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2013-09-19

Filme: Rush - No Limite da Emoção

Antes de mais nada, tenho que confessar que não gosto de Fórmula 1. Não, estou sendo generoso demais. Eu detesto Fórmula 1, acho muito enfadonho e sem graça. Por isso, foi uma grata surpresa assistir o filme Rush - No Limite da Emoção (apenas Rush, no original) e sair da sessão com um sorriso no rosto, por ter visto um excelente filme.

filme rush - no limite da emoção poster cartaz

Rush - No Limite da Emoção nos traz a história real da histórica rivalidade entre dois pilotos de Fórmula 1 nos anos 70, o austríaco Niki Lauda (interpretado no filme por Daniel Brühl) e o inglês James Hunt (interpretado por Chris Hemsworth, mais conhecido como Thor). A rivalidade entre eles se inicia ainda na Fórmula 3, no início de suas carreiras, e culmina no campeonato de Fórmula 1 de 1976, um dramático ano, quando Lauda sofre um acidente que quase custa-lhe a vida.

filme rush - no limite da emoção james hunt niki lauda

Não bastasse a história interessante, Rush - No Limite da Emoção (ou apenas Rush daqui em diante) tem o grande mérito de saber contá-la muito bem. Na primeira parte do filme, o roteiro de Peter Morgan vai construindo a história individual de Lauda e Hunt, como se fosse uma corrida em que cada um se reveza um pouco na dianteira, com eventuais esbarrões onde eles interagem. Ou seja, o filme dá um espaço igual aos dois pilotos, o que acentua ainda mais a diferença entre eles: enquanto Hunt é mulherengo, bon-vivant e destemido, Lauda é cauteloso, calculista e inteligente. O que eles têm em comum é o desejo de vitória, apesar de mesmo as motivações para isso serem diferentes, coisa que é acentuada desde o primeiro encontro, até o último mostrado no filme, nas cenas finais.

filme rush - no limite da emoção chris hemsworth champagne

Além do ótimo roteiro, visualmente também Rush é fantástico. Com uma fotografia granulada, que simula os filmes dos anos 70, Rush tem uma boa direção de arte, que recria bem o visual setentista. Outro destaque são as cenas que ilustram as corridas de Fórmula 1, sejam aqueles planos de dentro do carro, sejam aqueles clássicos planos de câmeras do lado da pista. Mesmo com o eventual uso de CGI (computação gráfica), o visual é extremamente realista. Adicione-se a isso os excelentes design de som e edição, e o resultado são cenas muito empolgantes (mesmo para quem acha as corridas um tédio na vida real, como eu).

filme rush - no limite da emoção daniel bruhl ferrari

Tudo isso, entretanto, seria vazio se Rush não apresentasse personagens humanos e críveis. Nesse ponto, Rush também não perde a pole: as atuações estão excelentes. Apesar do papel de Hunt não oferecer tanto desafio assim a Chris Hemsworth, o ator funciona bem como o cara que quer aproveitar o máximo da vida sem pensar muito no amanhã. O destaque, entretanto, é para o excelente Daniel Brühl. Fisicamente impecável como Niki Lauda (a princípio não reconheci o ator, que usa próteses dentárias para ficar com a "aparência de rato" de Lauda), o ator, que já se mostrou um grande intérprete em vários filmes (destacando-se para o grande público em Bastardos Inglórios), não só consegue interpretar o personagem de maneira ótima antes, mas também durante e depois do acidente que Lauda sofre e o desfigura parcialmente (destaque para a cena da entrevista pós-retorno, com uma atuação fantástica).

filme rush - no limite da emoção alexandra maria lara daniel bruhl

E em se tratando de Fórmula 1, não é possível deixar de lado as belas mulheres. E o filme tem pelo menos três beldades que merecem destaque, não apenas pela beleza, mas pelas atuações que nada deixam a desejar: a sempre sensual Olivia Wilde como a modelo (ex-)esposa de Hunt Suzy Miller, Alexandra Maria Lara como Marlene Lauda, esposa e grande apoiadora de Niki, e a linda Natalie Dormer, mais conhecida pelos fãs de Game of Thrones como Margaery Tyrell, num papel secundário como uma das "peguetes" de Hunt (Huntete?).

filme rush - no limite da emoção olivia wilde

No final das contas, Rush - No Limite da Emoção é menos sobre carros, velocidade e Fórmula 1 do que sobre rivalidade, competitividade e até mesmo amizade. E isso é o que torna o filme excelente e passível de identificação por qualquer um. Nem todo mundo gosta de carros e velocidade, mas só quem não é humano não reconhecerá a grande história por trás desses pilotos e sua rivalidade.

Trailer:



Para saber mais: críticas no AdoroCinema, Omelete e blog do Rubens Ewald Filho.

2013-09-12

Filme: Jobs

Muitos diriam que se fossem descrever Steve Jobs em uma palavra, usariam "gênio". Tendo lido a sua biografia escrita por Walter Isaacson (um calhamaço de mais de 600 página que vale cada linha), a palavra que me vem à mente quando ouço o nome Steve Jobs é "cretino". De fato, estou até sendo benevolente, pois apesar de sua inegável genialidade comercial, pessoalmente, frequentemente ele foi um canalha. Mas também foi admirável. Se isso soa paradoxal, acostume-se: Jobs era assim mesmo. Um personagem fascinante, cuja história pessoal é inseparável da empresa que criou, a Apple, e cuja cinebiografia Jobs infelizmente falha em retratar.

filme Jobs cartaz poster

Dirigido pelo relativamente desconhecido Joshua Michael Stern, o filme Jobs não é um filme ruim, mas se mostra bastante fraco, especialmente por causa de seu roteiro, assinado pelo estreante Matt Whiteley. Englobando um longo período de tempo, desde a década de 70 (com a faculdade e o surgimento da Apple) até o começo dos anos 2000 (terminando com o lançamento do primeiro iPod), o filme peca em mostrar de relance ou apenas mencionar vários episódios importantes da vida de Jobs, como a sua viagem à Índia (mostrada de relance), seu conflito interno por ser adotado (apenas mencionado durante uma "viagem") e especialmente, o relacionamento com sua primeira filha, Lisa, que depois de ser abandonada e relegada por Jobs durante boa parte de sua juventude, aparece magicamente convivendo com ele, depois de um salto temporal no filme. São várias coisas que o filme cita ou mostra rapidamente (como a mulher de Jobs), mas não se aprofunda. A impressão para quem não conhece a história real é uma sensação de incompletude, mostrando acontecimentos que nunca mais serão citados nem concluídos.

filme Jobs Steve Woz

Jobs, o filme, reúne um grande conjunto de bons atores coadjuvantes, com destaque para Dermot Mulroney como Mike Markkula (o primeiro investidor da Apple) e Josh Gad como Steve Wozniak (o gênio da engenharia por trás do talento comercial de Jobs). E apesar da boa caracterização de Ashton Kutcher como Steve Jobs, com o visual e imitação de trejeitos merecendo aplausos, a atuação do protagonista deixa um pouco a desejar, se revelando inconstante ao longo da projeção: ora sendo caricato demais (andando como Jobs mais velho), ora faltando expressão (nos momentos mais dramáticos, em que a sua expressão facial falha em mostrar um sentimento).

filme Jobs equipe reunida Apple original

Steve Jobs era uma pessoa de extremos. Realizou grandes feitos, mas também fez muita merd@ na vida. Com seus paradoxos e idiossincrasias, era também extremamente humano. E tudo isso o filme falha em ser: não se enquadra em nenhum extremo (não é tão bom assim, mas também não é tão ruim assim, ficando naquela área da mediocridade) e também falha em ser humano (Jobs ora é retratado com reverência reservada a um deus, ora se mostra um vilão cartunesco). Se fosse vivo e assistisse este filme, provavelmente teria um de seus famosos ataques de temperamento. Sem deixar de ter uma boa razão.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Cinema em Cena e no Omelete.

