Mostrando postagens com marcador citações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador citações. Mostrar todas as postagens

2012-08-27

Livro: A Trégua

Por indicação (quase uma ordem), li há algum tempo atrás o livro A Trégua, de Mario Benedetti. A sinopse oficial, que consta na contra-capa:

Publicado em 1960, "A Trégua" é o mais famoso romance de Mario Benedetti e uma das obras mais importantes da literatura latino-americana contemporânea. Escrito em formato de diário e com fina ironia, o livro conta a história de Martín Santomé, um "homem maduro, de muita bondade, meio apagado mas inteligente".

Prestes a completar 50 anos, viúvo há mais de vinte, Santomé mora com os três filhos. Não se relaciona bem com nenhum deles, tem poucos amigos e mantém uma rotina monótona e cinzenta. No diário, conta os dias que faltam para a aposentadoria; mas não tem idéia do que fará assim que se livrar do trabalho maçante.

Seu destino, no entanto, mudará quando conhecer Laura Avellaneda, uma jovem discreta e tímida contratada para ser sua subalterna. Com ela, Martín Santomé voltará a conhecer o amor, numa luminosa trégua para uma vida até então triste e opaca.

O livro é ao mesmo tempo uma delícia de se ler, com um ritmo bom, uma narrativa envolvente e pra quem não é fã de obras extensas, há um bônus: ele é bem curtinho (li praticamente em uma noite).

Entretanto, se o texto é delicioso de se ler, ele também esconde uma história simples e previsível, até mesmo clichê em certos momentos (em especial, o final). É, certamente, um daqueles casos em que a jornada importa mais do que o destino, ou traduzindo-se em termos literários, o texto importa mais do que a história (a história é contada pelo texto, mas o texto não se limita a contar a história).

livro capa a trégua

Uma das maneiras pelas quais eu julgo um livro é a quantidade de trechos que acho que valem citações. Em alguns casos, de textos realmente bons, em quase todas as páginas você encontra trechos interessantes que tem vontade de compartilhar. A Trégua foi um desses casos. Mas, claro, não vou transcrever o livro todo aqui, apenas algumas partes que separei durante a leitura:

Sonhando no trabalho:

O que eu menos odeio é a parte mecânica, rotineira, do meu trabalho: repassar um lançamento que já redigi milhares de vezes, efetuar um balanço de saldos e constatar que tudo está em ordem, que não há diferenças a buscar. Esse tipo de tarefa não me cansa, porque me permite pensar em outras coisas e até (por que não dizer a mim mesmo?) também sonhar. É como se eu me dividisse em dois entes díspares, contraditórios, independentes, um que sabe de cor seu trabalho, que domina ao máximo as variantes e os meandros dele, que está sempre seguro de onde pisa, e outro sonhador e febril, frustradamente apaixonado, um sujeito triste que, no entanto, teve, tem e terá vocação para a alegria, um distraído a quem não importa por onde corre a pena nem que coisas escreve a tinta azul que em oito meses ficará negra.

Reflexão sobre a criação dos filhos e a mulher já há muito falecida:

Esteban e Blanca têm os olhos de Isabel. Jaime herdou dela a testa e a boca. O que Isabel pensaria se pudesse vê-los hoje, preocupados, ativos, maduros? Tenho uma pergunta melhor: o que eu pensaria, se pudesse ver Isabel hoje? A morte é uma experiência aborrecida; para os outros, sobretudo para os outros. Eu deveria me sentir orgulhoso por haver ficado viúvo com três filhos e ter conseguido seguir adiante. Mas não me sinto orgulhoso, e sim cansado. O orgulho é para quando se tem 20 ou 30 anos. Seguir adiante com meus filhos era uma obrigação, o único escape para que a sociedade não me encarasse e me dedicasse o olhar inexorável que se reserva aos pais desalmados. Não havia outra solução, e eu segui adiante. Mas tudo sempre foi por demais obrigatório para que pudesse me sentir feliz.

praça montevideu

Sobre a cidade e suas diferentes vidas:

Bom, às vezes não chego ao horizonte e me conformo com me acomodar à janela de um café e registrar a passagem de algumas pernas bonitas.

Estou convecido de que, durante o expediente, a cidade é outra. Conheço a Montevidéu dos homens com horário, os que entram às oito e meia e saem às 12, os que retornam às duas e meia e vão embora definitivamente às sete. Esses rostos crispados e suarentos, esses passos urgentes e tropeçantes são meus velhos conhecidos. Mas existe a outra cidade, a das frescas moçoilas que no meio da tarde saem recém-banhadinhas, perfumadas, desdenhosas, otimistas, espirituosas; a dos filhinhos da mamãe que acordam ao meio-dia e às seis da tarde ainda trazem impecável o colarinho branco de tricolina importada; a dos velhos que tomam o ônibus até a Aduana e depois retornam sem desembarcar, reduzindo sua módica farra à simples mirada reconfortante com que percorrem a Cidade Velha de suas nostalgias; a das mães jovens que nunca saem de noite e entram no cinema, com cara de culpadas, por volta das três e meia da tarde; a das babás que denigrem suas patroas enquanto as moscas devoram as crianças; a dos aposentados e ociosos vários, enfim, que crêem ganhar o céu jogando migalhas aos pombos da praça. Esses são meus desconhecidos, ...

Sabedoria de bêbado:

Esta tarde, quando eu vinha do escritório, um bêbado me deteve na rua. Não protestou contra o governo, nem disse que ele e eu éramos irmãos, nem tocou em nenhum dos incontáveis temas do pileque universal. Era um bêbado estranho, com uma luz especial nos olhos. Segurou meu braço e disse, quase apoiando-se em mim: "Sabe o que lhe acontece? Que você não vai a lugar nenhum." Outro sujeito que passou nesse instante me fitou com uma alegre dose de compreensão e até me dedicou uma piscadela de solidariedade. Mas já faz quatro horas que estou intranquilo, como se realmente não me dirigisse a lugar nenhum e só agora o percebesse.

bebado

Sobre domingo, suicídio e os solitários:

Se eu algum dia me suicidar, será num domingo. É o dia mais desalentador, o mais sem graça. Quem me dera ficar na cama até tarde, pelo menos até as nove ou as dez, mas às seis e meia acordo sozinho e já não consigo pregar o olho. Às vezes penso o que farei quando toda a minha vida for domingo. Quem sabe? Vai ver que me acostumei a despertar às dez horas. Fui almoçar no Centro, porque os rapazes saíram para o fim de semana fora, cada um para seu lado. Comi sozinho. Nem sequer tive forças para entabular com o garçom o fácil e ritualístico intercâmbio de opiniões sobre o calor e os turistas. Duas mesas adiante, havia outro solitário. Tinha o cenho franzido, partia os pãezinhos a socos. Duas ou três vezes olhei para ele, e numa oportunidade seus olhos cruzaram com os meus. Tive a impressão de que ali havia ódio. O que haveria para ele nos meus olhos? Deve ser uma regra geral, isso de nós, os solitários, não simpatizarmos uns com os outros. Ou será que, simplesmente, somos antipáticos?

Rotina e postergação como vício:

Eu mesmo fabriquei minha rotina, mas pelo caminho mais simples: a acumulação. A segurança de me saber capaz para algo melhor me deu o controle da postergação, que no fim das contas é uma arma terrível e suicida. Daí que minha rotina jamais tenha tido caráter nem definição; foi sempre provisória, sempre constituiu um rumo precário, a ser seguido apenas enquanto durava a postergação, apenas para aguentar o dever da jornada durante esse período de preparação que por certo eu considerava imprescindível, antes de me lançar definitivamente à concretização do meu destino. Que tolice, não? O resultado é que agora não tenho vícios importantes (fumo pouco, só por enfado tomo uma caninha de vez em quando), mas creio que já não poderia deixar de me postergar: esse é meu vício, aliás incurável. Porque se agora mesmo eu decidisse me assegurar, numa espécie de juramento tardio: "Vou ser exatamente o que eu quis ser", de nada adiantaria. Primeiro, porque me sinto com escassas forças para jogá-las numa mudança de vida, e depois porque, agora, que validade tem para mim aquilo que eu quis ser? Seria algo como lançar-me conscientemente a uma senilidade prematura. O que desejo hoje é muito mais modesto do que aquilo que desejava trinta anos atrás, e, sobretudo, importa-me bem menos obtê-lo. Aposentadoria, por exemplo. É uma aspiração, naturalmente, mas é uma aspiração em declínio. Sei que vai chegar, sei que virá sozinha, sei que não será preciso que eu proponha nada. Assim é fácil, assim vale a pena entregar-se e tomar decisões.

tempo

Sobre o tempo dele e o tempo dela:

O tempo se vai. Às vezes, penso que precisaria viver apressado, tirar o máximo partido destes anos que restam. Hoje em dia, qualquer um pode me dizer, depois de esquadrinhar minhas rugas: "Mas o senhor ainda é um homem jovem!" Ainda. Quantos anos me restam de "ainda"? Penso nisso e me dá pressa, tenho a angustiante sensação de que a vida me foge, como se minhas veias se tivessem aberto e eu não pudesse deter meu sangue. Porque a vida são muitas coisas (trabalho, dinheiro, sorte, amizade, saúde, complicações), mas ninguém vai me negar que, quando pensamos nessa palavra, Vida, quando dizemos, por exemplo, que nos "agarramos à vida", estamos assimilando-a a outra palavra mais concreta, mais atraente, mais seguramente importante: estamos assimilando-a ao Prazer. Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e tenho certeza de que isso é vida. Daí a pressa, a trágica pressa destes 50 anos que me pisam os calcanhares. Ainda me restam, assim espero, uns quantos anos de amizade, de saúde passável, de afãs rotineiros, de expectativa ante a sorte, mas quantos me restam de prazer? Eu tinha 20 anos e era jovem; tinha 30 e era jovem; tinha 40 e era jovem. Agora tenho 50 anos e sou "ainda jovem". "Ainda" significa: está acabando.

