que precisaria viver apressado, tirar o máximo partido destes anos que restam. Hoje em dia, qualquer um pode me dizer, depois de esquadrinhar minhas rugas: "Mas o senhor ainda é um homem jovem!" Ainda. Quantos anos me restam de "ainda"? Penso nisso e me dá pressa, tenho a angustiante sensação de que a vida me foge, como se minhas veias se tivessem aberto e eu não pudesse deter meu sangue. Porque a vida são muitas coisas (trabalho, dinheiro, sorte, amizade, saúde, complicações), mas ninguém vai me negar que, quando pensamos nessa palavra, Vida, quando dizemos, por exemplo, que nos "agarramos à vida", estamos assimilando-a a outra palavra mais concreta, mais atraente, mais seguramente importante: estamos assimilando-a ao Prazer. Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e tenho certeza de que isso é vida. Daí a pressa, a trágica pressa destes 50 anos que me pisam os calcanhares. Ainda me restam, assim espero, uns quantos anos de amizade, de saúde passável, de afãs rotineiros, de expectativa ante a sorte, mas quantos me restam de prazer? Eu tinha 20 anos e era jovem; tinha 30 e era jovem; tinha 40 e era jovem. Agora tenho 50 anos e sou "ainda jovem". "Ainda" significa: está acabando.

E esse é o lado absurdo da nossa combinação: dissemos que iríamos encarar tudo com calma, que deixaríamos o tempo correr, que depois reavaliaríamos a situação. Mas o tempo corre, queiramos ou não, o tempo corre e a deixa a cada dia mais apetecível, mais madura, mais fresca, mais mulher, e a mim, em contraposição, me ameaça a cada dia com me tornar mais achacadiço, mais gasto, menos valente, menos vital. Temos de nos apressar em direção ao encontro, porque, em nosso caso, o futuro é um inevitável desencontro. Todos os seus Mais correspondem aos meus Menos. Todos os seus Menos correspondem aos meus Mais. Compreendo que, para uma mulher jovem, pode ser um atrativo saber que aquele sujeito viveu, que há muito ele substituiu a inocência pela experiência, que ele pensa com a cabeça bem firme sobre os ombros. É possível que isso seja um atrativo, mas como é breve! Porque a experiência é boa quando vem de mãos dadas com o vigor; depois, quando o vigor se vai, a gente passa a ser uma decorosa peça de museu, cujo único valor é ser uma recordação do que se foi. A experiência e o vigor coexistem por muito pouco tempo. Eu estou agora nesse pouco tempo. Mas não é uma sorte invejável.

Sobre o ambiente de trabalho no escritório:

Nos escritórios não existem amigos; existem sujeitos que a gente vê todos os dias, que se enfurecem juntos ou separados, fazem piadas e se divertem com elas, que trocam suas queixas e se transmitem seus rancores, que reclamam da Diretoria em geral e adulam cada diretor em particular. Isso se chama convivência, mas só por miragem a convivência pode chegar a parecer-se com a amizade. Em tantos anos de escritório, confesso que Avellaneda é meu primeiro afeto verdadeiro. O resto traz a desvantagem da relação não escolhida, do vínculo imposto pelas circunstâncias. O que eu tenho em comum com Muñoz, com Méndez, com Robledo? No entanto, às vezes rimos juntos, tomamos um trago, tratamo-nos com simpatia. No fundo, cada um é um desconhecido para os outros, porque neste tipo de relação superficial fala-se de muitas coisas, mas nunca das vitais, nunca das verdadeiramente importantes e decisivas. Creio que o trabalho é que impede outro tipo de confiança; o trabalho, essa espécie de constante martelar, ou de morfina, ou de gás tóxico. Algumas vezes, um deles (Muñoz, especialmente) se aproximou de mim para iniciar uma conversa realmente comunicativa. Começou a falar, começou a delinear com franqueza seu auto-retrato, começou a sintetizar os termos do seu drama, desse módico, estacionado, desconcertante drama que intoxica a vida de cada um, por mais homem médio que se sinta. Mas há sempre alguém chamando lá do balcão. Durante meia hora, ele tem de explicar a um cliente inadimplente a inconveniência e o castigo da mora, discute, grita um pouco, seguramente se sente envilecido. Quando volta à minha mesa, olha para mim e não diz nada. Faz esforço muscular correspondente ao sorriso, mas suas comissuras se dobram para baixo. Então, pega uma planilha velha, amassa-a no punho, consciensiosamente, e depois a joga na cesta de papéis. É um simples substitutivo; o que não serve mais, o que ele atira na cesta de lixo, é a confidência. Sim, o trabalho amordaça a confiança.