2012-11-21

Filme: Histeria

"O que fazemos na vida ecoa na eternidade!", dizia Russel Crowe em Gladiador. Bem, os personagens do filme Histeria (no original Hysteria) poderiam adaptar a frase para "O que fizemos na vida, vibra na eternidade!". Isso porque o filme romanceia de maneira leve e divertida (e até meio caricata) a invenção do vibrador, o acessório erótico amigo número um das mulheres.

filme histeria poster cartaz maggie gyllenhaal hugh dancy

Histeria nos apresenta o doutor Mortimer Granville (Hugh Dancy), um jovem médico na era vitoriana em Londres, que não consegue se fixar em emprego algum em hospitais londrinos, por sempre bater de frente com os médicos mais velhos e seus chefes, que abominam as novidades da medicina que o jovem doutor prega (coisas como germes e assepsia). Desesperado por um emprego, ele acaba se tornando assistente do doutor Robert Dalrymple (Jonathan Pryce), cuja especialidade são mulheres. Mais precisamente, mulheres que sofrem da chamada histeria feminina.

filme histeria maggie gyllenhaal hugh dancy

Parêntese explicando algumas coisas (que podem ser considerados potenciais spoilers dos momentos cômicos). Se não quiser ler, pule o parágrafo abaixo:

Esta pseudo-doença, a histeria feminina, era usada como um diagnóstico genérico para várias condições femininas, geralmente com fundo psicológico, e no filme, sempre ligadas a falta da satisfação do desejo sexual, seja pela falta de um cônjuge ou pela inabilidade deste nas artes românticas, como frisam os personagens algumas vezes durante a projeção. O tratamento médico para tratar as "mulheres histéricas" era a chamada "massagem pélvica", em que os médicos estimulavam manualmente as mulheres (hoje conhecido como masturbação feminina, mas na época, era apenas uma singela e inocente massagem) até que elas alcançassem o "paroxismo histérico", hoje conhecido como o famoso orgasmo feminino, mas que na época era "medicamente" apenas paroxismo, pois "sabia-se" que as mulheres apenas sentiam prazer com penetração. Só pela descrição textual nota-se que é algo engraçado hoje em dia (zombar do "conhecimento científico" do passado geralmente é), e as situações envolvidas nisso rendem as melhores risadas do filme.

filme histeria jonathan price felicity jones hugh dancy

Voltando a trama, Mortimer Granville se instala na casa do doutor Dalrymple, onde conhece as duas filhas, a doce e "perfeita" Emily (Felicity Jones) e a impetuosa e com ideias avançadas e modernas Charlotte (Maggie Gyllenhaal). A princípio Mortimer se encanta por Emily, mas aos poucos o espírito de Charlotte começa a fazer efeito nele. Enfim, como comédia romântica e os nomes no cartaz sugerem, você sabe que os dois no final vão ficar juntos.

Histeria tem, na verdade, duas tramas paralelas. A primeira e mais engraçada é a invenção do vibrador (que é um tanto romanceada segundo minhas pesquisa wikipedianas - ver principalmente o livro The Technology of Orgasm: "Hysteria," the Vibrator, and Women's Sexual Satisfaction de Rachel P. Maines -, já que o doutor Joseph Mortimer Granville, detentor da patente do primeiro vibrador elétrico, teria inventado o equipamento para outros fins e outros médicos é que acabaram usando a máquina para fins "massagísticos pélvicos"). A segunda trama é a obrigatória história de amor entre os personagens, que acontece de acordo com os clichês do gênero: no começo os personagens não se bicam, mas no final, se descobrem apaixonados.

filme histeria vibrador

Essa parte infelizmente é a mais fraca do filme, com o desenvolvimento dos sentimentos dos personagens um tanto fraco. O que eclipsa o romance é o discurso moderno proferido pela personagem de Maggie Gyllenhaal, que trabalha numa espécie de centro comunitário cuidando de crianças e mulheres, versando sobre suporte aos mais desafortunados e principalmente os direitos das mulheres (ao voto, ao corpo e tudo o mais que hoje as feministas e qualquer um que viva no século atual sabem de cor e salteado). De fato, tirando a parte mais cômica envolvendo o vibrador, é Charlotte que consegue levar o filme adiante, com sua paixão (e atitudes altruístas) pelas mulheres, seus direitos e problemas.

filme histeria maggie gyllenhaal hugh dancy

Além de uma boa direção de arte retratando a Londres da época, Histeria tem como grande mérito as atuações. Maggie Gyllenhaal, como sempre, é sensacional (como fã dela, talvez eu seja suspeito pra falar isso, mas é inegável que a atuação da atriz carrega boa parte do filme). Hugh Dancy consegue segurar como co-protagonista, mesmo seu personagem sendo claramente inferior (especialmente no sentido de se sentir inseguro) diante às mulheres no filme. Os coadjuvantes também estão bem, com destaque para Jonathan Pryce e Rupert Everett como amigo de Mortimer, apesar deste estar irreconhecível (quem lembra dele em O Casamento do Meu Melhor Amigo irá tomar um susto).

Enfim, Histeria é um filme simpático e leve, apesar dos temas sexuais (boa parte disso se deve ao tom caricato dos personagens, tendendo visivelmente para a comédia). É divertido, mas não foge das clássicas fórmulas de comédias românticas. Não é exatamente um filme vibrante, mas, relaxando, é bem divertido.

Trailer (que tira muito da graça do filme, esteja avisado):



Para saber mais: crítica no Omelete.

2012-09-11

Filme: O Moinho e a Cruz

Quem acompanha este blog, já deve ter percebido que eu gosto de artes e manifestações artísticas em geral. Uma das ramificações da arte que eu gosto, mas que não transparece por aqui, são aquelas pinturas renascentistas, cheias de detalhes, significados, simbolismos e histórias escondidas (mas visíveis). Se, assim como eu, você gosta de saber ou mesmo imaginar a história por trás dessas obras, deve adorar o filme O Moinho e a Cruz (ou no original The Mill and the Cross). Sem dúvida, eu adorei.

filme o moinho e a cruz poster cartaz

O filme O Moinho e a Cruz, baseado em um romance histórico de mesmo nome (não lançado por aqui e escrito por Michael Francis Gibson, que também co-escreve o roteiro), imagina o que o artista Pieter Bruegel (interpretado no filme por Rutger Hauer), deve ter visto e presenciado para pintar A Procissão ao Calvário. A tela, pintada a óleo em 1564, é povoada por diversos personagens, mas tem em seu cerne a procissão de guardas e aldeões acompanhando o calvário de pessoas sendo levadas para execução, com claras referências religiosas. Não me aprofundarei na análise, nem na descrição da pintura, já que isso seria dar spoiler, uma vez que é este o tema do filme, e recomendo muito assisti-lo.

O Moinho e a Cruz a primeira vista, causa impacto e é bem peculiar. Um dos motivos é a sua fotografia, que usa muito chroma key (o famoso fundo verde no qual são projetados imagens). O efeito do chroma key, por melhor que seja, geralmente é notado pelo olhar. No caso de O Moinho e a Cruz, esse efeito não é disfarçado, ao contrário, é exacerbado. Isso porque a o que é projetado no fundo é uma mistura de um cenário pintado (à la arte de Bruegel, muito bem feito, aliás, com as cores, saturação e contraste impecáveis), com atores. É como se na tela mostrasse a pintura, tendo alguns elementos substituídos por imagens reais (sobretudo os atores), nas cenas que se passam no ambiente retratado na Procissão ao Calvário, em diferentes graus de profundidade.

filme o moinho e a cruz

E isso já é visto logo na cena inicial, que basicamente recria a tela usando essa técnica, onde é mostrado Bruegel arrumando algumas pessoas em primeiro plano, enquanto atrás é mostrado a projeção no chroma key, com o cenário pintado e alguns atores pré-gravados, enquanto a câmera lentamente desliza para a esquerda, simulando o olhar do espectador num quadro grande e com tantos detalhes (A Procissão ao Calvário é a segunda maior tela do artista, com 1,7 m de comprimento).