E esse é o lado absurdo da nossa combinação: dissemos que iríamos encarar tudo com calma, que deixaríamos o tempo correr, que depois reavaliaríamos a situação. Mas o tempo corre, queiramos ou não, o tempo corre e a deixa a cada dia mais apetecível, mais madura, mais fresca, mais mulher, e a mim, em contraposição, me ameaça a cada dia com me tornar mais achacadiço, mais gasto, menos valente, menos vital. Temos de nos apressar em direção ao encontro, porque, em nosso caso, o futuro é um inevitável desencontro. Todos os seus Mais correspondem aos meus Menos. Todos os seus Menos correspondem aos meus Mais. Compreendo que, para uma mulher jovem, pode ser um atrativo saber que aquele sujeito viveu, que há muito ele substituiu a inocência pela experiência, que ele pensa com a cabeça bem firme sobre os ombros. É possível que isso seja um atrativo, mas como é breve! Porque a experiência é boa quando vem de mãos dadas com o vigor; depois, quando o vigor se vai, a gente passa a ser uma decorosa peça de museu, cujo único valor é ser uma recordação do que se foi. A experiência e o vigor coexistem por muito pouco tempo. Eu estou agora nesse pouco tempo. Mas não é uma sorte invejável.

Sobre o ambiente de trabalho no escritório:

Nos escritórios não existem amigos; existem sujeitos que a gente vê todos os dias, que se enfurecem juntos ou separados, fazem piadas e se divertem com elas, que trocam suas queixas e se transmitem seus rancores, que reclamam da Diretoria em geral e adulam cada diretor em particular. Isso se chama convivência, mas só por miragem a convivência pode chegar a parecer-se com a amizade. Em tantos anos de escritório, confesso que Avellaneda é meu primeiro afeto verdadeiro. O resto traz a desvantagem da relação não escolhida, do vínculo imposto pelas circunstâncias. O que eu tenho em comum com Muñoz, com Méndez, com Robledo? No entanto, às vezes rimos juntos, tomamos um trago, tratamo-nos com simpatia. No fundo, cada um é um desconhecido para os outros, porque neste tipo de relação superficial fala-se de muitas coisas, mas nunca das vitais, nunca das verdadeiramente importantes e decisivas. Creio que o trabalho é que impede outro tipo de confiança; o trabalho, essa espécie de constante martelar, ou de morfina, ou de gás tóxico. Algumas vezes, um deles (Muñoz, especialmente) se aproximou de mim para iniciar uma conversa realmente comunicativa. Começou a falar, começou a delinear com franqueza seu auto-retrato, começou a sintetizar os termos do seu drama, desse módico, estacionado, desconcertante drama que intoxica a vida de cada um, por mais homem médio que se sinta. Mas há sempre alguém chamando lá do balcão. Durante meia hora, ele tem de explicar a um cliente inadimplente a inconveniência e o castigo da mora, discute, grita um pouco, seguramente se sente envilecido. Quando volta à minha mesa, olha para mim e não diz nada. Faz esforço muscular correspondente ao sorriso, mas suas comissuras se dobram para baixo. Então, pega uma planilha velha, amassa-a no punho, consciensiosamente, e depois a joga na cesta de papéis. É um simples substitutivo; o que não serve mais, o que ele atira na cesta de lixo, é a confidência. Sim, o trabalho amordaça a confiança.

the office

Paixão e muitas palavras em uma:

Nós nos entreolhamos e soltamos uma risada. Imaginei que o feitiço se quebrara, que o famoso ápice havia passado... Mas ela estava comigo, eu podia senti-la, palpá-la, beijá-la. Podia dizer simplesmente: "Avellaneda". "Avellaneda" é, além do mais, um mundo de palavras. Estou aprendendo a injetar-lhe centenas de significados, e ela também aprende a conhecê-los. É um jogo. De manhã, digo: "Avellaneda", e significa: "Bom-dia." (Há um "Avellaneda que é reprimenda, outro que é aviso, mais outro que é desculpa.) Só que ela me entende mal de propósito, para me enfurecer. Quando pronuncio o "Avellaneda" que significa: "Vamos fazer amor?", ela responde, muito faceira: "Acha que eu vou embora agora? É muito cedo!" Ah, os velhos tempos em que Avellaneda era só um sobrenome, o sobrenome da nova auxiliar (faz apenas cinco meses que anotei: "A mocinha não parece ter muita vontade de trabalhar, mas pelo menos compreende o que a gente explica"), a etiqueta para identificar aquela pessoinha de testa ampla e boca grande que me olhava com enorme respeito. Ali estava ela agora, diante de mim, envolta em sua manta. Não me lembro de como era ela quando me parecia insignificante, inibida, nada além de simpática. Só me lembro de como é agora: uma deliciosa mulherzinha que me atrai, que me alegra absurdamente o coração, que me conquista. Pisquei conscientemente, para que nada nos estorvasse depois. Então meu olhar a envolveu, muito melhor do que a manta; na realidade, não era independente da minha voz, que já começara a dizer: "Avellaneda". E, desta vez, ela me entendeu perfeitamente.

Reflexões sobre corpos:

Ela está ao meu lado, adormecida. Estou escrevendo numa folha solta, esta noite transcrevo para a caderneta. São quatro da tarde, o final da sesta. Comecei a pensar numa comparação e terminei em outra. Está aqui, ao meu lado, o corpo dela. Lá fora faz frio, mas aqui a temperatura é agradável, mais para quente. O corpo dela está quase descoberto, a manta e o lençol deslizaram para um lado. Quis comparar este corpo com minhas lembranças do corpo de Isabel. Evidentemente, eram outros tempos. Isabel não era magra, seus seios tinham volume, e por isso caíam um pouco. Seu umbigo era fundo, grande, escuro, de margens grossas. Seus quadris eram o melhor, o que mais me atraía; tenho uma memória táctil dos seus quadris. Seus ombros eram cheios, de um branco rosado. Suas pernas estavam ameaçadas por um futuro de varizes, mas ainda eram bonitas, bem torneadas. Este corpo que está ao meu lado não tem absolutamente nenhum traço em comum com aquele. Avellaneda é magrinha, seu busto me inspira um pouquinho de piedade, seus ombros estão cheios de sardas, seu umbigo é infantil e pequeno, seus quadris também são o melhor (ou será que os quadris sempre me comovem?), suas pernas são delgadas, mas bem-feitinhas. No entanto, aquele corpo me atraiu, e este me atrai. Isabel tinha, em sua nudez, uma força inspiradora, eu a comtemplava e imediatamente todo o meu ser era sexo, não havia como pensar em outra coisa. Avellaneda tem, em sua nudez, uma modéstia sincera, simpática e indefesa, um desamparo que é comovedor. Ela me atrai profundamente, mas, aqui, o sexo é só uma parte da sugestão, do chamamento. A nudez de Isabel era uma nudez total, mais pura, talvez. O corpo de Avellaneda é uma nudez com atitude. Para amar Isabel, bastava sentir-se atraído pelo seu corpo. Para amar Avellaneda, é necessário amar o nu mais a atitude, já que esta é pelo menos metade do seu atrativo. Ter Isabel entre os braços significava abraçar um corpo sensível a todas as reações físicas e capaz também de todos os estímulos lícitos. Ter em meus braços a concreta magreza de Avellaneda significa abraçar além disso seu sorriso, seu olhar, seu jeito de falar, o repertório da sua ternura, suas reticência ao entregar-se por completo e as desculpas pelas suas reticências. Bom, essa era a primeira comparação. Mas veio a outra, e essa outra me deixou pesaroso, desanimado. Meu corpo de Isabel e meu corpo de Avellaneda. Que tristeza. Nunca fui um atleta, Deus me livre. Mas aqui havia músculos, aqui havia força, aqui havia uma pele lisa, elástica. E, sobretudo, não havia tantas outras coisas que, desgraçadamente, agora existem. Desde a calvice desequilibrada (o lado esquerdo é o mais deserto), o nariz mais largo, a verruga do pescoço, até o peito com ilhas ruivas, o ventre retumbante, os tornozelos varicosos, os pés com incurável e deprimente micose. Diante de Avellaneda, não me importa, ela me conhece assim, não sabe como eu fui. Mas importa diante de mim, me importa reconhecer-me como um fantasma da minha juventude, como uma caricatura de mim mesmo. Há uma compensação, talvez: minha cabeça, meu coração, enfim, eu, como ente espiritual, talez seja hoje um pouco melhor do que nos dias e nas noites de Isabel. Só um pouco melhor, também não convém iludir-se demais. Sejamos equilibrados, sejamos objetivos, sejamos sinceros, vá lá. A resposta é: "Isso conta?" Deus, se é que existe, deve estar lá em cima admirado. Avellaneda (oh, ela existe) está agora cá embaixo, abrindo os olhos

paris nichole

O fantasma da solidão:

Mas, mesmo pensando por minha conta, poderia desconfiar do ócio, sempre que o ócio fosse uma simples variante da solidão; como poderia ser, no meu futuro de alguns meses atrás, antes de Avellaneda aparecer. Com ela instalada na minha existência, porém, já não haverá solidão. Isto é: tomara que não haja. Convém ser mais modesto, mais modesto. Não diante dos outros, isso não importa. Convém ser mais modesto quando o sujeito se enfrenta, quando se confessa a si mesmo, quando se aproxima da sua verdade extrema, que pode até chegar a ser mais decisiva do que a voz da consciência, porque esta sofre de afonias, de rouquidões imprevistas, que com frequência a impedem de ser audível. Agora já sei que minha solidão era um horrível fantasma, sei que aimples presença de Avellaneda bastou para espantá-la, mas sei também que ela não morreu, que deve estar juntando forças em algum porão imundo, em algum arrabalde da minha rotina. Por isso, só por isso, abro mão da minha suficiência e me limito a dizer: tomara.

Sobre chefes e patrões babacas:

Esta manhã, estive falando com dois membros da Diretoria. Coisas sem grande importância, mas que bastaram, no entanto, para me fazer entender que eles sentem por mim um afável, compreensivo desprezo. Imagino que, quando se refestelam nos macios assentos da sala da Diretoria, devem sentir-se quase onipotentes, ou pelo menos tão próximos do Olimpo quanto pode chegar a sentir-se uma alma sórdida e escura. Alcançaram o máximo. Para um jogador de futebol, o máximo significa chegar um dia a integrar a seleção nacional; para um místico, comunicar-se alguma vez com seu Deus; para um sentimental, encontrar em outro ser, em alguma ocasião, o verdadeiro eco dos seus sentimentos. Para esta pobre gente, em contraposição, o máximo é conseguir sentar-se nas poltronas de dirigentes, experimentar a sensação (que para outros seria tão incômoda) de que alguns destinos estão em suas mãos, alimentar a ilusão de que resolvem, de que dispõem, de que são alguém. Hoje, no entanto, ao observá-los, eu não conseguia encontrar neles uma cara de Alguém, mas sim de Algo. Parecem-me Coisas, e não Pessoas. Mas o que lhes parecerei eu? Um imbecil, um incapaz, um joão-ninguém que se atreveu a recusar uma oferta do Olimpo. Uma vez, faz muitos anos, ouvi o mais velho deles dizer: "O grande erro de alguns homens de comércio é tratar seus empregados como se estes fossem seres humanos." Nunca me esqueci nem me esquecerei dessa frasezinha, simplesmente porque não a posso perdoar. Não só em meu nome, como também em nome de todo o gênero humano. Agora sinto a forte tentação de inverter a frase e pensar: "O grande erro de alguns empregados é tratar seus patrões como se estes fossem pessoas." Mas resisto a essa tentação. Elas são pessoas, sim. Não parecem, mas são. E pessoas dignas de uma odiosa piedade, da mais infamante das piedades, porque a verdade é que formam para si uma casca de orgulho, uma embalagem repugnante, uma sólida hipocrisia, mas no fundo são ocos. Asquerosos e ocos. E padecem a mais horrível variante da solidão: a solidão daquele que nem sequer tem a si mesmo.

lábios

Contando as memórias de Isabel a Avellaneda:

Eu tive sorte, afinal. Isabel era boa, eu não era um cretino. Nossa união nunca foi complicada. Mas o que teria acontecido, se o tempo tivesse chegado a desgastar esse ameaçado atrativo do sexo? "Conte-me coisas de Isabel" era um convite à sinceridade. Eu sabia o risco que corria. O ciúme retrospectivo (por sua impossibilidade de rancor, por sua falta de desafio, por sua improvável repetição) é assustadoramente cruel. Não obstante, fui sincero. Contei as coisas de Isabel que verdadeiramente eram dela. E minhas. Não inventei uma Isabel que me permitiria ganhar pontos diante de Avellaneda. Tive o impulso de fazer isso, claro. Todo mundo gosta de ter uma boa imagem, e, depois de obter essa boa imagem, gosta de mostrar-se melhor ainda diante da pessoa a quem ama, diante da pessoa a quem pretende, por sua vez, parecer meritório para ser amado. Não inventei Isabel, primeiro por achar que Avellaneda é digna da verdade, e depois porque eu também sou digno, porque estou fatigado (e, neste caso, a fadiga é quase uma repulsa) da dissimulação, dessa dissimulação que a gente aplica como uma máscara sobre o velho rosto sensível. Por isso, não me assombra que, à medida que Avellaneda foi-se inteirando de como havia sido Isabel, também fui-me inteirando de como havia sido eu.

Sobre a pressa de viver:

Imagino a bronca de Muñoz, com dois funcionários a menos na seção e toda a responsabilidade sobre seus ombros. Não somente imagino como compreendo. Mas não importa. Estou numa idade em que o tempo parece e é irrecuperável. Tenho de me agarrar desesperadamente a esta razoável ventura que veio me buscar e me encontrou. Por isso é que não posso me tornar magnânimo, generoso, não posso colocar as preocupações de Muñoz acima das minhas. A vida se vai, está indo agora mesmo, e eu não consigo suportar essa sensação de escape, de encerramento, de final. Este dia com Avellaneda não é a eternidade, é só um dia, um pobre, indigno, limitado dia, que todos nós, de Deus para baixo, condenamos. Não é a eternidade, mas é o instante, que, afinal, é o único sucedâneo verdadeiro da eternidade. Portanto, tenho de acelerar, tenho de gastar esta plenitude sem nenhuma reserva, sem previsão alguma. Talvez depois venha o ócio definitivo, o ócio assegurado, talvez haja depois muitos dias como este, e eu pense então nesta pressa, nesta impaciência, como num ridículo esgotamento. Talvez, só talvez. Mas este Enquanto Isso traz o alívio, a garantia daquilo que é, daquilo que está sendo.

2012-07-15

Livro: A Estrada

Os melhores livros têm o poder de nos emocionar, de nos fazer sorrir, de nos transportar para dentro da história. Mas também têm o poder de nos fazer sentir atordoados, exaustos e miseráveis, sem que consigamos largar a leitura. Este é o caso do livro A Estrada, de Cormac McCarthy, publicado em 2006 e adaptado para o cinema em 2009, em uma excelente adaptação.

livro a estrada

Bem, verdade seja dita, o texto de McCarthy favorece a transposição de romance para roteiro, uma vez que ele usa muitos diálogos e as descrições de cenários e das ações dos personagens se parecem muito com linhas guias para um roteiro (provável influência do fato de que ele também escreve peças de teatro). Entretanto, assim como nosso falecido amado Saramago, McCarthy também parece não ser um grande fã de pontuação em seus textos (apesar de bem menos do que o autor português). Assim, os diálogos do livro não são marcados com pontuação e fluem direto da narração. Todavia, não é difícil distingui-los, e o estilo é até mais fácil de ser assimilado (e nos acostumarmos a ele) do que o estilo de Saramago.

A Estrada é um texto que, ao mesmo tempo em que é fácil de ler, que tem uma ótima fluência, tem um clima pesado, sacrificante, do ponto de vista emocional. Ele encerra dramas realmente profundos e situações limítrofes. Imagine, por exemplo, um pai instruir o filho de maneira clara e objetiva (e enervante para nós, leitores), como puxar o gatilho do revólver para ele se matar caso o plano do pai fracasse e sobreviventes comedores de carne humana o encontrasse.

Assim, apesar de se passar num futuro pós-apocalíptico, A Estrada é menos ficção científica do que um estudo de personagens em situações impossíveis, assim como o desmoronamento dos indivíduos diante de uma sociedade inexistente. Aliás, não dá pra chamar de ficção científica, uma vez que temos zero de ciência, focando apenas nos seres humanos restantes e nunca descrevendo o que realmente levou àquela situação (apesar de ser plausível supor que os personagens vivem o resultado de um inverno nuclear).

Forte, dramático, sufocante, melancólico. A Estrada é tudo isso e muito mais. É também um soco no estômago em forma de texto. Um soco que serve pra nos despertar da apatia e que deveríamos levar de tempos em tempos. Um livro que eu digo: você deveria ler. (E para quem não suporta longas leituras, ele é bem curto, com cerca de 240 páginas apenas.)

Sinopse oficial do livro:

Um pai e seu filho caminham solitários em um mundo pós-apocalíptico. Estão fracos, o inverno se aproxima, e o pai acha que a única chance de sobrevivência é seguirem pelas estradas remanescentes em direção à costa, apesar de não terem ideia do que irão encontrar ao chegar lá.

