Le Gouffre é um curta de animação absolutamente incrível. De fato, é uma daquelas obras que merecem o conselho de "Assista!", sem nenhuma restrição.
O curta de animação nos conta a história de dois jovens amigos aventureiros que acabam se deparando com um grande obstáculo: um grande cânion, que dá nome ao curta. "Gouffre" pode ser traduzido como "abismo". O curta não tem diálogos, por isso, pode assistir sem se preocupar se vai entender ou não. Vejam:
Le Gouffre from Lightning Boy Studio
Em sua descrição, Le Gouffre se diz como um conto inspirador sobre amizade, sacrifício e conquistar o impossível. É uma definição perfeita.
Le Gouffre é o primeiro curta de animação produzido pelo Lightning Boy Studio, um trio formado por Carl Beauchemin, Thomas Chrétien e David Forest, três jovens que se conheceram em 2009 enquanto frequentavam uma escola de animação. E se você quiser saber um pouco sobre como a animação foi feita, eles disponibilizaram também um pequeno making-of:
The Journey Behind Le Gouffre from Lightning Boy Studio.
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2015-05-04
2012-01-16
Filme: O Último Dançarino de Mao
Baseado na autobiografia, o filme O Último Dançarino de Mao (ou Mao's Last Dancer no original) tem elementos clássicos de filmes de superação, bem como um contexto político e o drama pessoal. Mas também é uma história que, no fundo, poderia ser transcrita usando outras grandes figuras da humanidade, pois reúne determinação, escolhas, egoísmo e até mesmo, um toque de destino (se você acredita em desígnios), no caminho da elaboração e execução de uma grande obra, no caso, a arte da dança.

Tendo como base o livro autobiográfico do dançarino/bailarino chinês Li Cunxin (vivido na idade adulta por Chi Cao), O Último Dançarino de Mao mostra a história de Li desde a sua infância na pobre província rural de Shangdon, onde nasceu, cresceu e onde, ainda criança, foi escolhido para fazer parte do grupo de balé da escola de artes de Beijing. Deixando para trás sua família, Li Cunxin passa por um rigoroso treinamento na escola (com direito até a um momento meio Dragonball, onde usa pesos pra treinar e se fortalecer para executar certos movimentos). A árdua prática é recompensada quando ele é escolhido para ir ao Estados Unidos em 1979, onde estudaria balé por alguns meses no grupo dirigido por Ben Stevenson (Bruce Greenwood), seu tutor no país. Entretanto, ao chegar no país da liberdade (ou nem tanto assim hoje em dia), o choque cultural e a paixão pela jovem e bela aspirante bailarina Elizabeth Mackey (Amanda Schull) fazem com que Li queira permanecer nos EUA, o que acaba causando um incidente diplomático na embaixada chinesa.

Contado de maneira não-linear (a narrativa é pontuada por flashbacks, às vezes bem longos), O Último Dançarino de Mao tem uma boa narrativa, mesmo que se note que certos assuntos são menos explorados do que no livro (o que é compreensível), como por exemplo, a puberdade de Li Cunxin e a escolha de sua parceira de balé, que deveria permanecer sempre a mesma. Além disso, a montagem contribui, fazendo com que os flashbacks se integrem bem à linha temporal principal, como por exemplo, quando no passado um Li criança, na sala de aula depois de um discurso político contra o capitalismo, diz que eles (os moradores de países capitalistas) devem viver uma vida muito ruim (por não ter um governo que os supra de comida e trabalho), e então a cena corta para Li, já adulto, pela primeira vez, no clima descontraído de uma danceteria (ou melhor, discoteca - lembrem-se que estamos no final dos 70 e início dos 80).

