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2013-09-18

Filme: Tanta Água

Do lado de lá da tela, rostos cansados e aborrecidos, frustrados por não terem muito o que fazer enquanto a chuva cai incessantemente. Do lado de cá da tela, um sentimento dividido entre a curiosidade e o cansaço. Assistir o filme Tanta Água (Tanta Agua no original em espanhol) exige um pouco mais do espectador, não exatamente em termos cognitivos, mas com uma paciência e dedicação de um observador/pesquisador científico interessado em pessoas comuns e suas dinâmicas e relacionamentos.

filme tanta água poster cartaz

Tanta Água nos leva a conviver com Alberto (Néstor Guzzini), pai divorciado de dois filhos, a adolescente geniosa (e qual adolescente não é?) Lucía (Malú Chouza) e seu irmão mais novo, Federico (Joaquín Castiglioni), durante um período de mais ou menos uma semana, em que Alberto leva os filhos para passarem férias em uma instância termal no Uruguai. Claramente desacostumados a conviverem juntos (os filhos moram com a mãe), a falta de intimidade e o desconforto são visíveis, especialmente quando a chuva não para de cair e a família é obrigada a passar um bom tempo junto numa diminuta cabana no balneário ou então dentro do carro, criando um clima um tanto constrangedor e claustrofóbico.

filme tanta água chuva

Com um ritmo lento, o filme tem dois momentos distintos. No primeiro, o foco se dá em Alberto. Aqui vemos um pai tentando se reconectar com os filhos, ainda que esse esforço não se dê através de um caloroso contato. Ao contrário, como pai, ele tenta impor alguma disciplina aos filhos. É também visível um certo ressentimento dele para com a ex-mulher (que envia muitos lanches, por exemplo, o que Alberto de certa forma vê como um desprezo, como se ele não pudesse ou soubesse alimentar direito os filhos). É um retrato bastante interessante de um homem que tenta ser um bom pai, mesmo com suas limitações inerentes, tudo isso contado de maneira sutil, sem explicações expositivas, como tem sido o padrão em filmes recentes, sobretudo os blockbusters.

filme tanta água guzzini

No meio do filme em diante, o foco passa a ser Lucía. Depois de resolver alguns dos conflitos de Alberto, as diretoras e roteiristas Ana Guevara e Leticia Jorge passam a colocar a lente de aumento sobre a personagem adolescente, que como todo adolescente, está fadada a cometer erros idiotas. No caso de Lucía, ela age de maneira não muito correta com uma recente "amiga", ao se apaixonar por um rapazinho, mentindo também para o pai e até mesmo se arriscando (como mostra a cena em que ela desembarca de um ônibus em direção a uma balada).

O grande mérito de Tanta Água é, sem dúvida, o elenco e suas atuações. Néstor Guzzini, como Alberto, é excelente: seu olhar cansado, mas que se renova a cada pequena conquista no relacionamento com os filhos, é ótimo. Malú Chouza com sua Lucía também exibe uma grande performance, ao retratar uma jovem adolescente que passeia por humores, do tédio de passar férias com os familiares, até a alegria infantil que exibe com as brincadeiras com o irmão mais novo, passando pela tentativa de entrar no mundo adulto com seus amores e relacionamentos, tudo isso de maneira tridimensional. Joaquín Castiglioni, como o filho mais novo Fede, também não faz feio.

filme tanta água chouza

Talvez eu não tenha gostado do ritmo lento de Tanta Água por já estar cansado e com fome (dica: levar uma barra de cereal se for assistir 3 filmes seguidos num lugar onde não tem bomboniere), achando que o filme se arrasta demais. Outro problema é a mudança de foco: ao passar de Alberto para Lucía, a impressão que fica é de termos dois filmes distintos, ou como se fossem dois episódios de uma série, e não uma história única. De fato, por si só, isso não é um problema. Mas ao fazer isso, o filme deixa de explorar mais o relacionamento inter-familiar, que vinha sendo trabalhado de forma interessante, para se focar na adolescência feminina, que acaba se mostrando não tão interessante, com um desenvolvimento e um final previsíveis.

filme tanta água guzzini chouza

Tanta Água é o trabalho de estreia das suas realizadoras, Ana Guevara e Leticia Jorge, em longa-metragens. O filme pode se mostrar um pouco enfadonho à primeira vista. De fato, assim como o relacionamento dos personagens em sua dinâmica familiar, Tanta Água melhora aos poucos. Mas tem uma recaída adolescente no final, que apesar de acrescentar mais dinamismo ao ritmo, se mostra mais desinteressante como história. No fim das contas, é um filme razoável, ao mostrar, de maneira bem realista, um relacionamento familiar. Mas não esqueçamos que a realidade, não raramente, pode ser bem aborrecedora, dependendo do seu olhar, e que dias de chuva alcançam a todos nós.