Eles não possuem praticamente nada. Apenas alguns cobertores puídos, um carrinho de compras com alimentos escassos e um revólver com poucas balas, para se defenderem dos violentos assassinos que vagam pelo mesmo caminho.

Mas A Estrada é muito mais do que um relato apocalíptico. É a profunda e comovente história de um pai e seu filho, "cada um o mundo inteiro do outro", e a jornada que empreendem em busca da salvação.

a estrada

Abaixo, alguns trechos e citações do livro A Estrada. Se não leu, nem viu o filme, pode conter spoilers (grifos meus):

O clima sombrio, soturno e desolador:

Quando ele acordava na floresta no escuro e no frio da noite, estendia o braço para tocar a criança adormecida ao seu lado. Noites escuras para além da escuridão e cada um dos dias mais cinzento do que o anterior. Como o início de um glaucoma frio que apagava progressivamente o mundo. Sua mão subia e descia de leve com cada preciosa respiração. Removeu a lona de plástico e se levantou em meio às roupas e cobertas fedorentas e olhou para o leste em busca de alguma luz, mas não havia nenhuma.

O tempo e como o marcamos:

Com a primeira luz cinzenta ele se levantou e deixou o menino dormindo e caminhou até a estrada e se agachou e estudou a região que ficava ao sul. Árida, silenciosa, sem deus. Ele achava que o mês era outubro, mas não tinha certeza. Fazia anos que não tinha um calendário. Estavam seguindo para o sul. Não haveria como sobreviver a mais um inverno ali.

Desespero e Deus:

Ele acordou antes da aurora e ficou vendo o dia cinzento raiar. Lento e meio opaco. Levantou-se enquanto o menino dormia e calçou os sapatos e envolto pelo cobertor caminhou através das árvores. Desceu para dentro de uma fenda na pedra e ali se agachou tossindo e tossiu durante um longo tempo. Depois ficou apenas ajoelhado nas cinzas. Ergueu o rosto para a manhã pálida. Você está aí? ele sussurrou. Vou te ver enfim? Você tem um pescoço que eu possa estrangular? Você tem um coração? Maldito seja eternamente você tem uma alma? Oh Deus, ele sussurrou. Oh Deus.

a estrada

Andando pelo inferno gelado e vazio, vendo a morte de perto, tentando esquecer e lembrar as coisas:

Atravessaram a cidade ao meio-dia do dia seguinte. O revólver estava à mão na lona dobrada por cima do carrinho. Mantinha o menino bem perto, ao seu lado. A cidade estava quase toda queimada. Nenhum sinal de vida. Carros na rua incrustada de cinzas, tudo coberto de cinza e poeira. Rastros fósseis na lama seca. Um cadáver na soleira de uma porta seco feito couro. Arreganhando os dentes para o dia. Ele puxou o menino mais para perto. Apenas se lembre que as coisas que você põe na cabeça ficam lá para sempre, você falou. Você talvez queira pensar sobre isso.
Você se esquece de algumas coisas, não se esquece?
Sim. Você se esquece do que quer lembrar e se lembra do que quer esquecer.

Sobre como a estrada reduz. O tempo, o homem, todas as questões:

Naqueles primeiros anos as estradas estavam povoadas por refugiados amortalhados em suas roupas. Usando máscaras de óculos de proteção, sentados em seus trapos na beira da estrada como aviadores arruinados. Seus carrinhos de mão com pilhas de quinquilharia. Arrastando carrinhos. Os olhos brilhando no crânio. Cascas incrédulas de homens cambaleando pelas estradas como migrantes numa terra febril. A fragilidade de todas as coisas finalmente revelada. Questões antigas e perturbadoras solucionadas para se transformar em nada e noite. A última instância de uma coisa leva a categoria consigo. Apaga a luz e vai embora. Olhe ao seu redor. Para sempre é muito tempo. Mas o menino sabia o que sabia. Que para sempre não é tempo algum.

Uma de muitas noites:

Eles se agacharam na estrada e comeram arroz frio e feijão frio que tinham cozinhado dias antes. Já começando a fermentar. Nenhum lugar para fazer uma fogueira onde não fossem ser vistos. Dormiram amontoados nas colchas malcheirosas no escuro e no frio. Ele abraçava o menino bem junto do corpo. Tão magro. Meu coração, ele disse. Meu coração. Mas sabia que se fosse um bom pai ainda assim poderia ser como ela disse. Que o menino era tudo o que havia entre ele e a morte.

a estrada

O tempo na estrada:

Nenhuma lista de coisas a fazer. O dia providencial a si mesmo. A hora. Não existe o mais tarde. Agora é mais tarde. Todas as coisas graciosas e belas como as que se levam guardadas no coração têm uma origem comum na dor. Nascem do pesar e das cinzas. Então, ele sussurrou para o menino adormecido. Tenho você.

Pensando na mulher e mãe, e um diálogo emocionalmente devastador:

Pensou na fotografia na estrada e achou que devia ter tentado mantê-la em suas vidas de algum modo mas não sabia como. Acordou tossindo e foi lá para fora de modo a não acordar o menino. Acompanhando um muro de pedra na escuridão, embrulhado no cobertor, ajoelhando-se nas cinzas como um penitente. Tossiu até conseguir sentir o gosto do sangue e disse o nome dela em voz alta. Pensou que talvez o tivesse dito enquanto dormia. Quando voltou o menino tinha acordado. Me desculpe, ele disse.
Tudo bem.
Vá dormir.
Eu queria estar com a mamãe.
Ele não respondeu. Sentou-se ao lado do vulto pequenino embrulhado nas colchas e nos cobertores. Depois de algum tempo ele disse: Você quer dizer que queria estar morto.
É.
Você não deve dizer isso.
Mas que queria.
Não diga isso. É uma coisa ruim de se dizer.
Não dá para evitar.
Eu sei. Mas tem que evitar.
Como é que eu faço isso?
Não sei.

Num flashback, a discussão entre o homem e a mulher, sobre o suicídio num mundo morto, a persistência do homem e do menino, e a eloquência mesmo em poucas palavras trocadas:

Não me importo. Não quer dizer nada. Pode pensar que eu sou uma puta infiel se quiser. Tenho um novo amante. Ele me dá o que você não consegue dar.
A morte não é um amante.
Ah é sim.

Por favor não faça isso.
Sinto muito.
Não consigo fazer isso sozinho.
Então não faça. Não posso te ajudar. Dizem que as mulheres sonham com o perigo daqueles que estão sob seus cuidados e os homens com seu próprio perigo. Mas eu não sonho com nada. Você diz que não consegue fazer isso sozinho? Então não faça. É tudo. Porque eu estou exausta deste meu coração libertino e isso já faz muito tempo. Você fala sobre tomar uma posição firme mas não há posição a tomar. Meu coração foi arrancado de mim na noite em que ele nasceu então não peça por um lamento agora. Não há nenhum. Talvez você venha a ser bom nisso. Eu duvido, mas quem sabe. A única coisa que eu posso te dizer é que você não vai sobreviver por conta própria. Eu sei porque eu nunca teria chegado tão longe. A uma pessoa que não tivesse ninguém seria aconselhável que se juntasse a algum fantasma passável. Trazê-lo à vida com seu sopro e persuadi-lo a seguir em frente com palavras de amor. Oferecer-lhe cada migalha fantasma e protegê-lo do perigo com seu corpo. Quanto a mim minha única esperança é o nada eterno e espero por ele com todo meu coração.
Ele não respondeu.
Você não tem nenhum argumento porque não existe um.
Você vai dizer adeus a ele?
Não. Não vou.

Só espere até de manhã. Por favor.
Tenho que ir.
Ela já tinha se levantado.
Pelo amor de Deus, mulher. O que eu digo a ele?
Não posso te ajudar.
Para onde você vai? Você não consegue nem mesmo enxergar.
Não preciso.
Ele se levantou. Estou te implorando, ele disse.
Não. Não vou. Não posso.

Ela se foi e a frieza do gesto foi seu último presente. Usaria uma lasca de obsidiana. Ele mesmo lhe ensinara. Mais afiado do que o aço. A ponta com a espessura de um átomo. E ela estava certa. Não havia argumento. A centena de noites em que eles tinham ficado sentados debatendo os prós e os contras da autodestruição com a honestidade de filósofos acorrentados à parede de um hospício. Pela manhã o menino não disse nada em absoluto, e quando eles tinham guardado suas coisas e estavam prontos para pôr o pé na estrada ele se virou e olhou para o local de seu acampamento lá atrás e disse: Ela foi embora não foi? E ele disse: Sim, foi.

a estrada

Acuados:

Rastejaram devagar por entre as folhas na direção do que parecia ser um terreno mais baixo. Ele ficou deitado escutando, abraçado ao menino. Podia ouvi-los na estrada falando. Voz de uma mulher. Depois ouviu-os nas folhas secas. Pegou a mão do menino e colocou o revólver nela. Pegue, ele sussurrou. Pegue. O menino estava aterrorizado. Colocou o braço em torno dele e o abraçou. O corpo tão magro. Não tenha medo, ele disse. Se eles te acharem você vai ter que fazer isso. Está entendendo? Shh. Não chore. Está me ouvindo? Você sabe como fazer. Coloca dentro da boca e aponta para cima. Faça rápido e com força. Está entendendo? Pare de chorar. Está entendendo?
Acho que sim.
Não. Está entendendo?
Estou.
Diga estou entendendo Papai.
Estou entendendo Papai.
Baixou os olhos para ele. Tudo o que viu foi terror. Tirou a arma dele. Não está não, ele disse.
Eu não sei o que fazer, Papai. Eu não sei o que fazer. Onde é que você vai estar?
Está tudo bem.
Eu não sei o que fazer.
Shh. Eu estou bem aqui. Não vou te deixar.
Promete.
Sim. Prometo. Eu ia correr. Tentar atrai-los para longe. Mas não posso te deixar.
Papai?
Shh. Fique abaixado.
Estou com tanto medo.
Shh.