E já que falamos da época do filme, bem marcante por sinal, O Último Dançarino de Mao consegue ter uma boa ambientação temporal, tanto na maquiagem (oh, os penteados anos 80...) quanto nos figurinos (roupas que hoje só dariam vergonha alheia). Outro aspecto visual importante é a fotografia, que não raramente se mostra bastante granulada e com cores um pouco opacas, dando um tom envelhecido, desbotado, às imagens.
Com conteúdos políticos claramente expostos no filme, com vários exemplos, como a "lavagem cerebral" dos camponeses para com a revolução de Mao; o professor de dança preso por não concordar com a deturpação da arte em nome de um balé marketeiro-revolucionário-comunista; o medo inicial de Li Cunxin de não falar bem de seu líder na América; a pobreza da família de Li, cujo um dos maiores tesouros é uma caneta, entregue a Li por seu pai e que ganhara do avô com o sonho de um dia o filho conseguir ler e escrever; e culminando com o episódio na embaixada, que criou um rebuliço diplomático, O Último Dançarino de Mao acertadamente não se aprofunda nesses temas de maneira realista, preferindo um maniqueísmo simples (a exaltação da liberdade americana, na frase proferida por Li "Eu danço melhor aqui porque me sinto mais livre", como maior exemplo), mas foca na história de vida e na figura inspiradora do bailarino (que hoje, depois de ter se aposentado do balé, além de bem sucedido empregado do setor financeiro, é um palestrante motivacional).

O Último Dançarino de Mao nos apresenta ainda números de dança excelentes. Mesmo que o foco do filme seja a história de superação, isso não quer dizer que o aspecto visual/gráfico dos espetáculos seja esquecido, muito pelo contrário. O diretor Bruce Beresford filma as várias peças de balé que aparecem no filme de maneira ótima, bem dinâmica, chegando mesmo a parecer melhor que certos filmes musicais (também contribui para isso, o fato dessas cenas não serem tão longas quanto em musicais), especialmente a última apresentação formal do filme (que tem um final especialmente emocionante). Contribui muito para isso o fato do ator principal, Chi Cao ter sido escolhido pelo próprio Li Cunxin, sendo que Chi Cao é filho de ex-professores de Li, fora que há uma boa semelhança entre os dois, especialmente no físico. (E se alguém vier com a piada de que poderia ter escolhido qualquer chinês dançarino porque "chinês é tudo igual", saiba que essa piadinha está no filme, mas genialmente, de maneira inversa.)
Destaque ainda para Chengwu Guo, que interpreta Li na adolescência. Aliás, as interpretações estão muito boas, tanto do elenco oriental quanto do ocidental. E é surpreendente que tanto Chengwu Guo quanto Chi Cao sejam bailarinos e não atores profissionais. Entretanto, o primeiro consegue imprimir uma carga dramática ao seu personagem bem maior, talvez por atuar na língua materna. Chi Cao parece um pouco atordoado com o que acontece ao seu redor, o que é a reação esperada do seu personagem. Nesse aspecto, tanto faz se isso é intencional ou não, pois o resultado é bastante verossímil.

O Último Dançarino de Mao é um filme sobre escolhas, desígnio, vontade e superação humana, sobretudo na arte de cada um. (E claro, o "egoísmo" envolvido nisso. No filme, isso se vê pela necessidade dele de dançar livre, mesmo que isso acabe custando a impossibilidade dele ver a família por longos anos, por exemplo.) E a recapitulação no final, além de prover o momento emocionante da jornada, deixa claro tudo isso. Aliás, nos emocionamos porque a superação pessoal, de alguma forma, ressoa em cada um de nós, mesmo que não façamos espacate (dói só de ver no filme) e não dancemos nem um dois pra cá, dois pra lá. Enfim, recomendadíssimo.
Trailer:
Para saber mais: página no site oficial (em inglês) de Li Cunxin sobre o filme.

Tendo como base o livro autobiográfico do dançarino/bailarino chinês Li Cunxin (vivido na idade adulta por Chi Cao), O Último Dançarino de Mao mostra a história de Li desde a sua infância na pobre província rural de Shangdon, onde nasceu, cresceu e onde, ainda criança, foi escolhido para fazer parte do grupo de balé da escola de artes de Beijing. Deixando para trás sua família, Li Cunxin passa por um rigoroso treinamento na escola (com direito até a um momento meio Dragonball, onde usa pesos pra treinar e se fortalecer para executar certos movimentos). A árdua prática é recompensada quando ele é escolhido para ir ao Estados Unidos em 1979, onde estudaria balé por alguns meses no grupo dirigido por Ben Stevenson (Bruce Greenwood), seu tutor no país. Entretanto, ao chegar no país da liberdade (ou nem tanto assim hoje em dia), o choque cultural e a paixão pela jovem e bela aspirante bailarina Elizabeth Mackey (Amanda Schull) fazem com que Li queira permanecer nos EUA, o que acaba causando um incidente diplomático na embaixada chinesa.