the office

Paixão e muitas palavras em uma:

Nós nos entreolhamos e soltamos uma risada. Imaginei que o feitiço se quebrara, que o famoso ápice havia passado... Mas ela estava comigo, eu podia senti-la, palpá-la, beijá-la. Podia dizer simplesmente: "Avellaneda". "Avellaneda" é, além do mais, um mundo de palavras. Estou aprendendo a injetar-lhe centenas de significados, e ela também aprende a conhecê-los. É um jogo. De manhã, digo: "Avellaneda", e significa: "Bom-dia." (Há um "Avellaneda que é reprimenda, outro que é aviso, mais outro que é desculpa.) Só que ela me entende mal de propósito, para me enfurecer. Quando pronuncio o "Avellaneda" que significa: "Vamos fazer amor?", ela responde, muito faceira: "Acha que eu vou embora agora? É muito cedo!" Ah, os velhos tempos em que Avellaneda era só um sobrenome, o sobrenome da nova auxiliar (faz apenas cinco meses que anotei: "A mocinha não parece ter muita vontade de trabalhar, mas pelo menos compreende o que a gente explica"), a etiqueta para identificar aquela pessoinha de testa ampla e boca grande que me olhava com enorme respeito. Ali estava ela agora, diante de mim, envolta em sua manta. Não me lembro de como era ela quando me parecia insignificante, inibida, nada além de simpática. Só me lembro de como é agora: uma deliciosa mulherzinha que me atrai, que me alegra absurdamente o coração, que me conquista. Pisquei conscientemente, para que nada nos estorvasse depois. Então meu olhar a envolveu, muito melhor do que a manta; na realidade, não era independente da minha voz, que já começara a dizer: "Avellaneda". E, desta vez, ela me entendeu perfeitamente.

Reflexões sobre corpos:

Ela está ao meu lado, adormecida. Estou escrevendo numa folha solta, esta noite transcrevo para a caderneta. São quatro da tarde, o final da sesta. Comecei a pensar numa comparação e terminei em outra. Está aqui, ao meu lado, o corpo dela. Lá fora faz frio, mas aqui a temperatura é agradável, mais para quente. O corpo dela está quase descoberto, a manta e o lençol deslizaram para um lado. Quis comparar este corpo com minhas lembranças do corpo de Isabel. Evidentemente, eram outros tempos. Isabel não era magra, seus seios tinham volume, e por isso caíam um pouco. Seu umbigo era fundo, grande, escuro, de margens grossas. Seus quadris eram o melhor, o que mais me atraía; tenho uma memória táctil dos seus quadris. Seus ombros eram cheios, de um branco rosado. Suas pernas estavam ameaçadas por um futuro de varizes, mas ainda eram bonitas, bem torneadas. Este corpo que está ao meu lado não tem absolutamente nenhum traço em comum com aquele. Avellaneda é magrinha, seu busto me inspira um pouquinho de piedade, seus ombros estão cheios de sardas, seu umbigo é infantil e pequeno, seus quadris também são o melhor (ou será que os quadris sempre me comovem?), suas pernas são delgadas, mas bem-feitinhas. No entanto, aquele corpo me atraiu, e este me atrai. Isabel tinha, em sua nudez, uma força inspiradora, eu a comtemplava e imediatamente todo o meu ser era sexo, não havia como pensar em outra coisa. Avellaneda tem, em sua nudez, uma modéstia sincera, simpática e indefesa, um desamparo que é comovedor. Ela me atrai profundamente, mas, aqui, o sexo é só uma parte da sugestão, do chamamento. A nudez de Isabel era uma nudez total, mais pura, talvez. O corpo de Avellaneda é uma nudez com atitude. Para amar Isabel, bastava sentir-se atraído pelo seu corpo. Para amar Avellaneda, é necessário amar o nu mais a atitude, já que esta é pelo menos metade do seu atrativo. Ter Isabel entre os braços significava abraçar um corpo sensível a todas as reações físicas e capaz também de todos os estímulos lícitos. Ter em meus braços a concreta magreza de Avellaneda significa abraçar além disso seu sorriso, seu olhar, seu jeito de falar, o repertório da sua ternura, suas reticência ao entregar-se por completo e as desculpas pelas suas reticências. Bom, essa era a primeira comparação. Mas veio a outra, e essa outra me deixou pesaroso, desanimado. Meu corpo de Isabel e meu corpo de Avellaneda. Que tristeza. Nunca fui um atleta, Deus me livre. Mas aqui havia músculos, aqui havia força, aqui havia uma pele lisa, elástica. E, sobretudo, não havia tantas outras coisas que, desgraçadamente, agora existem. Desde a calvice desequilibrada (o lado esquerdo é o mais deserto), o nariz mais largo, a verruga do pescoço, até o peito com ilhas ruivas, o ventre retumbante, os tornozelos varicosos, os pés com incurável e deprimente micose. Diante de Avellaneda, não me importa, ela me conhece assim, não sabe como eu fui. Mas importa diante de mim, me importa reconhecer-me como um fantasma da minha juventude, como uma caricatura de mim mesmo. Há uma compensação, talvez: minha cabeça, meu coração, enfim, eu, como ente espiritual, talez seja hoje um pouco melhor do que nos dias e nas noites de Isabel. Só um pouco melhor, também não convém iludir-se demais. Sejamos equilibrados, sejamos objetivos, sejamos sinceros, vá lá. A resposta é: "Isso conta?" Deus, se é que existe, deve estar lá em cima admirado. Avellaneda (oh, ela existe) está agora cá embaixo, abrindo os olhos

paris nichole

O fantasma da solidão:

Mas, mesmo pensando por minha conta, poderia desconfiar do ócio, sempre que o ócio fosse uma simples variante da solidão; como poderia ser, no meu futuro de alguns meses atrás, antes de Avellaneda aparecer. Com ela instalada na minha existência, porém, já não haverá solidão. Isto é: tomara que não haja. Convém ser mais modesto, mais modesto. Não diante dos outros, isso não importa. Convém ser mais modesto quando o sujeito se enfrenta, quando se confessa a si mesmo, quando se aproxima da sua verdade extrema, que pode até chegar a ser mais decisiva do que a voz da consciência, porque esta sofre de afonias, de rouquidões imprevistas, que com frequência a impedem de ser audível. Agora já sei que minha solidão era um horrível fantasma, sei que aimples presença de Avellaneda bastou para espantá-la, mas sei também que ela não morreu, que deve estar juntando forças em algum porão imundo, em algum arrabalde da minha rotina. Por isso, só por isso, abro mão da minha suficiência e me limito a dizer: tomara.

Sobre chefes e patrões babacas:

Esta manhã, estive falando com dois membros da Diretoria. Coisas sem grande importância, mas que bastaram, no entanto, para me fazer entender que eles sentem por mim um afável, compreensivo desprezo. Imagino que, quando se refestelam nos macios assentos da sala da Diretoria, devem sentir-se quase onipotentes, ou pelo menos tão próximos do Olimpo quanto pode chegar a sentir-se uma alma sórdida e escura. Alcançaram o máximo. Para um jogador de futebol, o máximo significa chegar um dia a integrar a seleção nacional; para um místico, comunicar-se alguma vez com seu Deus; para um sentimental, encontrar em outro ser, em alguma ocasião, o verdadeiro eco dos seus sentimentos. Para esta pobre gente, em contraposição, o máximo é conseguir sentar-se nas poltronas de dirigentes, experimentar a sensação (que para outros seria tão incômoda) de que alguns destinos estão em suas mãos, alimentar a ilusão de que resolvem, de que dispõem, de que são alguém. Hoje, no entanto, ao observá-los, eu não conseguia encontrar neles uma cara de Alguém, mas sim de Algo. Parecem-me Coisas, e não Pessoas. Mas o que lhes parecerei eu? Um imbecil, um incapaz, um joão-ninguém que se atreveu a recusar uma oferta do Olimpo. Uma vez, faz muitos anos, ouvi o mais velho deles dizer: "O grande erro de alguns homens de comércio é tratar seus empregados como se estes fossem seres humanos." Nunca me esqueci nem me esquecerei dessa frasezinha, simplesmente porque não a posso perdoar. Não só em meu nome, como também em nome de todo o gênero humano. Agora sinto a forte tentação de inverter a frase e pensar: "O grande erro de alguns empregados é tratar seus patrões como se estes fossem pessoas." Mas resisto a essa tentação. Elas são pessoas, sim. Não parecem, mas são. E pessoas dignas de uma odiosa piedade, da mais infamante das piedades, porque a verdade é que formam para si uma casca de orgulho, uma embalagem repugnante, uma sólida hipocrisia, mas no fundo são ocos. Asquerosos e ocos. E padecem a mais horrível variante da solidão: a solidão daquele que nem sequer tem a si mesmo.

lábios

Contando as memórias de Isabel a Avellaneda:

Eu tive sorte, afinal. Isabel era boa, eu não era um cretino. Nossa união nunca foi complicada. Mas o que teria acontecido, se o tempo tivesse chegado a desgastar esse ameaçado atrativo do sexo? "Conte-me coisas de Isabel" era um convite à sinceridade. Eu sabia o risco que corria. O ciúme retrospectivo (por sua impossibilidade de rancor, por sua falta de desafio, por sua improvável repetição) é assustadoramente cruel. Não obstante, fui sincero. Contei as coisas de Isabel que verdadeiramente eram dela. E minhas. Não inventei uma Isabel que me permitiria ganhar pontos diante de Avellaneda. Tive o impulso de fazer isso, claro. Todo mundo gosta de ter uma boa imagem, e, depois de obter essa boa imagem, gosta de mostrar-se melhor ainda diante da pessoa a quem ama, diante da pessoa a quem pretende, por sua vez, parecer meritório para ser amado. Não inventei Isabel, primeiro por achar que Avellaneda é digna da verdade, e depois porque eu também sou digno, porque estou fatigado (e, neste caso, a fadiga é quase uma repulsa) da dissimulação, dessa dissimulação que a gente aplica como uma máscara sobre o velho rosto sensível. Por isso, não me assombra que, à medida que Avellaneda foi-se inteirando de como havia sido Isabel, também fui-me inteirando de como havia sido eu.

Sobre a pressa de viver:

Imagino a bronca de Muñoz, com dois funcionários a menos na seção e toda a responsabilidade sobre seus ombros. Não somente imagino como compreendo. Mas não importa. Estou numa idade em que o tempo parece e é irrecuperável. Tenho de me agarrar desesperadamente a esta razoável ventura que veio me buscar e me encontrou. Por isso é que não posso me tornar magnânimo, generoso, não posso colocar as preocupações de Muñoz acima das minhas. A vida se vai, está indo agora mesmo, e eu não consigo suportar essa sensação de escape, de encerramento, de final. Este dia com Avellaneda não é a eternidade, é só um dia, um pobre, indigno, limitado dia, que todos nós, de Deus para baixo, condenamos. Não é a eternidade, mas é o instante, que, afinal, é o único sucedâneo verdadeiro da eternidade. Portanto, tenho de acelerar, tenho de gastar esta plenitude sem nenhuma reserva, sem previsão alguma. Talvez depois venha o ócio definitivo, o ócio assegurado, talvez haja depois muitos dias como este, e eu pense então nesta pressa, nesta impaciência, como num ridículo esgotamento. Talvez, só talvez. Mas este Enquanto Isso traz o alívio, a garantia daquilo que é, daquilo que está sendo.