Trailer:



Para saber mais: site oficial de Tanta Água.

2011-10-13

As pinturas da adolescência perdida e encontrada de Andrew Gareth Young

Andrew Gareth Young é um artista que trabalha com pintura a óleo e colagens. O tema de seus trabalhos é a adolescência. Ou melhor, o lado mais primitivo, mais genuíno de cada um de nós. Se ao longo da vida somos instruídos e recebemos valores que não são nossos (mas sim de nossos pais, professores, instituições, etc), a adolescência é a época em que, questionadores, conseguimos descobrir mais sobre nós mesmos, abaixo de todas essas camadas aprendidas. Infelizmente essa revolta questionadora geralmente se perde conforme vamos ficando mais velhos, mas trabalhos como o de Andrew são um lembrete de que aquele fogo juvenil pode ser perdido, mas também encontrado.

Usando traços espontâneos em algumas partes, enquanto outras são cuidadosamente planejadas, o pintor combina imagens realistas com uns toques abstratos. Esse resultado é também uma metáfora para a adolescência perdida, que mantém uma certa "ordem" na vida adulta, mas que deixa transparecer a juventude re-encontrada em pequenos gestos, bobos, autênticos e frequentemente malucos.

Vejam:

andrew young pinturas oleo adolescencia perdida encontrada

Caída de porre.

andrew young pinturas oleo adolescencia perdida encontrada

Sentada no banheiro com o ursinho de pelúcia.

andrew young pinturas oleo adolescencia perdida encontrada

Duas mulheres.

andrew young pinturas oleo adolescencia perdida encontrada

Casal aos amassos do lado - Visitas que ficam por muito tempo.

andrew young pinturas oleo adolescencia perdida encontrada

Clientes.

andrew young pinturas oleo adolescencia perdida encontrada

Colagem - Isabelle.

andrew young pinturas oleo adolescencia perdida encontrada

Lápis no nariz.

andrew young pinturas oleo adolescencia perdida encontrada

Colagem - Shea.

andrew young pinturas oleo adolescencia perdida encontrada

Mulheres, armas e gatinhos.

andrew young pinturas oleo adolescencia perdida encontrada

A Proposta.

andrew young pinturas oleo adolescencia perdida encontrada

Perdida.

andrew young pinturas oleo adolescencia perdida encontrada

Jantando flores.

Imagens via site de Andrew Gareth Young. Dica via Empty Kingdom.

2011-09-08

As adolescentes gigantes em mundo diminuto, na fotografia de Julia Fullerton-Batten

Julia Fullerton-Batten é uma fotógrafa alemã. Além de seu trabalho profissional fotografando para editoriais e comerciais, Julia desenvolve interessantes projetos pessoais. Um desses projetos é uma série de fotografias enfocando em meninas/adolescentes. Esse projeto é subdividido em três séries, e é a primeira dessas que posto aqui hoje.

Nesta série, intitulada "Teenage Stories" (Histórias Adolescentes), Julia enfoca o período de transição entre a inocência da infância e a vida adulta, entre a menina e a mulher. Assim, ela fotografa as modelos adolescentes em cenários com maquetes de cidades e outros ambientes diminutos, fazendo com que as adolescentes pareçam gigantes. É interessante este simbolismo, que permite múltiplas interpretações: o crescimento da menina em mulher; a força e a arrogância da juventude, sentindo-se maior que o mundo; ou ainda o contrário, o sentimento de inadequação em um mundo que não é do seu tamanho (essa interpretação, minha preferida).

É interessante também notar que a artista retrata as modelos com rostos impassíveis, quase sem expressão, contrastando com a tensão que vem acompanhada pela puberdade e adolescência, fazendo com que as fotografias também ganhem um toque de onírico. Vejam:

julia fullerton-batten fotografia meninas adolescentes gigantes cenários diminutos maquetes adolescência

Gigante no aeroporto.

julia fullerton-batten fotografia meninas adolescentes gigantes cenários diminutos maquetes adolescência

Casas de praia.