Contado de maneira não-linear (a narrativa é pontuada por flashbacks, às vezes bem longos), O Último Dançarino de Mao tem uma boa narrativa, mesmo que se note que certos assuntos são menos explorados do que no livro (o que é compreensível), como por exemplo, a puberdade de Li Cunxin e a escolha de sua parceira de balé, que deveria permanecer sempre a mesma. Além disso, a montagem contribui, fazendo com que os flashbacks se integrem bem à linha temporal principal, como por exemplo, quando no passado um Li criança, na sala de aula depois de um discurso político contra o capitalismo, diz que eles (os moradores de países capitalistas) devem viver uma vida muito ruim (por não ter um governo que os supra de comida e trabalho), e então a cena corta para Li, já adulto, pela primeira vez, no clima descontraído de uma danceteria (ou melhor, discoteca - lembrem-se que estamos no final dos 70 e início dos 80).

E já que falamos da época do filme, bem marcante por sinal, O Último Dançarino de Mao consegue ter uma boa ambientação temporal, tanto na maquiagem (oh, os penteados anos 80...) quanto nos figurinos (roupas que hoje só dariam vergonha alheia). Outro aspecto visual importante é a fotografia, que não raramente se mostra bastante granulada e com cores um pouco opacas, dando um tom envelhecido, desbotado, às imagens.
Com conteúdos políticos claramente expostos no filme, com vários exemplos, como a "lavagem cerebral" dos camponeses para com a revolução de Mao; o professor de dança preso por não concordar com a deturpação da arte em nome de um balé marketeiro-revolucionário-comunista; o medo inicial de Li Cunxin de não falar bem de seu líder na América; a pobreza da família de Li, cujo um dos maiores tesouros é uma caneta, entregue a Li por seu pai e que ganhara do avô com o sonho de um dia o filho conseguir ler e escrever; e culminando com o episódio na embaixada, que criou um rebuliço diplomático, O Último Dançarino de Mao acertadamente não se aprofunda nesses temas de maneira realista, preferindo um maniqueísmo simples (a exaltação da liberdade americana, na frase proferida por Li "Eu danço melhor aqui porque me sinto mais livre", como maior exemplo), mas foca na história de vida e na figura inspiradora do bailarino (que hoje, depois de ter se aposentado do balé, além de bem sucedido empregado do setor financeiro, é um palestrante motivacional).

O Último Dançarino de Mao nos apresenta ainda números de dança excelentes. Mesmo que o foco do filme seja a história de superação, isso não quer dizer que o aspecto visual/gráfico dos espetáculos seja esquecido, muito pelo contrário. O diretor Bruce Beresford filma as várias peças de balé que aparecem no filme de maneira ótima, bem dinâmica, chegando mesmo a parecer melhor que certos filmes musicais (também contribui para isso, o fato dessas cenas não serem tão longas quanto em musicais), especialmente a última apresentação formal do filme (que tem um final especialmente emocionante). Contribui muito para isso o fato do ator principal, Chi Cao ter sido escolhido pelo próprio Li Cunxin, sendo que Chi Cao é filho de ex-professores de Li, fora que há uma boa semelhança entre os dois, especialmente no físico. (E se alguém vier com a piada de que poderia ter escolhido qualquer chinês dançarino porque "chinês é tudo igual", saiba que essa piadinha está no filme, mas genialmente, de maneira inversa.)
Destaque ainda para Chengwu Guo, que interpreta Li na adolescência. Aliás, as interpretações estão muito boas, tanto do elenco oriental quanto do ocidental. E é surpreendente que tanto Chengwu Guo quanto Chi Cao sejam bailarinos e não atores profissionais. Entretanto, o primeiro consegue imprimir uma carga dramática ao seu personagem bem maior, talvez por atuar na língua materna. Chi Cao parece um pouco atordoado com o que acontece ao seu redor, o que é a reação esperada do seu personagem. Nesse aspecto, tanto faz se isso é intencional ou não, pois o resultado é bastante verossímil.