Sonhos e lembranças:

Sonhos maravilhosos agora dos quais ele abominava despertar. Coisas já não mais conhecidas no mundo. O frio o impedia para a frente a fim de ajeitar a fogueira. Memória dela travessando o gramado na direção da casa cedo pela manhã numa leve camisola rosa que se colava aos seus seios. Ele achava que cada memória lembrada devia cometer algum ato de violência às suas origens. Como num jogo numa festa. Diga a palavra e passe adiante. Então seja moderado. O que você altera ao se recordar ainda mantém uma realidade, conhecida ou não.

Auto-imagem:

Caminharam pelas ruas envolvidos nos cobertores imundos. Ele levava o revólver na cintura e segurava o menino pela mão. No outro lado da cidade encontraram uma casa solitária num campo e atravessaram e entraram e caminharam pelos quartos. Depararam-se consigo num espelho e ele quase sacou o revólver. Somos nós, Papai, o menino sussurrou. Somos nós.

As lembranças do homem que não podem ser passadas para o filho, de um outro mundo:

Quando acordou novamente achou que a chuva tinha parado. Mas não foi isso que o acordou. Ele tinha sido visitado num sonho por criaturas de um tipo que nunca tinha visto antes. Não falavam. Ele achou que tinham estado agachadas ao lado do seu catre enquanto dormia e que tinham escapulido quando ele acordou. Virou-se e olhou para o menino. Talvez compreendesse pela primeira vez que, para o menino, ele próprio era um alienígena. Um ser de um planeta que já não existia. Cujas histórias eram suspeitas. Ele não tinha como construir para o prazer da criança o mundo que tinha perdido sem construir também a perda e achava que talvez o menino soubesse disso melhor do que ele. Tentou se lembrar do sonho mas não conseguiu. Tudo o que restava era a sensação. Pensou que talvez eles tivessem vindo avisá-lo. De quê? De que ele não podia acender no coração da criança o que eram cinzas no seu próprio. Mesmo agora alguma parte dele desejava que nunca tivessem encontrado aquele refúgio. Alguma parte dele desejava que tudo tivesse terminado.

a estrada

Ao encontrarem outro andarilho pela estrada, velho, maltrapilho e desgraçado, que pela pena do menino, eles acolhem momentaneamente:

Eu não sou nada. Posso ir embora se você quiser. Consigo encontrar a estrada.
Você não precisa ir embora.
Eu não vejo uma fogueira há muito tempo, isso é tudo. Vivo como um animal. Você não ia querer saber as coisas que comi. Quando vi esse menino pensei que tinha morrido.
Pensou que ele era um anjo?
Eu não sabia o que ele era. Nunca achei que fosse voltar a ver uma criança. Não sabia que isso ia acontecer.
E se eu disser que ele é um deus?

O velho sacudiu a cabeça. Já deixei tudo isso para trás. Faz anos. Onde os homens não podem viver deuses também não se sentem bem. Você vai ver. É melhor ficar sozinho. Então espero que não seja verdade o que você disse pois estar na estrada com o último deus seria uma coisa terrível então espero que não seja verdade. As coisas vão melhorar quando todos tiverem morrido.
Vão?
Claro que vão.
Melhorar para quem?
Todo mundo.
Todo mundo.
Claro. Todos nós estaremos melhor. Vamos respirar com mais facilidade.
É bom saber disso.
É sim. Quando todos tivermos morrido pelo menos não haverá ninguém aqui além da morte e seus dias estarão contados também. Ela vai estar aqui na estrada sem nada para fazer e sem ninguém a quem fazer. Ela vai dizer: Para onde foi todo mundo? e é assim que vai ser. O que há de errado com isso?

(Se alguém leu este post até aqui - apesar do aviso de spoiler -, já deve ter notado que o livro é cheio de questões filosóficas.)

Diálogo entre pai e filho, mostrando que a inocência do menino aos poucos se esvai naquele mundo brutal. E sobre histórias:

Passaram o dia ali, sentados em meio a caixas e engradados. Você tem que falar comigo, ele disse.
Estou falando.
Tem certeza?
Estou falando agora.
Quer que eu te conte uma história?
Não.
Por que não?
O menino olhou para ele e desviu o olhar.
Por que não?
Essas histórias não são verdadeiras.
Elas não têm que ser verdadeiras. São histórias.
É. Mas nas histórias estamos sempre ajudando as pessoas e nós não ajudamos as pessoas.

Por que você não me conta uma história?
Não quero.
Está bem.
Não tenho nenhuma história para contar.
Você podia me contar uma história sobre você mesmo.
Você já conhece todas as histórias sobre mim. Você estava lá.
Você tem histórias por dentro que eu não conheço.
Quer dizer como sonhos?
Como sonhos. Ou coisas em que você pensa.
É, mas as histórias deveriam ser felizes.
Elas não têm que ser.
Você sempre conta histórias felizes.
Você não tem nenhuma história feliz?
Elas são mais tipo vida real.
Mas as minhas histórias não são.
As suas histórias não são. Não.
O homem o observava. A vida real é bem ruim?
O que você acha?
Bem, acho que ainda estamos aqui. Um bocado de coisas ruins aconteceu mas ainda estamos aqui.
É.
Você não acha que isso seja tão bom.
Está bem para mim
.

Mesmo tendo lido já faz mais de dois meses, ao reler essas passagens pra fazer o post, me emocionei.

2012-07-08

Livro: A Dama das Camélias

Um livro que reli recentemente, nas minhas férias, foi A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho (filho de Alexandre Dumas, autor de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo).

A Dama das Camélias conta a história de amor entre Armand Duval, um jovem pequeno burguês do fim do século 18, e Marguerite Gautier, uma das mais cobiçadas cortesãs de Paris. (Para os mais jovens, cortesãs eram as prostitutas daquela época.)

livro a dama das camélias
(Capa da minha edição)

O livro é um grande drama e romance, que narra de maneira melodramática o amor verdadeiro e proibido entre esses dois personagens. Quanto às suas qualidades literárias, é um texto fácil de ler, com um bom ritmo e uma linguagem acessível (pelo menos na minha edição traduzida). A história, carregada de emoção, é uma história de amor que, mesmo carregada de elementos que já se tornaram clichês hoje, consegue emocionar. Mesmo que pareça brega. (Mas, enfim, que amor não é brega?)

Contado a partir de um grande flashback, o livro alterna os seus narradores. No início, é o autor pseudo-fictício do livro quem narra a obra, contando como conhece Armand, através de um livro que ele comprara num leilão. Leilão este que era dos pertences de Marguerite, uma conhecida cortesã, recentemente falecida. (Já sabemos de antemão que ela esta morta, portanto, não é spoiler.) A partir de então, Armand assume o papel de narrador, contando a história ao autor do livro e aos leitores. A voz do narrador ainda assume o ponto de vista de Marguerite ao longo do livro, quando ela se expressa por cartas endereçadas a Armand, até a voz retornar ao autor do livro.

Dumas Filho baseou-se em sua própria vida ao escrever A Dama das Camélias, o que talvez explique como o texto é impregnado de uma autenticidade e uma força não habituais. A história de amor entre o jovem e a cortesã fez um bom sucesso, sendo adaptada para o teatro pelo próprio autor, mais tarde inspirado a criação da ópera La Traviata e, posteriormente, adaptado ao cinema.

Particularmente, me emocionei muito lendo A Dama das Camélias. Recomendo a leitura. É um livro rápido de se ler e, em seus temas e elocubrações, se mantém bastante atual. A sociedade, em seu cerne, não muda muito.

cortesã

Abaixo, algumas (mentira, são muitas) passagens e citações do livro que separei. Os grifos são meus. (E claro, contém spoilers.)

A Dama das Camélias - citações

Logo o início, deixando claro o tom confessional/autobiográfico que o romance assume:

Sou da opinião de que só se pode criar personagens quando já se estudou muito os seres humanos, assim como só se pode falar uma língua na condição de tê-la aprendido a sério.

Não tendo ainda atingido a idade em que se pode inventar, contento-me em relatar.

(Alguém já disse uma vez que você só se escreve bem sobre o que você conhece. É sobre isso a citação acima.)