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Ovos quebrados.

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Cidade a noite.

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Pescando no lago.

julia fullerton-batten fotografia meninas adolescentes gigantes cenários diminutos maquetes adolescência

Rodovia. (Uma de minhas fotos preferida dessa série.)

julia fullerton-batten fotografia meninas adolescentes gigantes cenários diminutos maquetes adolescência

Acidente de bicicleta.

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Gaiola.

julia fullerton-batten fotografia meninas adolescentes gigantes cenários diminutos maquetes adolescência

Castelo e livro.

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Bolinhas de gude.

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Ponte e estrada.

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Cruzeiro na água.

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Castelo.

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Reflexo na água.

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Chiclete no sapato.

julia fullerton-batten fotografia meninas adolescentes gigantes cenários diminutos maquetes adolescência

Flutuando no porto. (Essa é a minha outra fotografia preferida desta série.)

Imagens via site de Julia Fullerton-Batten. Dica via Empty Kingdom.

2011-08-16

'Para que serve um estagiário?' - by Max Gehringer

Transcrição do comentário do Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 16/08/2011, sobre o papel do estagiário.

Áudio original disponível no site da CBN (link aqui). E se você quiser ler os comentários anteriores do Max Gehringer, publicados aqui, basta clicar neste link.

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'Para que serve um estagiário?'

estagiário abusado
"Gostaria de saber para que serve um estagiário?", pergunta um ouvinte após desancar a empresa em que está fazendo estágio. Vamos lá.

Um estagiário é um jovem que passar por uma infinidade de testes orais e escritos, cuja finalidade é descobrir quem consegue se sair bem numa infinidade de testes orais e escritos. Ao ser admitido, o estagiário descobre que esses testes terão tanto a ver com suas atividades quanto um pijama tem a ver com uma festa de formatura.

Espera-se do estagiário, acima de tudo, entusiasmo. Quando alguém lhe pede para requisitar uma caixinha de clips, o estagiário deve reagir como se a NASA tivesse lhe pedido para fazer os cálculos de deslocamento da primeira nave tripulada para Marte.

Mas o que mais tira o estagiário do sério é o que chamamos de síndrome da adolescência. Quando um adolescente faz uma coisa adulta, sempre aparece alguém para dizer que ele ainda é muito criança para fazer aquilo. E quando ele se comporta como criança, sempre aparece alguém para dizer que ele já está crescido e precisa aprender a agir como um adulto.

O estagiário passa pelo mesmo processo. Se ele tenta falar sério e apresentar sugestões criativas, alguém lhe dirá que estágio não é emprego. Se ele se acomoda e só faz o que mandam, alguém lhe dirá que ele é um potencial diretor da empresa e precisa se esforçar mais. Se o estagiário trabalhar apenas as horas previstas no contrato, vão dizer que ele não é comprometido. Se decide esticar o horário, vão dizer que a lei não permite.

Em resumo, um estagiário é alguém que um dia será gerente. E aí poderá fazer o que se espera de um verdadeiro gerente: contratar um estagiário. Para poder dizer a ele que também começou como estagiário e que a experiência lhe ensinou uma lição muito valiosa: que estagiário não tem razão, principalmente quando está certo.

Max Gehringer, para CBN.

2011-04-26

Filme: A Garota da Capa Vermelha

Uma das falas clássicas da história de Chapeuzinho Vermelho é aquela em que a garota questiona o lobo travestido de avó: "Que olhos grandes você tem, vovó. É pra te ver melhor. Que nariz grande você tem, vovó. É para te cheirar melhor", e assim por diante. Nesta versão contemporânea do conto de Chapeuzinho feito para os cinemas, A Garota da Capa Vermelha (ou Red Riding Hood no original), alguém poderia dizer ao espectador: "Que saco enorme você tem". E ele responderia: "Tem que ter, pra aguentar a encheção que é esse filme". Na melhor das hipóteses, é um filme equivocado. Muito equivocado.