O Último Dançarino de Mao é um filme sobre escolhas, desígnio, vontade e superação humana, sobretudo na arte de cada um. (E claro, o "egoísmo" envolvido nisso. No filme, isso se vê pela necessidade dele de dançar livre, mesmo que isso acabe custando a impossibilidade dele ver a família por longos anos, por exemplo.) E a recapitulação no final, além de prover o momento emocionante da jornada, deixa claro tudo isso. Aliás, nos emocionamos porque a superação pessoal, de alguma forma, ressoa em cada um de nós, mesmo que não façamos espacate (dói só de ver no filme) e não dancemos nem um dois pra cá, dois pra lá. Enfim, recomendadíssimo.
Trailer:
Para saber mais: página no site oficial (em inglês) de Li Cunxin sobre o filme.
2011-03-10
Filme: 127 Horas
A primeira vista, pode parecer um desafio condensar uma história de 127 horas em um filme de pouco mais de uma hora e meia. Entretanto, ao se conhecer a história, fica evidente que o principal desafio era justamente o contrário: como preencher o filme sem que ele se tornasse arrastado demais. Esse foi, talvez, o maior desafio de Danny Boyle, diretor de 127 Horas (ou no original, 127 Hours), adaptação de um livro homônimo, baseado em uma história real.

Em 2003, o jovem Aron Ralston (James Franco), ao fazer uma trilha em um cânion, acabou caindo quando uma pedra se desprendeu. A pedra acabou prendendo a mão de Ralston, que ficou preso por cinco dias, até conseguir se soltar após um golpe de sorte e uma medida desesperada. O filme basicamente narra esse período em que Ralston ficou preso.
Na verdade, o filme ainda tem uma pequena introdução, que de maneira sutil e integrada à trama, serve para mostrar um pouco da personalidade de Ralston e passar algumas informações que serão relevantes mais a frente. Por exemplo, quando é mostrado Ralston saindo de sua casa e ignorando um telefonema da mãe, está uma peça-chave do enredo (e também da personalidade do rapaz): a de não ter avisado ninguém aonde ia, e de tentar ser sempre autossuficiente. Apesar disso, o jovem é retratado como alguém alegre e de bom astral, que tem uma certa obsessão por registrar a sua aventura com uma câmera, aspectos que ficam bem nítidos quando ele tem um acidente com a bicicleta (e leva na boa, dando risada) ou quando ele se encontra com duas jovens perdidas e acaba mergulhando com elas numa gruta. Mas o filme começa mesmo quando o jovem sofre o acidente, quando só então aparece um letreiro com o nome do filme: 127 Horas.

Como grande parte de 127 Horas se passa num cenário restrito (o cânion) em termos de movimento e possibilidades de posições de câmera, Boyle usa de ângulos inusitados no decorrer da história, mostrando, por exemplo, a garrafa de água vista de dentro, como se a câmera estivesse no fundo dela, ou então como se a câmera estivesse na ponta de um canudo de um recipiente de água (que mais tarde é preenchido com outros fluidos). São ângulos interessantes, mas às vezes o diretor exagera, prejudicando a fluidez da narrativa, como com a vista de dentro da câmera de Ralston, quando ele rebobina suas filmagens para rever algo.
Outro recurso que o diretor usa bastante são os delírios do personagem a partir de um certo ponto, decorrentes da fadiga, falta de água/alimentação e da solidão, de certo modo. Alguns são bem usados, como quando Ralston emula um talk show com ele entrevistando a si mesmo, numa cena clara em que o intuito é passar algumas informações à platéia. Outros delírios são menos interessantes, como o fantasma do Scooby-doo, que insinua uma paranoia no personagem, mas que logo se perde. O mesmo pode ser dito dos flashbacks que mostram alguns momentos interessantes (como quando o pai o leva para ver o nascer do sol), enquanto outros momentos não são tão bons assim (como quando mostra ele filmando a irmã tocando piano).