2012-06-05

As dez mudanças significativas do mercado de trabalho nos próximos 20 anos - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 05/06/2012, com um sarcástico texto com prognósticos das mudanças no mercado de trabalho.

Áudio original disponível no site da CBN (link aqui). E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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As dez mudanças significativas do mercado de trabalho nos próximos 20 anos

mudanças mercado de trabalho

Se pegarmos todos os prognósticos plenamente confiáveis de renomados especialistas sobre o mercado de trabalho, a conclusão é de que teremos dez mudanças significativas daqui a 20 anos. A saber:

Primeira: dada a velocidade com que as pessoas pulam de um emprego para outro, o tempo médio de permanência em um emprego será de 36 horas.

Segunda: a escolaridade mínima exigida para um cargo de assistente júnior do sub-coordenador, será de três doutorados. Mas, como centenas de candidatos se apresentarão com tal formação, o escolhido será aquele conseguir soletrar corretamente a palavra "empresa".

Terceira: em nome do politicamente correto, os chefes passarão a ter o título de "consultores emocionais para subordinados geniais".

Quinta: olhar para um subordinado por mais de cinco segundos, será considerado assédio moral.

Sexta: os organogramas serão extintos, para evitar que os ocupantes dos cargos mais baixos se sintam discriminados.

Sétima: um entrevistador não poderá fazer a um candidato a emprego, perguntas que possam ser percebidas como invasão de privacidade, como por exemplo, a idade, o sexo, o estado civil, o local da residência, o número de algum documento e qualquer menção à experiência profissional anterior.

Oitava: todo empregado efetivo terá assegurado o direito de discordar do que quiser, a hora que quiser, sem sofrer qualquer punição ou perseguição.

Nona: as empresas viverão num ambiente de cordialidade, igualdade, fraternidade, respeito e admiração mútua entre todos os seus felizes empregados.

E décima: os brasileiros já terão deixado, há muito tempo, de acreditar em prognósticos plenamente confiáveis de renomados especialistas sobre o mercado de trabalho.

Max Gehringer, para CBN.

2012-03-26

O pulo do gato - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 26/03/2012, com mais um clássico do mundo corporativo, reeditando o comentário sobre como a disciplina é o pulo do gato em vendas.

Áudio original disponível no site da CBN (link aqui). E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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O pulo do gato

pulo do gato

Em empresas que têm equipes de vendas, é comum um vendedor mais antigo treinar um novo vendedor. Em um mês, no máximo, o veterano consegue passar para o jovem todos os truques da arte de vender bem. Quer dizer, quase todos. Quando o jovem não consegue atingir os mesmos resultados, a reclamação é sempre a mesma: o veterano ensinou tudo o que sabia, menos o pulo do gato.

Em uma empresa em que trabalhei, essa era a maior queixa dos jovens vendedores. Eles queriam aprender o pulo do gato. E um dia, nós decidimos ensinar. Trouxemos para nossa convenção de vendas, um especialista em zoologia. E ele fez uma apresentação sobre as sete etapas do pulo do gato, que são as seguintes:

Primeira: o gato gira a cabeça, para que seus olhos fiquem paralelos ao solo, mesmo que o resto do corpo ainda esteja torto.

Segunda: o rabo fica esticado na posição vertical, girando constantemente para auxiliar no equilíbrio.

Terceira: o gato gira a coluna e alinha a parte dianteira do corpo com a cabeça.

Quarta: a parte traseira do corpo é alinhada com a parte dianteira.

Quinta: as quatro patas se emparelham, para que possam tocar o solo ao mesmo tempo.

Sexta: a poucos centímetros do chão, o gato estica bem as pernas e arqueia a coluna.

E sétima: no exato momento em que toca o solo, o gato descontrai as patas e endireita a coluna. A ação funciona como um perfeito amortecedor de impacto. E aí, o bichano sai caminhando sossegado, como os vendedores mais antigos faziam ao final de cada dia.

Ao fim da apresentação, os novos vendedores fizeram aquela cara de quem não está entendendo nada. E aí, o diretor de vendas explicou: o gato sempre acerta o pulo porque nunca muda a sequência. Os jovens vendedores sempre tentavam queimar etapas ou fazer algo diferente do que os veteranos faziam. E esse era o problema. Em vendas, o pulo do gato chama disciplina.