filme a garota da capa vermelha poster cartaz

A Garota da Capa Vermelha é Valerie (Amanda Seyfried), uma camponesa que vive num vilarejo na borda de uma floresta muito mal encarada. Ela nutre paixão (correspondida) pelo pobre lenhador Peter (Shiloh Fernandez), mas acaba sendo prometida para Henry (Max Irons), que tem condições financeiras melhores, se bem que ele não é o que se chamaria de rico hoje em dia, sendo um ferreiro no vilarejo. Vilarejo este, que além de tudo, mantém uma relação íntima com um lobisomen que toda lua cheia exige o sacrifício de alguns animais. Valerie e Peter tencionam fugir do vilarejo, mas os planos são interrompidos quando o lobisomen faz de vítima, a irmã de Valerie. A partir daí temos uma trama que mistura dramalhões dignos de novelas mexicanas (traição, meio irmãos, quase incestos, etc.) com o mistério de "quem será o lobisomen".

A Garota da Capa Vermelha talvez agrade pré-adolescentes femininas de todas as idades. As comparações com Crepúsculo são inevitáveis. A diretora Catherine Hardwicke, que também dirigiu o primeiro filme da citada "saga", não se esforça nem um pouco para diferenciar este filme da sua "inspiração" vampiresca. Aliás, se neste filme temos a falta de fadas (aquelas voam pela floresta e brilham ao sol), o mesmo não se pode dizer do resto. Temos uma jovem frágil e romântica que se vê no meio de um turbilhão sobrenatural, ao mesmo tempo em que é disputada por dois jovens apaixonados por ela. E, claro, não falta também o contexto de castidade e pureza da personagem principal, que de certa forma, se torna hilário ao perceber como a diretora trabalha o tema, por diversas vezes deixando o casal quase tocando os lábios, só pra interromper o beijo por algum evento inesperado. Isso, claro, até a cena toda errada da comemoração pela falsa captura do lobo, em que finalmente vemos um beijo.

filme a garota da capa vermelha

Aliás, toda essa cena da comemoração é um grande equívoco. Comemorando a falsa captura do lobo, a vila se transforma num circo pagão, em que pra uma orgia só faltou o sexo mesmo. A câmera vai e volta filmando por cima, oferecendo um espetáculo caricato e de alta vergonha alheia. Talvez seja apenas a minha mente suja (não acredito), mas tem uma hora em que Valerie começa a dançar com uma amiga, pra deixar Peter enciumado ou enfezado, ou o que quer que tenha passado na cabeça do roteirista David Johnson. O que tem de errado na cena? Tudo. A insinuação lésbica, a motivação dos personagens em fazer isso, o desenrolar da cena. É um mix de coisas que até podem ter parecido boas ideias (se você está bêbado) individualmente, mas que é tão idiota e sem sentido junto...

Outra coisa que não agrada em A Garota da Capa Vermelha é a quantidade de clichês "dramáticos" e de "romance". Só nos quinze minutos iniciais da trama, já vemos a mocinha apaixonada que é prometida para outro, a mãe que convence o amor verdadeiro a deixar a mocinha se casar com o outro pra ter uma vida melhor e o mocinho dispensando a mocinha pro "bem" dela. Sim, tudo isso acontece nos primeiros minutos de projeção, e não acaba por aí. Muitas traições e revelações ainda estão por vir, numa trama que faz do filme uma autêntica novela mexicana. E claro, não falta no final a união dos mocinhos, Peter e Henry, pra tentar resgatar Valerie, deixando as diferenças entre eles de lado. Sim, feito pra menininhas suspirarem.

filme a garota da capa vermelha

Além do roteiro ser carregado de clichês, ele é carregado de coisas sem sentido e sem explicação. Tome por exemplo, tudo o que envolve o padre Solomon, caçador de lobisomens e outros monstros vivido por Gary Oldman. Pra começar, o padre chega carregando dois filhos na carruagem e contando histórias da mulher morta. Ok, suponhamos que ele tenha se tornado padre depois da morte da esposa. Ainda assim não explica o fato de alguns de seus guerreiros serem negros. Na Idade Média, guerreiros negros lutando pela Igreja. Er... Será que o casting do filme tinha cotas? Ou eu estou perdendo algum momento histórico? E como explicar o elefante que o padre Solomon usa para torturar suas testemunhas? Não sou perito em aparelhos de torturas medievais indianas (pois os adereços no elefante sugerem essa origem), mas creio que isso seja muito WTF. Tanto quanto as reações do povo do vilarejo, que uma hora tratam Valerie como uma bruxa dos infernos e na outra, a protegem. Tudo bem que com razão, mas convenhamos, multidões não são conhecidas por usarem a cabeça.