A escolha deste estilo visual remete ao espectador a constante lembrança de que o que ele vê na tela é um universo ficcional. Ao contrário do que isso possa soar, isso não diminui o filme. Essa constante lembrança é um dos charmes do filme, que não nos faz esquecer da sua origem, que é a interpretação de uma pintura. Neste sentido, o filme pode desagradar os que procuram uma imersão maior apenas no enredo da história.

filme o moinho e a cruz

O outro aspecto peculiar de O Moinho e a Cruz são seus diálogos, ou a falta deles. Para se ter uma ideia, passam-se vários minutos antes que algum diálogo seja falado. Isso só reforça a intenção do filme, já exacerbada pela fotografia, em ser como uma pintura. Afinal, num quadro só conta-se com a imagem para passar qualquer mensagem. E o filme é bem eficaz neste quesito. Apesar de no início nos sentirmos um pouco perdidos no contexto (especialmente se como eu, o espectador não souber nada do filme, ao contrário de você, leitor, que já leu até aqui), logo os poucos diálogos conseguem explicar, de maneira sucinta, todos os pontos que poderiam levantar dúvida.

As poucas falas pertencem principalmente a Hauer e seu Bruegel, que de maneira didática, mas não extremamente for dummies, explica os elementos da pintura que planeja. Além do protagonista, apenas Michael York interpretando Nicolaes Jonghelinck (o colecionador que provavelmente encomendou a pintura e a comprou) e Charlotte Rampling como Maria têm falas relevantes.

filme o moinho e a cruz

Com um design de produção eficiente, o filme também é interessante ao retratar o dia a dia de uma pequena comunidade, basicamente rural, no final da idade média/início do renascentismo. Cheio de simbolismos, as cenas dentro do moinho, por exemplo, são visualmente impressionantes, mostrando o imenso moinho por dentro, com suas enormes engrenagens e a longa escada até o topo do moinho (e a grandiosidade do moinho tem a ver com o seu simbolismo como Deus na pintura, inclusive com a enorme escada até o topo me lembrando a famosa música Stairway to Heaven). Além disso, é interessante também o simbolismo do moinho como o Deus-pai-provedor ao enfatizar seu papel moendo os grãos e formando a farinha, que serve como pão e alimento.

filme o moinho e a cruz

Dirigido e co-roteirizado por Lech Majewski, O Moinho e a Cruz tem como grande diferencial, a princípio, a origem inusitada (transpor para um filme, interpretações das histórias contidas numa pintura). Some-se a isso a fotografia interessante e até mesmo valente, os simbolismos adjacentes e a explicação da pintura de maneira eficaz (sem parecer uma aula chata e nem muito condescendente), e obtemos um grande filme. Diferente, inusitado, sem dúvida. Talvez até com a tacha de experimental. Mas, sem dúvida, uma obra de arte. Das boas.

Mais sobre Pieter Bruegel na Wikipedia e sobre o quadro A Procissão ao Calvário (ambos em inglês). Link direto para a pintura: via wikimedia.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Omelete.

2012-02-11

Filme: J. Edgar

Geralmente conhecemos J. Edgar Hoover, o famoso diretor do FBI, que por décadas se manteve no poder e que detinha muitos segredos, apenas pela sua fama. Uma fama quase sempre nada boa, diga-se de passagem: paranóico, obstinado, chantageador, conhecedor de incontáveis segredos e que não tinha escrúpulos em usá-los e nem como consegui-los... Enfim, um belo de um fdp. Esta sua cinebiografia, J. Edgar, dirigida por Clint Eastwood e escrita por Dustin Lance Black (que roteirizou outro bom filme baseado num personagem real, Milk - A Voz da Igualdade), explora não apenas esses aspectos, mas vários outros, o que a torna fascinante e interessante, moldando um personagem tridimensional verossímil, sem, entretanto, nunca apresentar uma teoria fechada e definitiva de por que Hoover era como era.

filme j. edgar leonardo dicaprio poster cartaz

E apesar de isso poder ser apontado como uma falha por alguns, eu não compartilho desta opinião. Afinal, seres humanos são complexos, muito complicados se forem analisados individualmente e não encaixados em grupos (de/ou) estereótipos. Por isso, qualquer que fossem os motivos internos que levavam Hoover a ser como era, provavelmente toda e qualquer teoria seria, no máximo, incompleta (correndo o risco de ser totalmente incorreta). Essa postura de Eastwood, de não apresentar o personagem como alguém totalmente já compreendido pela história, pode tanto ser um não-comprometimento por medo, quanto um olhar isento de documentarista. Apesar de não ser um documentário, creio que foi por esta última abordagem que o cineasta se norteou.

filme j. edgar leonardo dicaprio

J. Edgar traz Leonardo DiCaprio como o personagem principal, na pele de Hoover. Ou sob a pele de Hoover, já que a maquiagem pesada dos períodos em que Hoover está mais envelhecido não consegue esconder o rosto jovial do ator (que continua com cara de moleque, mesmo que ele já tenha passado dos 37 anos). Entretanto, é injusto dizer que o departamento de maquiagem do filme seja ruim. Há sim, momentos em que DiCaprio se transforma no Hoover, especialmente na meia-idade. Infelizmente, essa boa maquiagem não o acompanha quando se torna mais velho, e nem em nenhuma idade quando se trata da maquiagem de Armie Hammer (mais conhecido como os gêmeos de A Rede Social), que interpreta Clyde Tolson, segundo em comando no FBI e (na vida real supostamente) companheiro amoroso de Hoover. Completando o elenco principal, temos ainda a sempre linda Naomi Watts como Helen Gandy, a secretária pessoal de Hoover, que assim como Tolson, acompanhou J. Edgar Hoover por toda a vida no FBI. Destaque também para Judi Dench, como mãe de Hoover.

filme j. edgar leonardo dicaprio naomi watts

J. Edgar Hoover com certeza merece admiração e repulsa, ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo que modernizou a investigação de crimes (e é bem interessante o filme mostrando a criação dos primeiros e quase mambembes laboratórios de criminalística), Hoover via a lei como algo que poderia ser dobrado, quando do seu interesse (que, obviamente, sempre levava "a consideração da proteção do país"), e provavelmente conseguiu se manter como chefe máximo do FBI por tanto tempo por causa dos segredos que descobriu com escutas ilegais. Na vida pessoal, era uma pessoa complexa: homossexual, tinha de viver numa época em que não podia ser realmente o que era (como deixam bem claro as suas interações com a mãe), bem como por causa do seu trabalho, que ironicamente, apoiava-se muito na percepção da reputação das pessoas.

filme j. edgar leonardo dicaprio

J. Edgar é contado pelo ponto de vista do personagem, que na trama está ditando suas memórias. Assim, passado e presente (o período em ele já está com uma certa idade) vão se entrelaçando (com destaque para a boa montagem). Por isso, é natural que em certas partes o personagem seja caracterizado como um grande herói. Mas Eastwood, no ato final, dá um certo tapa na cara da audiência, quando Tolson confronta Hoover, apontando grandes incoerências no que vimos da história no filme, que sempre foi filmado com base no olhar do personagem de DiCaprio. Assim, fica-se na dúvida sobre muito do que foi visto: teria sido aquilo mesmo ou uma versão deturpada? A resposta é incerta, assim como os arquivos secretos de Hoover. (E que apesar de no filme se tratar mais de algo parecido com a coluna de fofocas de uma Caras, poderiam conter fatos mais interessantes, digamos assim. Fox Mulder feelings.)

filme j. edgar leonardo dicaprio armie hammer judi dench

J. Edgar não traz respostas definitivas para o personagem. De fato, acaba levantando algumas questões. Mas ainda é fascinante, ao enxergarmos o homem que praticamente construiu o FBI, uma instituição quase mítica hoje em dia (graças ao cinema e às séries) e que, mesmo hoje, ainda continua ligada a ele ("um inventou o outro", como é dito a certa altura do filme). Sem dúvida, J. Edgar é outro ótimo trabalho de Eastwood na direção e vale a pena ser conferido. Mesmo sem respostas definitivas. Mas afinal, na vida, quem as tem?