Entretanto, o melhor mesmo de 127 Horas são as cenas em que Ralston é mostrado ali, preso no cânion com a mão esmagada sob a pedra. Usando e abusando de câmera na mão, com muitas inserções com o ponto de vista do personagem (quando a câmera mostra o que o personagem está vendo), e com uma imagem saturada, o filme toma ares de documental. Mas o que realmente se sobressai nestes momentos é a atuação de James Franco. O ator consegue passar do otimismo para o desespero, do bom humor para o medo, de forma magistral. Aliado a uma boa maquiagem, é claramente visível o quanto o personagem de Franco vai se desgastando, perdendo aos poucos a esperança, recuperando-a por breves momentos só para vê-la ir embora de novo.
O som é um elemento importantíssimo para se criar um determinado clima em um filme. Em 127 Horas, em diversos momentos, o que temos é na verdade o silêncio. Enfatizando a natureza deserta do local e a solidão do personagem, o silêncio aparece entre momentos da trilha instrumental. Em alguns momentos a passagem da música para o silêncio é perfeita, mas em outros, deixa a desejar, como por exemplo quando a câmera (auxiliada por CGI) faz um gigantesco zoom out começando do rosto do personagem até mostrar a imensidão do cânion. Neste instante, a música sobe depois de uns instantes de silêncio, o que na minha opinião acaba por fazer com que a cena perca um pouco de sua força (mas apenas um pouco, já que o travelling da câmera é por si só, magnífico).

Apesar da história incrível de superação individual, 127 Horas falha em dois pontos. O primeiro é a insistência de Danny Boyle em se desviar do condutor principal (Ralston preso) em muitos flashbacks e delírios. Depois de um certo ponto, torna-se cansativo e pouco acrescenta na história ou no clima. O segundo ponto, e talvez esse seja mais pessoal, é que o filme é mais um retrato da persistência, de um instinto de sobrevivência, do que uma busca por algo mais nobre. E mesmo que o filme tente ficar bastante sentimental no final, ele acaba não conseguindo penetrar mais a fundo, levando a apenas sentimentos superficiais. Se há uma lição no filme, ela é: sempre avise alguém (de preferência sua mãe) de onde está indo viajar.

Enfim, 127 Horas é um bom filme e eu gostei dele. Entretanto, não acho que seja tão bom assim pra figurar entre os 10 melhores do ano. Apesar de bem feito, a impressão final é que o diretor Danny Boyle, cujo trabalho geralmente eu gosto, neste filme ficou um pouco perdido. Só assim pra explicar as sequências iniciais e finais, que mostram multidões de pessoas em metrôs, na cidade, etc. São cenas que permitem várias interpretações, mas que não encontram eco no desenvolvimento do filme. De qualquer maneira, vale a pena ver como 127 horas ficaram em 94 minutos.
Trailer:
Para saber mais: crítica no Omelete, no Cinema em Cena e (se você já viu o filme, porque está cheio de spoilers), no Crítica (non)sense da 7a Arte.
P.S. Talvez seja impressão minha, mas a música inicial do filme não tem um quê de indiana? Será influência ainda de Quem Quer ser um Milionário?

Em 2003, o jovem Aron Ralston (James Franco), ao fazer uma trilha em um cânion, acabou caindo quando uma pedra se desprendeu. A pedra acabou prendendo a mão de Ralston, que ficou preso por cinco dias, até conseguir se soltar após um golpe de sorte e uma medida desesperada. O filme basicamente narra esse período em que Ralston ficou preso.
Na verdade, o filme ainda tem uma pequena introdução, que de maneira sutil e integrada à trama, serve para mostrar um pouco da personalidade de Ralston e passar algumas informações que serão relevantes mais a frente. Por exemplo, quando é mostrado Ralston saindo de sua casa e ignorando um telefonema da mãe, está uma peça-chave do enredo (e também da personalidade do rapaz): a de não ter avisado ninguém aonde ia, e de tentar ser sempre autossuficiente. Apesar disso, o jovem é retratado como alguém alegre e de bom astral, que tem uma certa obsessão por registrar a sua aventura com uma câmera, aspectos que ficam bem nítidos quando ele tem um acidente com a bicicleta (e leva na boa, dando risada) ou quando ele se encontra com duas jovens perdidas e acaba mergulhando com elas numa gruta. Mas o filme começa mesmo quando o jovem sofre o acidente, quando só então aparece um letreiro com o nome do filme: 127 Horas.