A Garota da Capa Vermelha até tem um elenco razoável, mas nem o melhor elenco do mundo salva um filme desses. Gary Oldman deve ter pego gosto por fazer vilões exagerados (vide o anterior O Livro de Eli), mas o caricato se encaixa bem neste filme. Tentativas mais sérias, como a própria protagonista de Seyfried, soam deslocadas no clima caricatural do filme.

filme a garota da capa vermelha

Soando caricato e falso, com vários planos que mais parecem um teatro (devido ao cenário totalmente irreal e que lhe passa isso na cara), A Garota da Capa Vermelha tem não só um texto ruim, mas uma direção sem muita direção. Se esforçando para parecer sério, mas mostrando visualmente o contrário, como na floresta com árvores espinhudas de um falsidade ímpar, o filme só não espanta os espectadores usando a artimanha do mistério de "quem é o assassino", no caso, "quem é o lobisomen". Mesmo assim, é muito fraco, e as explicações no final são de dar vergonha alheia. Sério.

Usando do artifício do "sonho vívido/profético da personagem principal" para conseguir encaixar as famosas frases do diálogo entre Chapeuzinho e Lobo disfarçado, A Garota da Capa Vermelha é uma tentativa frustrada de revitalizar ou "modernizar" o conto do secular imortalizado pelos irmãos Grimm. O melhor mesmo era ter deixado tudo como estava.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Cinema em Cena e no Omelete.

P.S. Se dissessem pra Amanda Seyfried "que os olhos grandes você tem", o que será que ela diria?

2011-04-18

Filme e Livro: Eu Sou o Número Quatro

Desde que o velho e bom Stan Lee criou os X-Men com seus mutantes que desenvolviam poderes na puberdade, essa boa (e agora já velha) metáfora das mudanças que acontecem nessa fase da vida têm permeado histórias juvenis de heróis. E o último representante dessa linha é o novo filme e livro Eu Sou o Número Quatro (originalmente, I Am Number Four). Pra economizar, e como ando com preguiça de escrever, faço um post só para os dois, livro e filme, já que apesar das diferenças, boa parte da essência da história permanece a mesma.

filme eu sou o número quatro poster cartaz

Em Eu Sou o Número Quatro, os habitantes do planeta Lorien foram dizimados numa invasão pelos perversos e guerreiros habitantes do planeta Mogadore. Entretanto, no meio da invasão, conseguiram enviar para a Terra (o planeta mais próximo de Lorien, tirando Mogadore), nove crianças especiais, acompanhadas cada uma, de um tutor. Essas crianças faziam parte de uma elite loriena chamada Garde. Os membros dessa elite ao chegarem na adolescência, desenvolvem poderes chamados Legados. Poderes esses que são à la X-Men: invisibilidade, telecinésia, força e agilidade, pra citar alguns. A esperança era que essas nove crianças crescessem na Terra e, ao ficarem adultas e com plenos poderes, derrotassem os mogadorianos. Mas os mogadorianos chegam à Terra e começam a caçar essas crianças, de preferência antes que elas desenvolvam os seus Legados. O livro/filme acompanha parte da vida da quarta dessas crianças lorienas que chegou a Terra. Mais especificamente, a época em que ele começa a desenvolver seus Legados.

filme livro eu sou o número quatro

Já adianto que uma das maiores diferenças entre o livro e o filme é que o filme abandona um dos gêneros aos quais o livro pertence. Se o filme é um filme de ação/aventura com toques de ficção científica e romance adolescente, o livro tem além desses pontos, o gênero fantasia embutido. Se no filme a explicação para os poderes dos garotos(as) é simplesmente ser extra-terrestre, no livro a explicação é: eles são extra-terrestres E de Lorien, porque lá existe magia. Não mágica ou ilusionismo, mas magia. Que é a fonte dos poderes Legados. E como toda essa parte de magia/fantasia foi retirada do filme, sinto que ficou faltando o porquê do número 4. No filme, não tem explicação, ou ela é implícita (a de que as crianças seriam meros números, sem nomes, o que é uma explicação bem capenga, considerando que isso desumaniza a pessoa, vide prisioneiros que são apenas números em cadeias). No livro, a explicação é que, ao sairem de Lorien, para proteger as crianças, um Ancião lançou um feitiço nelas: a de que elas só poderiam ser mortas ou machucadas numa ordem pré-estabelecida, a não ser que elas ficassem juntas num mesmo ambiente. Ou seja, não só explica o número, mas também porque o número quatro é a quarta criança a ser perseguida.