Trailer:



Para saber mais: crítica no Cinema em Cena e no Omelete.

2012-01-16

Filme: O Último Dançarino de Mao

Baseado na autobiografia, o filme O Último Dançarino de Mao (ou Mao's Last Dancer no original) tem elementos clássicos de filmes de superação, bem como um contexto político e o drama pessoal. Mas também é uma história que, no fundo, poderia ser transcrita usando outras grandes figuras da humanidade, pois reúne determinação, escolhas, egoísmo e até mesmo, um toque de destino (se você acredita em desígnios), no caminho da elaboração e execução de uma grande obra, no caso, a arte da dança.

filme o último dançarino de mao poster cartaz

Tendo como base o livro autobiográfico do dançarino/bailarino chinês Li Cunxin (vivido na idade adulta por Chi Cao), O Último Dançarino de Mao mostra a história de Li desde a sua infância na pobre província rural de Shangdon, onde nasceu, cresceu e onde, ainda criança, foi escolhido para fazer parte do grupo de balé da escola de artes de Beijing. Deixando para trás sua família, Li Cunxin passa por um rigoroso treinamento na escola (com direito até a um momento meio Dragonball, onde usa pesos pra treinar e se fortalecer para executar certos movimentos). A árdua prática é recompensada quando ele é escolhido para ir ao Estados Unidos em 1979, onde estudaria balé por alguns meses no grupo dirigido por Ben Stevenson (Bruce Greenwood), seu tutor no país. Entretanto, ao chegar no país da liberdade (ou nem tanto assim hoje em dia), o choque cultural e a paixão pela jovem e bela aspirante bailarina Elizabeth Mackey (Amanda Schull) fazem com que Li queira permanecer nos EUA, o que acaba causando um incidente diplomático na embaixada chinesa.

filme o último dançarino de mao

Contado de maneira não-linear (a narrativa é pontuada por flashbacks, às vezes bem longos), O Último Dançarino de Mao tem uma boa narrativa, mesmo que se note que certos assuntos são menos explorados do que no livro (o que é compreensível), como por exemplo, a puberdade de Li Cunxin e a escolha de sua parceira de balé, que deveria permanecer sempre a mesma. Além disso, a montagem contribui, fazendo com que os flashbacks se integrem bem à linha temporal principal, como por exemplo, quando no passado um Li criança, na sala de aula depois de um discurso político contra o capitalismo, diz que eles (os moradores de países capitalistas) devem viver uma vida muito ruim (por não ter um governo que os supra de comida e trabalho), e então a cena corta para Li, já adulto, pela primeira vez, no clima descontraído de uma danceteria (ou melhor, discoteca - lembrem-se que estamos no final dos 70 e início dos 80).

filme o último dançarino de mao

E já que falamos da época do filme, bem marcante por sinal, O Último Dançarino de Mao consegue ter uma boa ambientação temporal, tanto na maquiagem (oh, os penteados anos 80...) quanto nos figurinos (roupas que hoje só dariam vergonha alheia). Outro aspecto visual importante é a fotografia, que não raramente se mostra bastante granulada e com cores um pouco opacas, dando um tom envelhecido, desbotado, às imagens.

Com conteúdos políticos claramente expostos no filme, com vários exemplos, como a "lavagem cerebral" dos camponeses para com a revolução de Mao; o professor de dança preso por não concordar com a deturpação da arte em nome de um balé marketeiro-revolucionário-comunista; o medo inicial de Li Cunxin de não falar bem de seu líder na América; a pobreza da família de Li, cujo um dos maiores tesouros é uma caneta, entregue a Li por seu pai e que ganhara do avô com o sonho de um dia o filho conseguir ler e escrever; e culminando com o episódio na embaixada, que criou um rebuliço diplomático, O Último Dançarino de Mao acertadamente não se aprofunda nesses temas de maneira realista, preferindo um maniqueísmo simples (a exaltação da liberdade americana, na frase proferida por Li "Eu danço melhor aqui porque me sinto mais livre", como maior exemplo), mas foca na história de vida e na figura inspiradora do bailarino (que hoje, depois de ter se aposentado do balé, além de bem sucedido empregado do setor financeiro, é um palestrante motivacional).

filme o último dançarino de mao

O Último Dançarino de Mao nos apresenta ainda números de dança excelentes. Mesmo que o foco do filme seja a história de superação, isso não quer dizer que o aspecto visual/gráfico dos espetáculos seja esquecido, muito pelo contrário. O diretor Bruce Beresford filma as várias peças de balé que aparecem no filme de maneira ótima, bem dinâmica, chegando mesmo a parecer melhor que certos filmes musicais (também contribui para isso, o fato dessas cenas não serem tão longas quanto em musicais), especialmente a última apresentação formal do filme (que tem um final especialmente emocionante). Contribui muito para isso o fato do ator principal, Chi Cao ter sido escolhido pelo próprio Li Cunxin, sendo que Chi Cao é filho de ex-professores de Li, fora que há uma boa semelhança entre os dois, especialmente no físico. (E se alguém vier com a piada de que poderia ter escolhido qualquer chinês dançarino porque "chinês é tudo igual", saiba que essa piadinha está no filme, mas genialmente, de maneira inversa.)

Destaque ainda para Chengwu Guo, que interpreta Li na adolescência. Aliás, as interpretações estão muito boas, tanto do elenco oriental quanto do ocidental. E é surpreendente que tanto Chengwu Guo quanto Chi Cao sejam bailarinos e não atores profissionais. Entretanto, o primeiro consegue imprimir uma carga dramática ao seu personagem bem maior, talvez por atuar na língua materna. Chi Cao parece um pouco atordoado com o que acontece ao seu redor, o que é a reação esperada do seu personagem. Nesse aspecto, tanto faz se isso é intencional ou não, pois o resultado é bastante verossímil.

filme o último dançarino de mao

O Último Dançarino de Mao é um filme sobre escolhas, desígnio, vontade e superação humana, sobretudo na arte de cada um. (E claro, o "egoísmo" envolvido nisso. No filme, isso se vê pela necessidade dele de dançar livre, mesmo que isso acabe custando a impossibilidade dele ver a família por longos anos, por exemplo.) E a recapitulação no final, além de prover o momento emocionante da jornada, deixa claro tudo isso. Aliás, nos emocionamos porque a superação pessoal, de alguma forma, ressoa em cada um de nós, mesmo que não façamos espacate (dói só de ver no filme) e não dancemos nem um dois pra cá, dois pra lá. Enfim, recomendadíssimo.

Trailer:



Para saber mais: página no site oficial (em inglês) de Li Cunxin sobre o filme.

2012-01-12

Filme: A Condenação

O filme A Condenação (Conviction, no original) tem uma sutileza interessante no nome original, infelizmente intraduzível para o português. Em inglês conviction pode significar tanto condenação (e daí o correto nome brasileiro do filme), tanto quanto convicção. E essas são duas palavras-chave do filme: uma condenação injusta e a convicção inabalável da irmã do condenado na sua inocência, que luta para libertar o irmão.

filme a condenação hillary swank sam rockwell poster cartaz

Baseado em fatos reais, A Condenação nos conta a história de Betty Anne Waters (Hilary Swank) e seu irmão Kenny Waters (Sam Rockwell). No ano de 1980, em Massachussets, um brutal assassinato ocorreu na cidade em que os irmãos moravam. Tendo antecedentes e sendo um conhecido causador de encrencas, Kenny é levado a delegacia, não sem antes provocar um pouco a policial Nancy Taylor (Melissa Leo). Ele passa a noite na delegacia, mas é liberado. Dois anos depois, ele é preso e julgado culpado, com base em testemunhos de ex-namoradas, que afirmaram que ele confessara o crime. Betty Anne, que trabalha num bar, vendo seu irmão condenado e sem amplos recursos financeiros para tentar contratar um advogado de primeira, resolve ela mesma fazer justiça. E por fazer justiça, entenda-se terminar o segundo grau (que ela havia abandonado), entrar numa faculdade de Direito, passar no exame para conseguir a licença de advogada e finalmente, conseguir um meio de provar a inocência do irmão.