Sobre a visita do autor ao apartamento onde a Dama das Camélias morava, na visitação pré-leilão pós-morte para pagar suas dívidas:

Era cedo, e, entretanto, já havia visitantes no apartamento e até mesmo senhoras que, mesmo vestidas com veludos, cobertas de caxemira e aguardadas à porta por seus elegantes cupês, observavam com estarrecimento, até mesmo com admiração, o luxo que se desfraldava ante seus olhos.

Mais tarde entendi essa admiração e essa surpresa, pois, pondo-me também a examinar, reconheci facilmente que eu estava no apartamento de uma cortesã. Ora, se há algo que as mulheres da alta sociedade desejam ver - e lá havia mulheres da alta roda - é a intimidade dessas mulheres, cujo séquito macula a cada dia os seus, que têm, como as damas da sociedade, o seu assento no Opéra e no Theâtre Italiens e que esparramam, em Paris, a insolente opulência de sua beleza, de suas jóias e de seus escândalos.

Aquela em cuja casa eu me encontrava estava morta: as mulheres mais virtuosas podiam, então, penetrar no seu quarto. A morte purificara o ar daquela esplêndida sarjeta, e aliás, elas tinham como desculpa - se é que havia necessidade disso - que compareciam a uma venda sem saber à casa de quem vinham. Viram anúncios, queriam examinar aquilo que os cartazes prometiam e fazer suas escolhas com antecipação, nada mais simples. O que não as impedia de procurar, em meio a todas aquelas maravilhas, traços da vida cortesã da qual haviam-lhes feito, sem dúvida, relatos tão estranhos.

Infelizmente, os mistérios haviam sido enterrados com a deusa, e, apesar de toda a boa vontade, aquelas damas encontraram apenas aquilo que fora posto à venda depois da morte, e nada daquilo que se vendia durante a vida da locatária.

(O fascínio que a vida de prostitutas exerce, desde tempos imemoriais.)

cortesã renascença

Sobre a morte de Marguerite e outras damas de mesma profissão:

Eu estava voltando de viagem. Era bem natural que ninguém tivesse me feito saber da morte de Marguerite como uma das grandes otícias que os amigos sempre comunicam àquele que retorna à capital das novidades. Marguerite era bela, mas assim como a requintada vida dessas mulheres causa alvoroço, a morte delas não o faz. São desses sóis que se apagam assim como nasceram, sem brilho. Sua morte, quando elas morrem jovens, é sabida por todos os amantes ao mesmo tempo, pois, em Paris, quase todos os amantes de uma moça reputada convivem com intimidade. Algumas lembranças a respeito dela são trocadas, e a vida de uns e de outros continua sem que esse incidente a perturbe, sequer mesmo com uma lágrima.

Sobre a origem do apelido Dama das Camélias:

Marguerite assistia a todas as estréias e passava todas as noites em espetáculos ou em bailes. Cada vez que se encenava uma peça nova, podia-se estar certo de vê-la lá, com três coisas que nunca a abandonavam e que ocupavam sempre a frente de seu camarote térreo: seu binóculo, um saco de balas e um buquê de camélias.

Durante vinte e cinco dias do mês, as camélias eram brancas, e durante cinco dias, eram vermelhas. Nunca se soube a razão dessa variedade de cores, que eu assinalo sem poder explicar e que chamou a atenção dos frequentadores do teatro de sua predileção e dos seus amigos tanto quanto a minha.

Nunca se viu Marguerite com outras flores que não camélias. De forma que na loja da Madame Barjon, sua florista, terminou-se por chamá-la a Dama das Camélias, e este apelido ficou.

camélias

Com um diálogos que ilustram o que se pensava de Marguerite, e de modo geral, o que se pensa(va) sobre as cortesãs:

- Conheceu uma tal de Marguerite Gautier?
- A Dama das Camélias?
- Exatamente.
- Muito!

Estes "muito!" eram às vezes acompanhados de sorrisos incapazes de deixar qualquer dúvida quanto à sua significação.

- Pois bem, e como era aquela moça?
- Uma boa moça.
- Só isso?
- Meu Deus! Sim, com mais espírito e talvez um pouco mais de coração que as outras.

(Hoje diríamos if you know what I mean...)

Já na voz do apaixonado Armand, sobre idealizações, pudores, oportunidades e sonhos, em relação às mulheres:

Eu tremia frente à possibilidade de me certificar de que Marguerite não merecia o que eu sentia por ela.

Há em um livro de Alphonse Karr, chamado Am Rauchen, um homem que segue, à noite, uma mulher muito elegante e por quem se apaixonara à primeira vista, tão linda ela era. Para beijar a mão daquela mulher, ele sente em si a força para empreender qualquer coisa, a vontade de tudo conquistar, a coragem de tudo fazer. Ele mal ousa olhar o mimoso tornozelo que ela desvenda para não sujar o seu vestido ao contato da terra. Enquanto ele sonha com tudo que fará para possuir aquela mulher, ela interpela-o na esquina de uma rua e lhe pergunta se ele quer subir à casa dela.

O homem volta-lhe a cara, atravessa a rua e vai todo triste para casa
.

(Velhos tempos em que um tornozelo ou pedaço de pescoço de fora - ou qualquer outra pequena área de pele visível - faziam voar a imaginação e libido masculinas. E sim, eu sei que não é sobre isso a pequena história.)

Sobre o diferencial da Dama das Camélias:

Enfim, seja devido à sua natureza, seja consequência de seu estado doentio, de tempos em tempos passavam nos olhos daquela mulher lampejos de desejo cuja manifestação seria uma revelação do céu para aquele que ela amasse. Mas já se perdia a conta daqueles que amaram Marguerite. E a conta daqueles amados por ela ainda não começara.

Em resumo, reconhecia-se naquela moça a virgem que um pequeno acidente fizera cortesã, e a cortesã que um pequeno detalhe teria feito a virgem mais apaixonada e mais pura. Havia, ainda, em Marguerite, orgulho e independência: dois sentimentos que, feridos, são capazes de fazer o que faz o pudor. Eu nada dizia: minha alma parecia ter ido parar todo no coração, e o meu coração, nos meus olhos.

(Isso é um resumo bem colocado de como é construída a personagem de Marguerite, de modo a distanciá-la da figura estereotipada "suja" e "interesseira" de cortesã, deixando-a amável aos olhos masculinos, e passível de identificação aos olhos femininos.)

cortesã renascença

Sobre as condições do amor de Marguerite, a princípio:

- Se soubesse como a amo! - eu dizia-lhe bem baixinho.
- Verdade verdadeira?
- Eu juro.
- Pois bem, se me prometer fazer todas as minhas vontades sem dizer uma palavra, sem me fazer uma observação sequer, sem me questionar, talvez eu o ame.
- Tudo o que quiser!
- Mas, estou avisando: quero ser livre para fazer o que eu bem entender, sem lhe dar a menor explicação sobre a minha vida. Faz tempo que busco um amante jovem sem vontades, apaixonado sem desafios, amado sem direitos. Jamais consegui encontrar um. Os homens, em vez de ficarem satisfeitos de receber durante um bom tempo aquilo que sequer pensaram em um dia obter, exigem de sua amante contas do presente, do passado e até do futuro. À medida que se acostumam com ela, querem dominá-la e tornam-se mais exigentes conforme damos tudo aquilo que querem. Se decido-me a tomar um novo amante agora, quero que tenha três qualidades bem raras: que seja confiante, submisso e discreto.

(O grifo serve para homens e mulheres, de fato. Seres humanos em geral.)

Com os percalços da profissão da Dama das Camélias, por ela mesma:

- Ouça-me - disse-lhe Marguerite -, você vai dizer sempre àquele imbecil que não estou ou que não quero recebê-lo. Estou cansada de ver a toda hora gente que vem me pedir a mesma coisa, que me paga e assim acha que está quite comigo. Se aquelas que começam nossa vergonhosa profissão soubessem como é, prefeririam virar criadas. Mas não: nos atrai a vaidade de possuir vestidos, carros, diamantes. Acreditamos naquilo que ouvimos, pois a prostituição tem seus seguidores, e usamos, pouco a pouco, nosso coração, nosso corpo, nossa beleza. As pessoas têm receio de nós como de uma besta selvagem, desprezam-nos como a um pária, somos rodeadas apenas por pessoas que tomam-nos mais do que nos dão e, um belo dia, morremos como cães, depois de ter perdido os outros e perdido a nós mesmas.

(Uma descrição que permanece ainda atual, na maioria dos casos, creio eu.)

cortesã medieval

Sobre o amor e a sua conquista, com as diferenças referentes às mulheres castas (daquela época) e às cortesãs:

Ser amado por uma jovem casta, ser o primeiro a revelar-lhe este grande mistério do amor é uma grande felicidade, realmente. Mas é também a coisa mais simples do mundo. Ocupar um coração que não está acostumado aos ataques é entrar em uma cidadela aberta e desprovida de guardas. A educação, o sentimento do dever e da família são sentinelas muito fortes, mas não há sentinelas tão vigilantes que não sejam enganadas por uma moça de dezesseis anos a quem, através da voz do homem que ela ama, a natureza dá aqueles primeiros conselhos do amor, que são tanto mais ardentes quanto mais puros parecem.