Sim, porque logo no começo de Eu Sou o Número Quatro, vemos o número 3 sendo perseguido e morto por mogadorianos. A cada um dos nove mortos, aparece acima do tornozelo dos restantes uma marca, indicando que um deles foi morto. E isso acontece para o número 4 (interpretado no filme por Alex Pettyfer) enquanto ele está numa festa. Ao saber do ocorrido, o seu tutor Henri (interpretado no filme por Timothy Olyphant) decide mais uma vez se mudar, coisa que é rotina para os dois. Eles estão sempre se mudando e trocando de identidade para despistar os mogadorianos. Desta vez, eles vão para a pequena cidade de Paradise, Ohio, onde o 4 assume o criativo nome de John Smith (o equivalente a "José da Silva" americano). Nesta cidade, ele fará amizade com o obcecado por alienígenas e OVNIS Sam (interpretado por Callan McAuliffe), se apaixonará pela garota mais linda do colégio, Sarah (Dianna Agron), e por causa disso, enfretará o valentão da escola (e claro, astro de futebol americano) Mark (Jake Abel).

filme livro eu sou o número quatro

Tanto o livro quanto o filme enfocam bastante o lado "drama adolescente": o protagonista que chega num novo colégio, onde enfrenta o valentão pelo coração da menina, e no processo, também faz amizade com outros que sofrem com os valentões. Clichê? Sim, com certeza, mas como é tecnicamente bem feito, é palatável. No filme, o drama é acelerado, o que não o deixa entediante. E no livro, o autor Pittacus Lore (um pseudônimo muito engraçadinho), usa uma narrativa de capítulos curtos, com bons ganchos entre eles, dando agilidade à leitura. Além disso, no livro o drama adolescente é intercalado com a questão do surgimento dos poderes Legados, o treinamento para aperfeiçoá-los e a história de Lorien, aspectos que foram cortados no filme.

filme livro eu sou o número quatro

Essas lacunas deixam o filme um tanto inferior ao livro, especialmente na questão do desenvolvimento dos personagens. Com um ritmo rápido, o filme Eu Sou o Número Quatro acaba não explorando a amizade de Sam e John a contento, por exemplo, nem a relação paternal entre John e Henri. A passagem da feira municipal com o trem fantasma também é bem inferior no filme, uma vez que no livro, são mais personagens envolvidos. Apesar disso, o filme acerta em ir dando dicas de elementos que só aparecem no final do livro e que soam um tanto Deus Ex Machina no livro, mais especificamente o caso do cachorro de John (reparem no enfoque que o diretor D.J. Caruso dá ao pequeno animal) e a aparição de outra loriena, a número 6 (interpretada no filme pela bela Teresa Palmer), que surge bad-ass e chutando bundas.

filme livro eu sou o número quatro

Aliás, esse é outro ponto (o de chutar bundas) que considero bastante divergente entre livro e filme. No livro Eu Sou o Número Quatro a ameça mogadoriana é boa parte do tempo apenas uma ideia, mais ou menos como Sauron em Senhor dos Anéis. A ameaça se torna mais concreta apenas no final, quando o autor acelera na ação e faz um final que não admite tomada de fôlego, principalmente pelo inimigo ser mais poderoso do que até então se imaginava. No filme é quase o oposto: a ameaça mogadoriana se mostra sempre presente, em diversas cenas que mostram os mogadorianos no encalço do número 4 (inclusive na ótima cena do supermercado). Só que no final, os mogadorianos são vencidos até facilmente (se comparado com a batalha do livro, claro), dando um aspecto de "super-herói imbatível" aos lorienos. Particularmente, acho a fragilidade deles diante de um inimigo muito maior (pelo menos, no presente momento), o que torna a história mais interessante.