Sem dúvida a história real por trás de A Condenação é uma daquelas inspiradoras, cuja persistência da personagem e sua determinação ferrenha numa causa justa emocionam a audiência. Entretanto, o mesmo não se pode dizer do filme. Por meio de flashbacks (e com alguns dentro de outros flashbacks), inseridos em vários momentos durante a trama, vemos como o forte laço que une os irmãos se formou, especialmente por viverem numa família disfuncional, onde acabavam contando apenas um com o outro. Esse desenvolvimento é a melhor parte do filme, mesmo que não ocupe grande parte da projeção. Nesse sentido, vale destacar as crianças que interpretam os irmãos na infância, Tobias Campbell e principalmente Bailee Madison (a garotinha de Não Tenha Medo do Escuro e de Esposa de Mentirinha).

filme a condenação hillary swank sam rockwell

No tempo presente, a história se desenrola de maneira bem mais previsível e bem mais monótona. Betty Anne luta para conseguir se formar, mesmo trabalhando e "perdendo os filhos" (que passam a morar na casa do pai nos dias da semana). Entretanto, para mostrar as dificuldades de Betty na faculdade, o filme não se sai bem, ora usando de clichês como o plano em que ela corre para entregar um trabalho, mas o responsável por recolhê-los não o aceita por ela estar atrasada, ou usando diálogos explicativos, como quando ela conversa com o irmão e explica por que ela está "em condicional" na faculdade, por não conseguir manter um bom desempenho. Outro fato que deixa o filme um pouco monótono é a estrutura dele: para cada avanço, parece haver um contratempo. Entretanto, cada contratempo é pouco explorado, dando uma impressão de que o problema não era tão grande assim. Tome-se como exemplo quando ela descobre a existência dos exames de DNA (lembrem-se que isso se passa nos anos 90), que pode livrar o irmão da cadeia, mas aí resta reencontrar as evidências, que depois de tanto tempo, podem ter sido destruídas. A resolução desse problema, depois de alguns telefonemas ineficazes, se resolve depois de uma única visita ao vivo ao tribunal (e se o filme nos ensina algo, é que telefonemas não funcionam, vá pessoalmente).

A Condenação é um filme de atuações, ou seja, um filme em que as atuações dos atores têm um grande peso para a qualidade da película. Nesse sentido, A Condenação tem uma protagonista que rouba a cena (até demais). Hillary Swank é a estrela absoluta do filme, e entrega uma boa atuação (apesar de achar que esta está bem aquém de suas melhores performances), eclipsando todos os outros personagens, o faz com que o filme perca um pouco. Até mesmo o bom Sam Rockwell aparece meio apagado no filme, sendo que se destaca em poucos momentos, como quando é abordado pela policial enquanto corta uma árvore ou quando se mete em uma confusão no bar, segurando a filha ainda bebê. Analisando-se isso, fica claro que o filme é sobre Betty Anne, uma vez que o personagem de Kenny é muito mal desenvolvido depois do julgamento. E se mesmo Rockwell aparece apagado na tela, os personagens coadjuvantes então... Minie Driver aparece como amiga e suporte da personagem de Swank, mas apenas fornece rápidos alívios cômicos, sem grande destaque. Melissa Leo aparece quase que em uma ponta (apesar de ser bastante importante para na história), e Juliette Lewis aparece um tanto quanto exagerada.

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O sentimento ao final da projeção é que A Condenação é um resumo de uma história bacana e emocionante, mas que deixou muitos dos detalhes (que são o que dão o verdadeiro tempero) de fora. Nesse sentido, é compreensível o fato do diretor Tony Goldwyn (talvez mais conhecido pelo seu trabalho de ator como vilão de Ghost), ter deixado de fora do filme, mesmo nos textos finais de créditos, o destino irônico e trágico de Kenny (que se você quer saber mesmo, foi o seguinte: ele morreu poucos meses depois de sair da prisão, num acidente doméstico). Particularmente, como algumas outras escolhas do diretor, eu não gostei dessa. Enfim, no geral, A Condenação é um filme fraco, com um jeito de filme feito pra TV (o que não é de se estranhar, vendo o currículo de Goldwyn, mais acostumado a esta mídia quando se trata de dirigir). Ironicamente, talvez tenha faltado um pouco de convicção ao diretor e ter trabalhado mais os outros personagens, ao invés de deixar apenas Swank se sobressair em cena.

Trailer:



Para saber mais: texto no blog do Rubens Ewald Filho.

2012-01-05

Filme: Compramos um Zoológico

Quando vi o material de divulgação (trailer, poster) de Compramos um Zoológico (We Bought a Zoo, no original), achei que seria mais um filme feel good medíocre de fim de ano. Mesmo assim, fui assisti-lo (afinal, tinha a Scarlett Johansson no elenco). Saí da sessão com uma grata surpresa: sim, é um filme feel good, mas um dos bons. Dos ótimos, aliás.

filme compramos um zoológico matt damon scarlett johansson poster cartaz

Compramos um Zoológico traz a história baseada em fatos reais de Benjamin Mee (Matt Damon), um repórter aventureiro que perdeu a esposa e agora tem dois filhos para criar, o pré-adolescente Dylan (Colin Ford) e a pequena e meiga Rosie (Maggie Elizabeth Jones). Ainda em um processo de luto, Benjamin não consegue superar a morte da mulher, não conseguindo nem mesmo frequentar os mesmos restaurantes em que iam. Procurando por uma nova casa para conseguir ter um novo começo, Benjamin encontra uma que parece ideal: grande, afastada da agitação da cidade, com um imenso quintal (com o terreno sendo medido em hectares!) e um preço bem baixo. Mas com um grande porém: o terreno na verdade é um zoológico, e a compra da casa implica na compra do pacote inteiro, leões, zebras e tigres inclusos.

Após ver a filha Rosie feliz brincando com alguns animais, Benjamin não resiste e decide comprar a casa e tudo o mais. Entretanto, manter o zoológico não será fácil, mas ele contará com a ajuda de fieis empregados que já trabalhavam lá, destacando a jovem tratadora de animais Kelly Foster (Scarlett Johansson).

filme compramos um zoológico matt damon scarlett johansson

Se formos julgar apenas pelo poster e trailer, Compramos um Zoológico pode dar a impressão de ser mais uma comédia bobinha que se apoia no elenco animal (os bichos do zoológico, e não o elenco humano, que de tão bom, poderia ser também descrito como "animal", no bom sentido), para ter graça. O filme é, acima de tudo, sobre pessoas, o que é bem evidente e bem enfatizado, como por exemplo, logo no começo, pelo irmão de Benjamnin (interpretado por Thomas Haden Church) que reforça ao irmão enlutado como é importante ele ver pessoas. (Possível SPOILER até o final deste parágrafo!) E essa ênfase nos seres humanos é reforçada no final, quando a jovem Lily (Elle Fanning) pergunta a Kelly, sua tia, que se ela tivesse que escolher entre humanos e animais, qual ela escolheria. E Lilly, diante do silêncio de Kelly, que somente olha com carinho para a família Mee, completa dizendo algo como "Eu também. Pessoas." E então sorri. (Fim do Spoiler.)

filme compramos um zoológico matt damon scarlett johansson

Com um ótimo roteiro, baseado no livro de Benjamin Mee e escrito por Aline Brosh McKenna e pelo próprio diretor Cameron Crowe, Compramos um Zoológico equilibra bem momentos cômicos com o drama pessoal de Benjamin e Dylan, tendendo mais para o cômico, não deixando assim o clima muito pesado em nenhum momento (note até como o "vilão" do filme, o inspetor que dará a licença de funcionamento para o zoológico, é caricato ao extremo).