Quanto mais a jovem crê no bem, mais se entrega facilmente, se não ao amante, pelo menos ao amor, pois, não tendo desconfiança, também não tem força alguma, e fazer-se amado por ela é um triunfo que qualquer homem de vinte e cinco anos pode conceder a si próprio quando quiser. E tanto isto é verdade que veja como cercam as jovens moças de vigilância e cuidados! Os conventos não têm muros suficientemente altos, as mães, fechaduras suficientemente fortes, a religião, deveres suficientemente inesgotáveis para encerrar todas essas charmosas avezinhas em suas gaiolas, sobre as quais sequer dão-se o trabalho de jogar flores. E assim como elas provavelmente desejam este mundo que lhes é escondido, também devem crer que é tentador, e devem escutar a primeira voz que, através das grades, vai contar-lhes os segredos desse mundo e abençoar a mão que levanta, pela primeira vez, uma pontinha do misterioso véu.

Mas, ser realmente amado por uma cortesã é uma vitória muito mais difícil. No caso delas, o corpo gastou a alma, os sentidos queimaram o coração, a devassidão embotou os sentimentos. As palavras que lhes dizemos, elas as ouvem há muito tempo; os métodos que empregamos, elas os conhecem. Mesmo o amor que elas inspiram já foi anteriormente vendido. Amam por razões profissionais, e não por razões passionais. São melhor cuidadas pelos seus cálucos do que uma virgem o é por sua mãe ou por um convento. Assim também inventaram a palavra capricho, para aqueles amores sem comércio que se permitem de tempos em tempos como um descanso, como desculpa ou como consolo. Semelhantes a aqueles usurários que provocam a falência de mil indivíduos e crêem tudo poder compensar emprestando, um dia, vinte francos a algum pobre-diabo que morre de fome, sem exigir juros e sem pedir recibo.

E depois, quando Deus permite um pouco de amor a uma cortesã, esse amor, que parece, em princípio, um perdão, torna-se para ela, quase sempre, um castigo. Não há absolvição sem penitência. Quando uma criatura que tem todo o seu passado a se recriminar sente-se, repentinamente, tomada de um amor profundo, sincero, irresistível, do qual jamais ela se acreditou capaz, quando ela admite esse amor, como o homem amado passa a dominá-la! Quão forte ele se sente com aquele cruel direito de dizer-lhe: "Você nada fez pelo meu amor que não tenha feito por dinheiro".

(Mais uma vez, o autor traça, naquela época, um retrato bem fiel do presente. Ou seja, as pessoas não mudaram tanto assim. - People don't change - A única diferença é que as jovens de hoje se entregam muito mais facilmente nas questões físicas, por assim dizer.)

a dama das camélias

Sobre a Dama das Camélias e a origem de todos, num diálogo dela com Armand, depois de uma discussão e o planejamento de uma viagem:

- Então, em menos de um mês, estaremos em algum vilarejo, passeando "a beira da água e bebendo leite fresco. Parece-lhe estranho que eu, Marguerite Gautier, fale assim. Isso advém, meu amigo, do fato de que, quando essa vida de Paris, que parece me fazer tão feliz, não me abrasa, ela me aborrece, e, então, tenho súbitas inspirações sobre uma existência mais calma que me lembre a minha infância. Sempre houve uma infância, seja lá o que for que tenhamos nos tornado.

Numa carta de Armand para Marguerite, naquelas clássicas rotinas de termina/volta da maioria dos relacionamentos, com um alto tom de auto-piedade:

Perdoe-me algumas horas aborrecidas que lhe fiz passar, e tenha certeza de que não esquecerei jamais os momentos felizes que lhe devo.

Teria ido saber notícias suas hoje, mas devo voltar para perto de meu pai.

Adeus, cara Marguerite. Não sou nem rico o suficiente para amá-la como eu gostaria, nem pobre o suficiente para amá-la como você gostaria. Esqueçamos, então: você, um nome que lhe deve ser quase indiferente; eu, uma felicidade que me é impossível.

la traviata

Numa discussão entre Marguerite e Armand, questões como amor, cortesãs e seus caprichos, a descrição da vida por trás do glamour dessas mulheres da vida, e cães:

Eu escutava e olhava Marguerite com admiração. Quando pensava que aquela maravilhosa criatura, cujos pés eu outrora desejara beijar, consentia que eu entrasse de algum modo em seu pensamento, que tivesse um papel em sua vida e que ainda assim eu não me contentava com o que ela me dava, eu perguntava-me se há limites para o desejo do homem, quando, satisfeito tão prontamente quanto fora o meu, ele aspira, ainda, por alguma coisa.

- É verdade - retomou ela -, nós, criaturas do acaso, temos desejos fantásticos e amores inconcebíveis. Nos entregamos ora por uma coisa, ora por outra. Há pessoas que se arruinariam sem nada obter de nós; outras, que nos têm apenas com um buquê. Nosso coração tem seus caprichos: é sua única distração e sua única justificativa. Entreguei-me a você mais rápido do que a qualquer homem, juro, e por quê? Porque, ao me ver cuspindo sangue, você me tomou a mão, porque chorou, porque é a única criatura humana que sofreu comigo. Vou dizer uma bobagem, mas há muito tempo tive um cachorro que me olhava de um jeito todo triste quando eu tossia: foi o único ser que amei. Quando morreu, chorei mais do que na morte da minha mãe. É bem verdade que ela me bateu durante doze anos de sua vida. Pois bem, amei você tão prontamente quanto ao meu cão. Se os homens soubessem o que podem obter com uma lágrima, seriam mais amados e nós custaríamos menos caro.

Ainda continuando a longa fala, Marguerite discute sobre a vida solitária que cerca as prostitutas, com as falsas amizades e o amor dos homens que, no caso delas, se constitui apenas de um amor próprio e egoísta:

(...)

Além disso - continuou Marguerite -, você era a única pessoa com a qual eu podia pensar e falar livremente, compreendi isso em seguida. Todos aqueles que cercam moças como eu têm interesse em escrutinar nossas menores palavras, em tirar uma consequência de nossas ações mais insignificantes. Nós, naturalmente, não temos amigos. Temos amantes egoístas que gastam sua fortuna não conosco, como dizem, mas com a sua própria vaidade. Para essas pessoas, é preciso que sejamos alegres quando estão felizes, comportadas quando querem jantar, céticas quando o são. É proibido, para nós, ter um coração, sob pena de sermos vaiadas e arruinarmos o nosso crédito. Não pertencemos mais a nós mesmas. Não somos mais seres, mas coisas. Somos as primeiras no amor-próprio deles, as últimas na sua estima. Temos amigas, mas são amigas como Prudence, mulheres outrora da vida que ainda têm gostos extravagantes que a idade não mais lhes permite. Então, tornam-se nossas amigas, ou melhor, nossas comensais. A amizade delas chega às raias da servilidade, jamais ao desinteresse. Nunca darão mais do que um conselho lucrativo. Pouco importa-lhes que tenhamos dez amantes ou mais, desde que ganhem vestidos, ou um bracelete, e que possam, de tempos em tempos, passear no nosso coche e ir ao teatro no nosso camarote. Ficam com os nossos buquês da véspera e pegam emprestadas as nossas caxemiras. Jamais nos fazem um favor, por pequeno que seja, sem fazer com que seja pago pelo dobro do que vale. Você próprio o viu, na noite em que Prudence levou-me seis mil francos que eu mandara que ela pedisse ao duque em meu nome: pegou emprestado quinhentos francos que jamais me devolverá ou que pagará em forma de chapéus que jamais sairão das caixas. Então, só podemos, ou melhor, eu só podia ter uma felicidade, e esta era, triste como fico às vezes, agonizante como o sou sempre, encontrar um homem superior o suficiente para não me pedir contas da minha vida e para ser amante dos meus sentimentos bem mais do que do meu corpo. Esse homem, encontrei-o no duque, mas o duque é velho, e a velhice não protege nem consola. Acreditei poder aceitar a vida que ele me dava: mas o que você quer? Eu morria de tédio, e, se é para se consumir, tanto faz jogar-se em um incêndio quanto asfixiar-se com o carvão. Então, encontrei você. Jovem, ardente, feliz, e tentei fazer de você o homem pelo qual ansiei em meio à minha abrasante solidão. Aquilo que eu amava em você não era o homem que existia, mas o homem que deveria existir. Mas você não aceita esse papel, rejeita-o como indigno de você, é um amante vulgar. Faça como os outros: pague-me, e não falemos mais nisso.

Marguerite, que a longa confissão fatigara, largou-se contra o encosto do canapé e, para abafar um fraco acesso de tosse, levou o lenço aos lábios e aos olhos.