Max Gehringer, para CBN.

2012-02-29

No Brasil, 'depende' é uma medida quântica - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 29/02/2012, com mais um clássico do mundo corporativo, sobre o que significam algumas expressões usadas por brasileiros para designar o tempo.

Áudio original disponível no site da CBN (link aqui). E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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No Brasil, 'depende' é uma medida quântica

trabalhador preguiçoso

Como todo mundo já sabe, o Brasil é a bola da vez na economia mundial. E muitos estrangeiros têm vindo trabalhar em empresas brasileiras, ou negociar com elas. E a maioria se depara com uma dificuldade natural, que é compreender o modo como nós contamos o tempo no Brasil. Por isso, eu montei uma tabelinha para que os visitantes possam entender o que nós estamos queremos dizer quando alguém nos pergunta quanto tempo uma providência irá demorar.

A resposta mais comum é "depende". No Brasil, "depende" é uma medida quântica, porque envolve várias incógnitas, e todas desfavoráveis. Em algumas situações, "depende" pode até signficar imediatamente. Mas esse tipo de resultado até hoje só foi conseguido em testes científicos de laboratório e não é aplicável ao dia a dia.

Outra resposta é "já-já". Para quem ouve pela primeira vez, "já-já" pode parecer uma medida de tempo mais rápida do que "já". Mas é o contrário. "Já" quer dizer agora. E "já-já" quer dizer "assim que eu terminar de fazer o que eu dou a impressão de estar fazendo, vou pensar a respeito".

E tem também o "logo". "Logo" significa que uma providência pode levar entre cinco minutos e milhares de anos. Por exemplo, logo chegaremos a outras galáxias.

Outra frase que confunde é "na semana que vem". Porque todas as semanas futuras virão, cedo ou tarde. Portanto, qualquer semana entre a próxima e a última do século 21 pode ser, tecnicamente, classificada como a semana que vem.

E tem também "um minutinho", um intervalo de tempo que nada tem a ver com sessenta segundos e que raramente leva menos de dez minutos.

Finalmente há o "veja bem" e o "com certeza". A diferença entre os dois é que o "veja bem" é um "com certeza" mais detalhado. Mas as duas expressões significam a mesma coisa: depende.

Como se vê, não somos um povo muito complicado para entender, desde que ninguém fique aí nos apressando.

Max Gehringer, para CBN.

2012-02-28

O preço da solução - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 28/02/2012, com mais um clássico do mundo corporativo, repetindo este comentário de janeiro de 2008, com uma sarcástica e divertida lista de livros que têm a solução para o seu problema.

Áudio original disponível no site da CBN (link aqui). E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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O preço da solução

leitura livros

Se você está passando por uma crise existencial, ou se era para ser promovido e não foi, ou se faz quatro anos que você não tem um aumento decente, não se preocupe. Tudo tem solução. E uma solução custa apenas 20 reais. É o preço de um livro que diz que tudo tem solução. Melhor ainda, há uma enorme variedade de livros mostrando que tudo tem solução. Aqui vão alguns exemplos.

Um livro de astrologia dirá que você está vivendo uma fase de eclipse profissional. Nada que um bom mapa astral não possa resolver. É só esperar que Saturno entre na casa de Sagitário, o que deve acontecer daqui a 125 anos.

Um livro de esoterismo dirá que nada está errado com você. O que está errado é o seu nome, que tem letras demais. Mude o nome, e você mudará de vida. Um colega meu, o Fernandão, fez isso. Mudou o nome para Mônica, e nunca mais foi o mesmo.

Um livro de meditação lhe dará uma receita infalível. Não faça nada, e tudo se resolverá por si só. É recomendado para quem gosta de esperar sentado.

Um livro de inteligência emocional lhe ensinará que existe uma diferença entre o QI, o Quociente Intelectual, e o QE, o Quociente Emocional. E a diferença é a seguinte: quem tem um bom QI, sabe o que é um logaritmo, e quem tem um bom QE não sabe, mas encontra uma excelente desculpa para não querer saber.