filme compramos um zoológico matt damon scarlett johansson

Outro ponto a se ressaltar no texto do filme são as boas frases, que usadas em momentos cirurgicamente calculados no filme, passam aquela sensação inspiradora, como quando Benjamin diz para os empregados do parque, que estão com moral baixa, que ele "sempre foi um observador e escritor, mas que aquela era a sua primeira aventura", ou então quando ele ensina ao filho a técnica para vencer o medo de falar com mulheres: "só é preciso 20 segundos de coragem insana, e algo bom vai sair disso". (Possível SPOILER até o final deste parágrafo!) Outro exemplo de como o texto me agradou são as suas "rimas", que mostram como uma mesma frase se encaixa no começo e no fim do filme de maneira que "ligam" as cenas, como a própria frase dos 20 segundos de coragem insana, que também é mostrada na última cena do filme, quando Benjamin conta para os filhos como conhecera a mãe deles, ou como quando ele logo no começo do filme responde a Kelly, que o indaga por qual motivo comprara um zoológico tão cheio de problemas, e ele responde 'Por que não?', e essa é a mesma frase que a mulher dele respondera a cantada que ele usara puxar assunto com ela. (Fim do Spoiler.)

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Com ótimas atuações, o grande destaque de Compramos um Zoológico vai mesmo para a pequena Maggie Elizabeth Jones, que interpreta a filha Rosie. Ela é a dona das melhores piadas ("O que tem o coelhinho da Páscoa?") e a sua presença meiga rouba a cena quando ela aparece. Matt Damon também está ótimo e Scarlett Johansson continua linda como sempre, mas entrega uma ótima atuação sem apelar para a sua presença femme fatale. Destaque também para o elenco de animais, que não fazem feio, aparecendo em cena bem treinados, mesmo não tendo tanto destaque como em um Dr. Dolittle, por exemplo.

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Com uma boa fotografia que ressalta a luz natural em diversos e importantes momentos (reparem na hora em que Benjamin decide comprar o zoológico e o efeito da luz do sol nele), Compramos um Zoológico é uma comédia familiar, mas que não agride o cérebro. Ainda é um filme e, portanto, ficção (mesmo que tenha sido baseado em fatos reais, pois a palavra importante é BASEADO), mas tem boas sacadas e consegue nos fazer simpatizar com seus personagens. E, como estes acabam todos bem e felizes, ficamos felizes junto. Essa é, afinal, a razão de ser de um filme feel good. Sair da sessão se sentindo bem. E mesmo que a realidade não seja tão boa conosco como a ficção (e geralmente não é), se o filme conseguir te inspirar algo, já é válido. E este Compramos um Zoológico tem tudo para conseguir.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Omelete.

2011-03-19

Filme: Bruna Surfistinha

Uma das "regras" (se é que podemos chamar assim) das prostitutas é de sempre usar um "nome de guerra". Além de evitar o reconhecimento público (porque sim, a maioria não assume a profissão - ou o trabalho - abertamente), essa troca de nomes muitas vezes age como uma defesa psicológica, como se fosse um papel, uma personagem que a mulher veste para fazer o trabalho. Assim, pelo menos na teoria, quem atende o cliente é a personagem e não a pessoa. Ou seja, o cliente tem acesso a uma performance, e não à verdadeira mulher. E isso sintetiza muito o filme de uma das mais famosas prostitutas brasileiras, Raquel Pacheco, ou Bruna Surfistinha. Baseado livremente no livro O Doce Veneno do Escorpião, o filme Bruna Surfistinha teoricamente seria um retrato cine-biográfico de Raquel. Mas a sensação que fica é a mesma de um cliente mais atento: a de ter visto uma performance. Interessante, sem dúvida, mas falsa em essência.

filme bruna surfistinha deborah secco poster cartaz

A história do filme é velha conhecida: Raquel (interpretada pela Deborah Secco) é uma adolescente de classe média desajeitada, tímida e nada popular. Um dia ela resolve sair de casa e para sobreviver, começa a trabalhar num prostíbulo, também conhecido como casa de massagens. Ali ela é introduzida (!) ao mundo da prostituição pela cafetina (ou administradora de puteiro) Larissa (Drica Moraes). De uma estranha no ninho, num primeiro momento, a uma das mais requisitadas putas do bordel depois, ela convive e divide a casa/puteiro com várias colegas de profissão, entre elas se destacando Janine (Fabiula Nascimento), a típica antagonista-num-primeiro-instante-mas-depois-amigas, e Gabi (Cristina Lago), a melhor amiga por bastante tempo. E claro, conhece também vários clientes, entre eles o generoso, e constante na vida dela, Huldson (Cássio Gabus Mendes).

Depois de um desentendimento na casa de massagens, Bruna se converte numa freelancer, ou seja, sem cafetão ou cafetina. Num flat alugado, ela atende seus clientes, que são trazidos a ela especialmente por seu blog, onde ela conta o seu dia a dia como prostituta e dá notas aos programas. O blog torna-se cada vez mais conhecido, a ponto dela se tornar uma celebridade (mesmo que da Internet).

filme bruna surfistinha deborah secco

Bruna Surfistinha, o filme, tem bons méritos e igualmente grandes defeitos também. Começando pela parte positiva, a primeira coisa que salta aos olhos é a qualidade das interpretações. Deborah Secco atua num nível alto, muito longe do que geralmente estamos acostumados a ver da estrela global na telinha. Aliás, todo o núcleo do bordel está excelente, mas como o destaque é a Surfistinha, é em Deborah que cai a maior responsabilidade. Do começo do filme, como uma adolescente desajeitada e sem o menor sex appeal (como mostra a até engraçada cena de introdução na frente de uma câmera caseira), à dona de si Bruna Surfistinha, em nenhum momento Secco parece não ser o que demonstra na tela. De fato, a atuação dela é a melhor coisa do filme. E talvez em segundo lugar, o seu corpo delineado e esculpido.

O que nos leva ao inevitável comentário sobre as cenas de sexo, que graficamente se situam um pouco abaixo de filmes soft porn (do estilo daqueles do saudoso Cine Band Privê), especialmente pela edição dos planos de sexo, que sempre mostram corpos nús (mas sempre escondendo as genitais), mas sempre com cortes rápidos, de maneira que o espectador veja e perceba a nudez e o que os personagens ali estejam fazendo nús, mas quase sem explorar o ato em si. Perceba que os fetiches mostrados, como por exemplo a chuva dourada (fetiche de mijar/ser mijado) se encaixam nisso. Eles são mostrados, mas rapidamente, pra chocar apenas de leve o espectador (e consequentemente, fazer burburinho), nunca em demasia a ponto de provocar repulsa o suficiente para os mais sensíveis sairem da sala. A exceção dessa montagem de disso se dá em dois momentos, no primeiro programa dela (com Huldson) e no que provavelmente foi o primeiro programa dela em que ela gozou de verdade. A primeira cena é quase não erótica, focando mais no rosto de Deborah Secco, em que na narração ela diz que ali nascera a Bruna, enquanto a segunda cena citada segue o estilo erótico-sexo-de-filmes-americanos.


Outro ponto positivo do filme Bruna Surfistinha é a direção de arte. Se você, pessoa recatada que nunca entrou numa dessas "casas de massagem", mas tem uma curiosidade grande pra saber como é, quiser saber como é um desses "pardieiros", vendo o filme, terá uma ideia muito, mas muito próxima da realidade. O puteiro onde Raquel começa a trabalhar é bem realista. Sim, eu sei do que falo. Além da direção de arte, o figurino também trabalha bem, pontuando visualmente a transformação da "patricinha" adolescente em mega-star da prostituição.