filme livro eu sou o número quatro

De certo modo, essa aura de fragilidade que o livro me passou e o filme não, do protagonista estar apenas nos seus primeiros passos na sua jornada heróica, se deve ao fato dele ter no livro uns 15 anos, e no filme, o ator Alex Pettyfer ter cara de mais velho. Além disso, outra diferença gritante entre livro e filme é que no filme, logo na sua primeira cena no jet ski, percebemos que o 4 é bem mais chamativo, atraindo a atenção das pessoas com suas manobras radicais (no livro ele também atrai a atenção, mas apenas sem querer). No filme, como um produto fechado, não creio que isso atrapalhe. O problema é numa eventual continuação: se você deixa o seu protagonista muito forte, o seu próximo inimigo também tem que se fortalecer ainda mais, senão o herói vai superar o que? E sem superação, qual é a graça? Tirando esse detalhe, a atuação no geral é boa. Destaque para as meninas, claro, já que Dianna Agron e Teresa Palmer (totalmente diferente de seu trabalho anterior em O Aprendiz de Feiticeiro) estão lindas.

filme livro eu sou o número quatro

Eu Sou o Número Quatro, o filme, é uma diversão bacana. Sim, tem várias pontas soltas e coisas mal explicadas (a arca loriena que Henri carrega, por exemplo), mas que são explicadas no livro. Talvez a intenção seja explorar esses aspectos numa possível continuação? O ponto é que apesar disso, o filme tem bastante ação, bons efeitos especiais e a história continua interessante. Vale uma sessão da tarde descompromissada.

Eu Sou o Número Quatro, o livro, é uma grande mistura de ficção científica, aventura, drama/romance adolescente e fantasia. É uma leitura agradável e cativante, com uma história claramente voltada ao público adolescente. E os dizeres da capa, com o "autor" afirmando ser uma história verdadeira, dá ao livro um tom engraçado. Ou será que dá pra confiar em alguém que se chama "Pittacus Lore" (lore = folclore) e cujos planetas da história sejam nomes bem tolkenianos? (Lothlorien, floresta onde vive Galadriel, e Mordor, onde reside Sauron, são nomes bem parecidos com Lorien e Mogadore, não?) Engraçadinho.

Trailer do filme:



Para saber mais sobre o filme: crítica no Omelete.

2011-01-02

Filme: 15 Anos e Meio

Ao falarmos de cinema francês, associamos este mais a filmes dramáticos, profundos e intensos. Bem, este não é o caso de 15 Anos e Meio (ou 15 ans et demi no original), comédia familiar francesa extremamente leve e caricatural, indicada para aqueles momentos em que queremos mais é desligar o cérebro.

filme 15 anos e meio poster cartaz

15 Anos e Meio é a idade da jovem Églantine (a lindíssima Juliette Lamboley). Seu pai Philippe (Daniel Auteuil) é um renomado biólogo que mora e trabalha nos Estados Unidos, e eles não mantém muito contato. E é quando Philippe precisa voltar a França para tomar conta alguns dias de Églantine, que a história começa. As desavenças e diferenças entre um pai ausente que não sabe como ser pai de uma adolescente, e uma adolescente típica da sua idade, o que quer dizer egocentrada e egoísta.

filme 15 anos e meio
15 Anos e Meio é um daqueles típicos filmes em que pai e filha não se conhecem, mas acabam convivendo juntos e se entendendo. A diferença neste é que a partir de certo ponto, a dinâmica entre os dois personagens sofre uma "pausa", deixando de ser o foco do filme, e temos duas linhas narrativas, uma para o Philippe e outra para Églantine. Enquanto Philippe trabalha consigo mesmo para aprender a ser pai de uma adolescente (frequentando um curso para isso), enquanto divide seu tempo trabalhando na cura da calvice (já que os franceses perderam a corrida para o Viagra, o próximo el dourado da indústria farmacêutica são os cabelos), Églantine vive os típicos dramas adolescentes, entre amores e amizades, no melhor estilo "Malhação" de ser.

filme 15 anos e meio
Como já disse, o filme é bastante caricatural, tanto nas situações quanto nas interpretações. Em especial, Auteuil vive um Philippe totalmente caricato, que vive tendo conversas com seu amigo imaginário Einstein (!) enquanto se envolve em confusões e grandes trapalhadas, como diria o apresentador da Sessão da Tarde.

filme 15 anos e meio
E isso não é necessariamente nenhum demérito, já que filmes caricatos e os da Sessão da Tarde só têm fama de serem ruins porque a maioria efetivamente é. Mas não é o caso deste 15 Anos e Meio, que consegue ser simpático, mesmo navegando por clichês. E isso se deve em grande parte, ao carisma da dupla de protagonistas, Auteuil e Lamboley.