Como grande parte de 127 Horas se passa num cenário restrito (o cânion) em termos de movimento e possibilidades de posições de câmera, Boyle usa de ângulos inusitados no decorrer da história, mostrando, por exemplo, a garrafa de água vista de dentro, como se a câmera estivesse no fundo dela, ou então como se a câmera estivesse na ponta de um canudo de um recipiente de água (que mais tarde é preenchido com outros fluidos). São ângulos interessantes, mas às vezes o diretor exagera, prejudicando a fluidez da narrativa, como com a vista de dentro da câmera de Ralston, quando ele rebobina suas filmagens para rever algo.
Outro recurso que o diretor usa bastante são os delírios do personagem a partir de um certo ponto, decorrentes da fadiga, falta de água/alimentação e da solidão, de certo modo. Alguns são bem usados, como quando Ralston emula um talk show com ele entrevistando a si mesmo, numa cena clara em que o intuito é passar algumas informações à platéia. Outros delírios são menos interessantes, como o fantasma do Scooby-doo, que insinua uma paranoia no personagem, mas que logo se perde. O mesmo pode ser dito dos flashbacks que mostram alguns momentos interessantes (como quando o pai o leva para ver o nascer do sol), enquanto outros momentos não são tão bons assim (como quando mostra ele filmando a irmã tocando piano).

Entretanto, o melhor mesmo de 127 Horas são as cenas em que Ralston é mostrado ali, preso no cânion com a mão esmagada sob a pedra. Usando e abusando de câmera na mão, com muitas inserções com o ponto de vista do personagem (quando a câmera mostra o que o personagem está vendo), e com uma imagem saturada, o filme toma ares de documental. Mas o que realmente se sobressai nestes momentos é a atuação de James Franco. O ator consegue passar do otimismo para o desespero, do bom humor para o medo, de forma magistral. Aliado a uma boa maquiagem, é claramente visível o quanto o personagem de Franco vai se desgastando, perdendo aos poucos a esperança, recuperando-a por breves momentos só para vê-la ir embora de novo.
O som é um elemento importantíssimo para se criar um determinado clima em um filme. Em 127 Horas, em diversos momentos, o que temos é na verdade o silêncio. Enfatizando a natureza deserta do local e a solidão do personagem, o silêncio aparece entre momentos da trilha instrumental. Em alguns momentos a passagem da música para o silêncio é perfeita, mas em outros, deixa a desejar, como por exemplo quando a câmera (auxiliada por CGI) faz um gigantesco zoom out começando do rosto do personagem até mostrar a imensidão do cânion. Neste instante, a música sobe depois de uns instantes de silêncio, o que na minha opinião acaba por fazer com que a cena perca um pouco de sua força (mas apenas um pouco, já que o travelling da câmera é por si só, magnífico).

Apesar da história incrível de superação individual, 127 Horas falha em dois pontos. O primeiro é a insistência de Danny Boyle em se desviar do condutor principal (Ralston preso) em muitos flashbacks e delírios. Depois de um certo ponto, torna-se cansativo e pouco acrescenta na história ou no clima. O segundo ponto, e talvez esse seja mais pessoal, é que o filme é mais um retrato da persistência, de um instinto de sobrevivência, do que uma busca por algo mais nobre. E mesmo que o filme tente ficar bastante sentimental no final, ele acaba não conseguindo penetrar mais a fundo, levando a apenas sentimentos superficiais. Se há uma lição no filme, ela é: sempre avise alguém (de preferência sua mãe) de onde está indo viajar.

Enfim, 127 Horas é um bom filme e eu gostei dele. Entretanto, não acho que seja tão bom assim pra figurar entre os 10 melhores do ano. Apesar de bem feito, a impressão final é que o diretor Danny Boyle, cujo trabalho geralmente eu gosto, neste filme ficou um pouco perdido. Só assim pra explicar as sequências iniciais e finais, que mostram multidões de pessoas em metrôs, na cidade, etc. São cenas que permitem várias interpretações, mas que não encontram eco no desenvolvimento do filme. De qualquer maneira, vale a pena ver como 127 horas ficaram em 94 minutos.
Trailer:
Para saber mais: crítica no Omelete, no Cinema em Cena e (se você já viu o filme, porque está cheio de spoilers), no Crítica (non)sense da 7a Arte.
P.S. Talvez seja impressão minha, mas a música inicial do filme não tem um quê de indiana? Será influência ainda de Quem Quer ser um Milionário?
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