Um ponto potencialmente controverso é quanto às cenas de sexo e fetiche, que mesmo não sendo extremamente provocantes (como já disse acima), ainda assim mostram grande parte da fauna sexual existente. Ao mesmo tempo em que pode-se parabenizar o diretor Marcus Baldini (estreante em longas) por seu enfoque, bem divertido aliás, pode-se acusá-lo de não ter tido coragem pra explorar mais a fundo esse potencial picante, que deve ter sido a causa do sucesso do livro (eu apenas li alguns trechos enquanto enrolava na livraria, no século passado, e achei que o principal era mesmo a sexualidade ali contida, pelo menos nos trechos que li).

filme bruna surfistinha deborah secco

O ponto fraco do filme Bruna Surfistinha é o roteiro. E isso é um ponto fraco muito forte, por assim dizer. Apesar de mostrar um pouco a dinâmica de Raquel com a sua família, nunca é verdadeiramente mostrado o que levou a garota a fugir de casa. O próprio fato de que ela era adotada é jogado de maneira tão banal que deixa o espectador na dúvida se essa informação explicava ou não o que ele vira até então (e não, não explica). De fato, o filme até tenta encontrar uma explicação de porque Raquel fugiu de casa, mas o resultado é tão mal explicado e artificial que é impossível de engolir(!), como na cena em que Raquel liga para a casa dos pais de madrugada enquanto uma narração tenta dar uma explicação do porquê ela ter feito aquilo.

Bem, como disse no começo, prostitutas quase sempre são apenas personagens. A interseção entre a prostituta-personagem e a mulher-real nunca é inteira. Assim, a real motivação, ou a falta desta, ainda é passável num filme desses. O que fica mais difícil de relevar é vontade do roteiro em construir um filme de superação, em que a mocinha fez o que fez apenas por causa das circunstâncias e não por suas próprias escolhas. Talvez seja por isso que as passagens pelos filmes, desta vez com o adesivo XXX (pornográficos) não tenha sido sequer mencionado.

filme bruna surfistinha deborah secco

Outro ponto inverossímil demais, e que claramente está no filme para fazê-lo mais palatável (pra ter um mocinho e um "final feliz") é o personagem de Cássio Gabus Mendes. Seu personagem, Huldson, é o primeiro cliente de Bruna, e tenta dar a impressão de que ele será o último. (Spoiler até o final do parágrafo se você não nunca leu nada sobre a Bruna Surfistinha em época nenhuma.) No "final da vida real", Bruna se retira dessa vida de prostituta e vai viver com um cliente, que não é revelada a identidade. No filme, apesar de não ser dito, tenta-se passar a impressão de que esse cliente é o personagem de Gabus Mendes. Ou seja, o príncipe encantado é aquele que esteve sempre ao lado dela, num clichê covarde (por não se assumir) que dá pena e que lembra a mais batida das comédias românticas.

Na minha opinião, ainda sobre o personagem de Gabus Mendes, creio que ele é um amálgama de vários homens que passaram pela cama (e outros lugares) da protagonista.

filme bruna surfistinha deborah secco

Enfim, Bruna Surfistinha, o filme, é como um show. Daqueles que tentam se passar pela vida real, misturando pitadas de realidade com outras inventadas, mas que não conseguem enganar a todos. Mesmo assim, como entretenimento, é válido. Então, não tente tirar significados profundos ou tentar enxergar a vida de Raquel Pacheco neste filme. No máximo, você verá parte de Bruna Surfistinha, uma personagem no filme dentro da personagem de Deborah Secco (meio Inception, isso). Interessante, e que como prostitutas, te entretêm por algum tempo em troca do seu dinheiro. A diferença é que o final do filme não sai gozado.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Cinema em Cena e no Omelete.

2011-03-10

Filme: 127 Horas

A primeira vista, pode parecer um desafio condensar uma história de 127 horas em um filme de pouco mais de uma hora e meia. Entretanto, ao se conhecer a história, fica evidente que o principal desafio era justamente o contrário: como preencher o filme sem que ele se tornasse arrastado demais. Esse foi, talvez, o maior desafio de Danny Boyle, diretor de 127 Horas (ou no original, 127 Hours), adaptação de um livro homônimo, baseado em uma história real.

filme 127 horas james franco poster cartaz

Em 2003, o jovem Aron Ralston (James Franco), ao fazer uma trilha em um cânion, acabou caindo quando uma pedra se desprendeu. A pedra acabou prendendo a mão de Ralston, que ficou preso por cinco dias, até conseguir se soltar após um golpe de sorte e uma medida desesperada. O filme basicamente narra esse período em que Ralston ficou preso.

Na verdade, o filme ainda tem uma pequena introdução, que de maneira sutil e integrada à trama, serve para mostrar um pouco da personalidade de Ralston e passar algumas informações que serão relevantes mais a frente. Por exemplo, quando é mostrado Ralston saindo de sua casa e ignorando um telefonema da mãe, está uma peça-chave do enredo (e também da personalidade do rapaz): a de não ter avisado ninguém aonde ia, e de tentar ser sempre autossuficiente. Apesar disso, o jovem é retratado como alguém alegre e de bom astral, que tem uma certa obsessão por registrar a sua aventura com uma câmera, aspectos que ficam bem nítidos quando ele tem um acidente com a bicicleta (e leva na boa, dando risada) ou quando ele se encontra com duas jovens perdidas e acaba mergulhando com elas numa gruta. Mas o filme começa mesmo quando o jovem sofre o acidente, quando só então aparece um letreiro com o nome do filme: 127 Horas.

filme 127 horas james franco

Como grande parte de 127 Horas se passa num cenário restrito (o cânion) em termos de movimento e possibilidades de posições de câmera, Boyle usa de ângulos inusitados no decorrer da história, mostrando, por exemplo, a garrafa de água vista de dentro, como se a câmera estivesse no fundo dela, ou então como se a câmera estivesse na ponta de um canudo de um recipiente de água (que mais tarde é preenchido com outros fluidos). São ângulos interessantes, mas às vezes o diretor exagera, prejudicando a fluidez da narrativa, como com a vista de dentro da câmera de Ralston, quando ele rebobina suas filmagens para rever algo.

Outro recurso que o diretor usa bastante são os delírios do personagem a partir de um certo ponto, decorrentes da fadiga, falta de água/alimentação e da solidão, de certo modo. Alguns são bem usados, como quando Ralston emula um talk show com ele entrevistando a si mesmo, numa cena clara em que o intuito é passar algumas informações à platéia. Outros delírios são menos interessantes, como o fantasma do Scooby-doo, que insinua uma paranoia no personagem, mas que logo se perde. O mesmo pode ser dito dos flashbacks que mostram alguns momentos interessantes (como quando o pai o leva para ver o nascer do sol), enquanto outros momentos não são tão bons assim (como quando mostra ele filmando a irmã tocando piano).

filme 127 horas james franco

Entretanto, o melhor mesmo de 127 Horas são as cenas em que Ralston é mostrado ali, preso no cânion com a mão esmagada sob a pedra. Usando e abusando de câmera na mão, com muitas inserções com o ponto de vista do personagem (quando a câmera mostra o que o personagem está vendo), e com uma imagem saturada, o filme toma ares de documental. Mas o que realmente se sobressai nestes momentos é a atuação de James Franco. O ator consegue passar do otimismo para o desespero, do bom humor para o medo, de forma magistral. Aliado a uma boa maquiagem, é claramente visível o quanto o personagem de Franco vai se desgastando, perdendo aos poucos a esperança, recuperando-a por breves momentos só para vê-la ir embora de novo.