Enfim, 15 Anos e Meio é um filme simpático, uma comédia bobinha que só renderá litros de gargalhadas se você tiver no máximo, a idade mental do título (ou se se dispuser a baixar o seu nível de crença/crítica). Longe de ser memorável (no sentido bom e ruim), o filme tem uns bons momentos. E é uma boa oportunidade para desmanchar o clichê do cinema sisudo francês.

Trailer legendado:



Para saber mais: texto no Cenas de Cinema.

2010-12-05

Filme: Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1

Antes de mais nada, devo dizer que não sou um ardoroso fã da saga de Harry Potter. Vi todos os filmes, uma única vez cada um, e ainda não li nenhum dos livros (mas pretendo um dia lê-los, estão todos guardados no armário). Dito isso, posso dizer, sem me deixar influenciar por "fãzismos", que Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 (ou originalmente Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1) faz jus ao termo marketeiro de "épico". Sim, o filme é sensacional.

filme harry potter e as relíquias da morte parte 1 poster cartaz

Creio que eu seja uma das poucas pessoas no mundo a não saber o final de Harry Potter, mas como é de praxe falar sobre a história... Voldemort finalmente voltou com tudo, e seus asseclas, os comensais da morte, se infiltraram em todos os lugares. Com a ameaça cada vez mais no cangote, Harry Potter (Daniel Radcliffe), com seus amigos Ron Weasley (Rupert Grint) e Hermione Granger (Emma Watson) acabam fugindo e ficando isolados, após fugirem de um ataque na festa de casamento do irmão de Ron. Pela primeira vez realmente sozinhos, os três acabam embarcando numa jornada (literalmente) atrás das horcruxes, onde estão partes da alma de Voldemort.

filme harry potter e as relíquias da morte parte 1
A cada filme, a série vem se tornando mais sombria e mais adulta. Este Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1, pode ser chamado, sem dúvida, de um filme para adultos (não me refiro aos XXX). O filme reúne momentos de intensa dramaticidade, cenas de ação muito bem feitas e um desenvolvimento estupendo dos personagens. Pra mim, a melhor cena de todo o filme é a cena logo no início, em que Hermione apaga a memória dos pais e todo traço de sua existência para/com eles, para protegê-los. E se essa cena foi, pra mim, a mais marcante, saiba que as cenas posteriores não deixaram por menos.

filme harry potter e as relíquias da morte parte 1
O mundo de Harry Potter 7.1 é um mundo em guerra. E, como tal, acabam sendo tempos sombrios. Até mesmo os excelentes alívios cômicos, propiciados em sua maioria pela família Weasley, soam como risadas nervosas à beira de uma batalha.

filme harry potter e as relíquias da morte parte 1
Tendo quase duas horas e meia de duração, e compreendendo mais ou menos apenas metade do livro, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 consegue desenvolver maravilhosamente bem os personagens e seus interrelacionamentos. O ritmo mais lento consegue, inclusive, fazer um grande feito, que é dar uma boa noção da passagem do tempo, enquanto os jovens bruxos "acampam" por aí. Isso é algo geralmente complicado em filmes, tanto que, por exemplo, no primeiro Senhor dos Anéis, a versão para cinema faz com que a jornada dos personagens pareça um passeio no parque (problema resolvido na versão extendida). E só me lembrei mesmo de Senhor dos Anéis porque a horcrux que os personagens carregam por um tempo parece afetá-los tanto quanto o Um Anel. :)

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Definitivamente, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 é um filme voltado para os fãs. Quanto mais hardcore o fã, mais ele sairá extasiado da sessão, pois as referências aos filmes (e livros) anteriores são muitas, e importantes, dentro do contexto do filme. Por isso, alguém como eu, apenas um médio espectador, às vezes se sente um pouco perdido, mas nada que comprometa o filme como um todo. E não poderia deixar de citar a animação bacana que explica o que são as relíquias da morte, do título. (E eu achava que as horcruxes é que eram as tais relíquias...)

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Com excelentes atuações (em especial, do trio de protagonistas), e uma direção confiante de David Yates, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 é, sem dúvida, o melhor filme da série até agora (e também um dos melhores do ano). Que venha logo a parte 2.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Omelete e no Cinema em Cena.
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