E tem, é claro, o livro de auto-ajuda. Esse é tiro e queda. E a receita é a seguinte: de manhã, ao acordar, olhe-se no espelho, fixamente. Aí, diga para você mesmo, de modo pausado, mas firme: "eu vencerei". Repita a mesma cerimônia durante 30 dias, sem interrupção. E se após 30 dias você continuar empatando ou perdendo, troque o espelho.

Max Gehringer, para CBN.

2012-02-27

As definições de expressões comumente usadas em empresas - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 27/02/2012, com mais um clássico do mundo corporativo, reeditando o os verbetes do dicionário do mundo corporativo, com definições sarcásticas e verdadeiras de expressões usadas em empresas.

Áudio original disponível no site da CBN (link aqui). E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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As definições de expressões comumente usadas em empresas

dicionário verbetes

Para quem anda meio confuso com certas palavras e expressões comumente utilizadas em empresas, aqui vão algumas definições:

Benchmark é quando nós copiamos o que os outros fazem. Quando os outros copiam o que nós fazemos, aí, é plágio.

Projeto de vital importância é aquele que tem 3 etapas: um minucioso planejamento, uma execução adequada e uma ótima desculpa.

Estratégia mercadológica é a capacidade que uma empresa tem de repetir as mesmas falhas, ano após ano, mas sempre a partir de dados novos e mais confiáveis.

Avaliação de cargos é a constatação de que um mecânico, que consegue resolver um problema com uma martelada, ganha menos do que um burocrata, que consegue esticar o mesmo problema escrevendo um relatório.

Coerência nas decisões significa que a empresa adota um processo lógico para cometer erros.

Funcionário insubstituível é aquele que tem uma função na empresa que nenhum outro funcionário está interessado em assumir.

Momento de indefinição na carreira é aquele período em que uma pessoa se considera, ao mesmo tempo, muito velha para tentar e muito jovem para desistir.

Finalmente, diversidade é saber reconhecer que as pessoas são diferentes. Numa reunião, por exemplo, sempre existem dois tipos de pessoas: as que ficam fazendo estrelinhas no papel, e as que ficam fazendo papel de estrelinhas.

Max Gehringer, para CBN.

2012-02-14

O que fazer com os problemas? - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 14/02/2012, com mais um clássico do mundo corporativo, sobre o que fazer com os problemas.

Áudio original disponível no site da CBN (link aqui). E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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O que fazer com os problemas?

problemas

Problema todo mundo tem. O problema é o que a gente faz com os problemas. Um bom começo é falar grego, porque foram os antigos gregos, há três milênios, que inventaram a palavra "problema". E a tradução literal dela é "passar adiante". Os gregos, sábios como eram, perceberam que problemas nunca são resolvidos, são apenas transferidos.

Por exemplo, uma fábrica de papel com problemas de custos dispensa 50 funcionários. Ela não resolveu o problema. O que ela fez foi transferir o problema para os 50 demitidos, que com o dinheiro mais curto para as despesas do mês, vão parar de comprar biscoito de chocolate. E aí o problema passa para a fábrica de biscoito. Algum tempo depois, a crise na fábrica de papel já estará refletindo na cotação do suco de laranja.

Por isso, se você está saindo de casa com um problema, faça como os gregos sugeriram: passe adiante. Ou em linguagem corporativa: delegue. Ou compartilhe, propondo a formação de uma comissão para discutir o problema.

Muitas coisas irão acontecer em seu trabalho amanhã, mas uma será inevitável: alguém vai tentar empurrar um problema para você. Quase certamente com a frase "Olha, temos um problema", que é uma maneira plural de dizer que um problema que não era seu, passou a ser.

Mas você, que já incorporou a sabedoria milenar dos gregos, terá a resposta pronta: "Não se preocupe, vamos resolver o problema imediatamente. Fale com Sicrano".

Pronto! A essência da gestão eficiente de problemas não é tentar solucioná-los, porque isso é impossível. É descobrir, rapidamente, para quem transferi-los.

Max Gehringer, para CBN.
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