O som é um elemento importantíssimo para se criar um determinado clima em um filme. Em 127 Horas, em diversos momentos, o que temos é na verdade o silêncio. Enfatizando a natureza deserta do local e a solidão do personagem, o silêncio aparece entre momentos da trilha instrumental. Em alguns momentos a passagem da música para o silêncio é perfeita, mas em outros, deixa a desejar, como por exemplo quando a câmera (auxiliada por CGI) faz um gigantesco zoom out começando do rosto do personagem até mostrar a imensidão do cânion. Neste instante, a música sobe depois de uns instantes de silêncio, o que na minha opinião acaba por fazer com que a cena perca um pouco de sua força (mas apenas um pouco, já que o travelling da câmera é por si só, magnífico).

filme 127 horas james franco

Apesar da história incrível de superação individual, 127 Horas falha em dois pontos. O primeiro é a insistência de Danny Boyle em se desviar do condutor principal (Ralston preso) em muitos flashbacks e delírios. Depois de um certo ponto, torna-se cansativo e pouco acrescenta na história ou no clima. O segundo ponto, e talvez esse seja mais pessoal, é que o filme é mais um retrato da persistência, de um instinto de sobrevivência, do que uma busca por algo mais nobre. E mesmo que o filme tente ficar bastante sentimental no final, ele acaba não conseguindo penetrar mais a fundo, levando a apenas sentimentos superficiais. Se há uma lição no filme, ela é: sempre avise alguém (de preferência sua mãe) de onde está indo viajar.

filme 127 horas james franco

Enfim, 127 Horas é um bom filme e eu gostei dele. Entretanto, não acho que seja tão bom assim pra figurar entre os 10 melhores do ano. Apesar de bem feito, a impressão final é que o diretor Danny Boyle, cujo trabalho geralmente eu gosto, neste filme ficou um pouco perdido. Só assim pra explicar as sequências iniciais e finais, que mostram multidões de pessoas em metrôs, na cidade, etc. São cenas que permitem várias interpretações, mas que não encontram eco no desenvolvimento do filme. De qualquer maneira, vale a pena ver como 127 horas ficaram em 94 minutos.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Omelete, no Cinema em Cena e (se você já viu o filme, porque está cheio de spoilers), no Crítica (non)sense da 7a Arte.

P.S. Talvez seja impressão minha, mas a música inicial do filme não tem um quê de indiana? Será influência ainda de Quem Quer ser um Milionário?

2010-10-04

Filme: Comer Rezar Amar

Quando eu soube que iriam fazer uma adaptação cinematográfica do livro Comer Rezar Amar, pensei duas coisas. A primeira, é que o filme iria faturar um bocado (previsão que estou esperando para confirmar). E a segunda, é que o filme seria uma bomba, de mediano para medíocre. Esta previsão, pelo menos, está confirmada. O filme Comer Rezar Amar (no original Eat Pray Love), nem de longe é tão bom quanto o livro que o originou.

filme comer rezar amar julia roberts poster cartaz

No filme, Julia Roberts vive Elizabeth "Liz" Gilbert, uma mulher em torno dos trinta anos, casada e escritora. Entretanto, falta algo na vida de Liz, e ela não sabe exatamente o que. Na verdade, ela busca se encontrar, e para isso, vira a mesa. Ela se separa e passa por um divórcio complicado, se apaixona por um rapaz mais novo, mas mesmo assim, ainda sente que algo falta em sua vida. E é aí que ela resolve passar um ano viajando. Nesta viagem, ela pretende conjugar os três verbos que dão nome ao filme.

filme comer rezar amar julia roberts
Na primeira parada, na Itália, pretende se esbaldar com a comida italiana, comendo as famosas massas e tudo o mais. Claro que não é só isso, ela também pretende estudar italiano. Depois de quatro meses, o destino é a Índia, onde ela passará outros quatro meses num ashram, uma espécie de centro para retiro espiritual, onde ela finalmente encontrará um certo equilíbrio se perdoando. E finalmente, ela passará os últimos quatro meses na Indonésia, visitando um xamã local que ela conhecera numa viagem passada (a trabalho), e que previra que ela perderia tudo, mas que voltaria ali e também recuperaria tudo. E, pra finalizar os verbos, ali, em Bali, ela conhecerá também o grande amor da vida dela, o brasileiro Felipe (Javier Bardem).

Como toda jornada (principalmente as espirituais), o que vale é o caminho, a própria jornada (e tudo o que se encontra nela, como as pessoas e amizades), e não o destino. Por isso, não importa que o parágrafo acima diga, resumidamente, tudo o que acontece. O que importa é como acontece. Ou, pelo menos, é assim que é no livro, porque no filme, o que seria uma jornada deliciosa de se acompanhar, se torna até mesmo tedioso.

filme comer rezar amar julia roberts
O filme Comer Rezar Amar é bem mais linear do que o livro. Talvez por isso, gaste-se no início do filme, um bom tempo mostrando a vida da personagem de Julia Roberts. O livro tem uma pequena introdução e já inicia a jornada, nos revelando aos poucos, por meio de lembranças (que seriam flashbacks, se fosse no filme), a história de Liz.

Mas a verdade é que esta mudança não é realmente o maior problema do filme. Comer Rezar Amar sofre muito com a atuação da sua protagonista. Tome por exemplo, a estada de Liz em Roma. Se recuperando ainda das feridas na alma, ela se joga com a mesma intensidade com que se jogava nos relacionamentos, na busca do prazer. Aqui, o prazer gastronômico, e não é à toa que ela diz que teve um "relacionamento" com o seu prato (creio que era um espagueti). No filme, apesar de recitar as mesmas palavras, é impossível ver Julia Roberts tendo essa mesma paixão. É até compreensível que a sua outra paixão, pelas palavras, pela língua italiana, tenha sido minimizada no filme (afinal, é complicado mesmo expressar em imagens, o amor pelas palavras). Mas mesmo assim, é uma perda, afinal, era uma paixão contagiante.

filme comer rezar amar julia roberts
Outro ponto que se perdeu no filme Comer Rezar Amar, foi a identificação da pessoa do lado de cá, com a personagem Liz Gilbert. No livro, se expondo em tom confessional, é fácil nos relacionarmos com ela, nos colocarmos em seu lugar. Essa conexão se perde completamente no filme, fazendo com que deixemos de ser acompanhantes na jornada dela, para nos tornarmos meros espectadores. E se Julia Roberts não ajuda, o diretor Ryan Murphy tampouco. Basta ver as cenas da "depressão" de Liz em Nova York, que além de clichês, não dão ideia de uma mulher destruída por dentro.

Mesmo não levando em conta as comparações com o livro, o filme Comer Rezar Amar ainda continua fraco. Além dos problemas de Julia como a protagonista, o filme usa e abusa dos planos "pra turista ver". Sobretudo em Roma e em Bali (Indonesia), as paisagens exuberantes (na primeira criadas pelo homem, na segunda, pela natureza), são bastante exploradas. Como propaganda turística destes dois destinos, o filme é perfeito.

filme comer rezar amar julia roberts
Quem for apenas ver o filme, pode até pensar, e com alguma razão, que Comer Rezar Amar é apenas auto-ajuda travestido de história pessoal. Sim, há momentos em que o discurso é bem típico de auto-ajuda, como na parte em que Liz visita umas ruínas em Roma, e disserta sobre mudanças; ou mais para o final, quando ela recebe o sábio conselho de que perder o equilíbrio por amor pode ser uma maneira de ter uma vida equilibrada. Sim, existem momentos assim no livro também, mas no filme eles saltam aos olhos, enquanto no livro, eles estão entre uma piada aqui ou um sarcasmo acolá.

filme comer rezar amar julia roberts
Enfim, mesmo com um elenco de apoio correto (e alguns, com atuações excelentes, como no caso do velho xamã), o filme perde muito com a sua protagonista que não conseguiu dar vida a uma mulher real. Mas a culpa não é só dela, mas também do diretor e roteirista Ryan Murphy e da roteirista Jennifer Salt, que em nome das belas imagens, retiraram boa parte do texto que é, enfim, o que faz Comer Rezar Amar ser interessante. Leia algumas partes do livro Comer Rezar Amar, e comprove que certas coisas continuam bem melhores num texto do que numa bela imagem.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Omelete.
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