- Perdão, perdão - murmurei -, compreendi tudo isso, mas eu queria ouvi-lo de você, minha adorada Marguerite. Esqueçamos o resto e lembremos de apenas uma coisa: que somos um do outro, que somos jovens e nos amamos. Marguerite, faça de mim tudo o que bem entender, sou seu escravo, seu cão, mas pelo amor dos céus, rasgue a carta que escrevi e não me deixe partir amanhã, eu morreria.

a dama das camélias filme tv

Sobre os ares do campo e os apaixonados:

Sempre se associou o campo ao amor, e fez-se bem, nada enquadra a mulher amada como o céu azul, os perfumes, as flores, as brisas, a solidão resplandecente dos campos ou das florestas. Por mais que se ame uma mulher, não importa a confiança que se tenha nela, por mais certeza sobre o futuro que nos dê o seu passado, somos sempre mais ou menos ciumentos. Se já esteve apaixonado, seriamente apaixonado, deve ter experimentado aquela necessidade de isolar do mundo o ser no qual você gostaria de viver por inteiro. Parece que, por mais indiferente que ela seja àquilo que a cerca, a mulher amada perde seu perfume e sua unidade ao contato de homens e de coisas. E, eu sentia isso bem mais do que qualquer outro. Meu amor não era um amor comum: eu estava tão apaixonado quanto uma criatura comum pode estar, mas por Marguerite Gautier, o que quer dizer que em Paris, a cada passo, eu podia esbarrar em um homem que fora o amante dessa mulher - ou que seria, futuramente. Ao passo que no campo, em meio a pessoas que nunca havíamos visto e que não prestavam atenção em nós, no seio de uma natureza toda enfeitada pela primavera - esse perdão anual - e separada do barulho da cidade, eu podia esconder a minha amada e amar sem vergonha nem temor.

(Ciúmes e status social. Para os homens, vale lembrar a regra, via de regra, é que você não é o primeiro e nem será o último.)

Com declarações apaixonadas:

Fornecer detalhes sobre a nossa nova vida seria coisa difícil. Ela se compunha de uma série de criancices para nós encantadoras, mas insignificantes para aqueles a quem eu contasse. Você sabe o que é amar uma mulher, sabe como os dias ficam curtos e com qual preguiça amorosa nos deixamos ser levados ao amanhã. Certamente não ignora aquele esquecimento de todas as coisas, que nasce de um amor violento, confiante e partilhado. Todo ser que não é a mulher amada parece um ente inútil da criação. Nos arrependemos de já ter jogado migalhas de nosso coração a outras mulheres e não entrevemos a possibilidade de jamais apertar outra mão que não aquela que seguramos entre as nossas. O cérebro não admite nem trabalho e nem lembrança. Nada, enfim, daquilo que poderia distraí-lo do único pensamento que, sem cessar, lhe ofertamos. Cada dia descobrimos na amada um charme novo, uma voluptuosidade desconhecida.

Numa conversa entre Armand e seu pai, discutindo sobre a situação de Armand com Marguerite e seus inerentes problemas perante a sociedade:

- O que o senhor quer? Talvez eu esteja errado, mas só posso ser feliz na condição de permanecer o amante desta mulher.

- Vamos, Armand, abra os olhos, reconheça o seu pai, que sempre o amou e que apenas quer a sua felicidade. É honroso para você viver maritalmente com uma moça que todos possuíram?

- Que importa, meu pai, se ninguém mais a terá? O que importa, se essa moça me ama, se ela se regenera por causa do amor que tem por mim e pelo amor que tenho por ela? Que importa, enfim, se há o arrependimento?

- Ah! Acredita, então, que a missão de um homem honrado seja converter cortesãs? Acredita, então, que Deus deu esse objetivo grotesco à vida, e que o coração não precisa ter outro entusiasmo que não esse? Qual será a conclusão dessa cura maravilhosa, e o que você pensará daquilo que hoje diz quando tiver quarenta anos? Rirá do seu amor, se ainda lhe for permitido fazê-lo, se não tiver deixado marcas fundas demais em seu passado. O que seria de você a essa altura, se o seu pai tivesse tido as suas ideias e tivesse abandonado a vida dele a todos esses ventos de amor, em lugar de se estabelecer de modo inabalável sobre uma ideia de honra e lealdade? Reflita, Armand, e não diga mais tais bobagens. Vamos, deixará essa mulher, o seu pai lhe suplica.

Nada respondi.

(O amor, a importância de ser o último a ser amado pela mulher e o arrependimento e amor como redenção à profissão mais antiga do mundo.)

dama das camelias bale

Numa carta de Marguerite, já no fim da vida, sobre as mazelas da vida:

Aquela esperança de saúde nada mais era do que um sonho. Cá estou, novamente na cama, o corpo coberto de emplastros que me queimam. Que se ofereça esse corpo pelo qual se pagava tão caro outrora, e veja o que darão por ele hoje!

É preciso que tenhamos feito muito mal antes de nascer, ou que gozemos de uma felicidade muito grande depois de nossa morte, para que Deus permita que esta vida tenha todas as torturas da expiação e todas as dores da provação.

Em outra carta de Marguerite, relembrando no fim, o começo:

Oh! Venha, Armand. Sofro terrivelmente, vou morrer, meu Deus. Eu estava tão triste ontem que quis passar em outro lugar que não em casa a noite que prometia ser longa como a da véspera. O duque veio de manhã. Parece-me que a visão daquele velho esquecido pela morte me faz morrer mais rápido.

Apesar da ardente febre que me queimava, fiz com que me vestissem e com que me levassem ao teatro Vaudeville. Julie aplicou-me ruge, sem o que eu teria a aparência de um cadáver. Fui para aquele camarote no qual lhe fui apresentada pela primeira vez. Durante todo o tempo, tive os olhos fixos no assento que você ocupara naquele dia e que um grosseirão ocupava ontem, rindo de todas as coisas tolas pronunciadas pelos atores. Trouxeram-me quase morta para casa. Tossi e cuspi sangue durante toda a noite. Hoje não consigo mais falar, mal mexo os braços. Meu Deus! Meu Deus! Vou morrer. Eu esperava por isso, mas não consigo habituar-me à ideia de sofrer mais do que já sofro e se...

(Eu acho tão triste, mas também tão belo, quando na história, no final, vemos reminescências do início. Especialmente em romances e dramas.)

Simplesmente o fim, com a voz voltando ao autor do livro:

Voltei a Paris, onde escrevi esta história tal qual me foi relatada. Ela tem apenas um mérito que lhe será, talvez, contestado: o de ser verdadeira.

Não tiro desta narrativa a conclusão de que todas as moças como Marguerite são capazes de fazer o que ela fez. Longe disso, mas é do meu conhecimento que uma delas experimentou, em sua vida, um amor sério, que sofreu por esse amor e por ele morreu. Contei ao leitor o que soube. Tratava-se de um dever.

Não sou apóstolo do vício, mas ecoarei a nobre infelicidade em todos os lugares em que a ouvir suplicar.

A história de Marguerite é uma exceção, repito. Mas, fosse uma regra, não valeria a pena escrevê-la.

Para saber mais: link da Wikipedia sobre o livro e um bom texto comentando a obra.

2012-06-22

Livro: Ilha do Medo

Nas férias passadas, finalmente diminui (um pouco) a minha fila de livros a serem lidos. Um deles foi Ilha do Medo, de Dennis Lehane. Publicado por aqui originalmente como Paciente 67, este livro inspirou o filme de mesmo nome de 2010, dirigido por Martin Scorsese e estrelado por Leonardo DiCaprio.

livro ilha do medo capa

A sinopse oficial do livro segue abaixo:

No verão de 1954, o xerife Teddy Daniels chega a Shutter Island com seu novo parceiro Chuck Aule. A dupla deverá investigar a fuga de uma interna do Hospital Psiquiátrico Ashecliffe, reservado a pacientes criminosos. Sem deixar vestígios, a assassina Rachel Solando escapou descalça de um quarto vigiado e trancado à chave. Os médicos, funcionários e enfermeiras da instituição não parecem dispostos a colaborar com a investigação. E as mentiras vêm diretamente do enigmático médico-chefe do hospital. O desaparecimento de Rachel traz à tona uma série de suspeitas sobre o hospital: com suas cercas eletrificadas e guardas armados, talvez ele não seja apenas mais um sanatório para criminosos. Surgem rumores de que uma abordagem radical e violenta da psiquiatria seria lá praticada - as suspeitas incluem desde terríveis experiências com drogas e cirurgias experimentais, até o desenvolvimento de instrumentos a serem usados na Guerra Fria. Enquanto isso, um furacão se aproxima da ilha, precipitando uma revolta entre os presos. Quanto mais perto da verdade Teddy e Chuck chegam, mais enganosa ela se torna.

livro ilha do medo

Depois de ler o livro, é perceptível que o filme é bem fiel ao livro. Apesar de ser quase regra que filmes baseados em livros são sempre inferiores ao material original, este não é o caso. Ambas as mídias, livro e filme, têm o mesmo clima soturno de thriller misturado a toques de noir. Apesar de ser basicamente um suspense policial, a história também tem uma boa dose de drama e até mesmo, pitadas filosóficas espalhadas pelo texto. A leitura é dinâmica e não é cansativa, apesar dos temas abordados pelo livro, serem pesados.

Numa avaliação resumida, Ilha do Medo vale muito a pena ser lido. Se, no entanto, você não for fã de leitura, pode se contentar somente com o filme, que faz jus ao material original.

livro ilha do medo

Abaixo, algumas citações que separei da leitura (grifos meus):

Sempre há:

"Mas abrimos mão de nosso passado para garantir o futuro?", disse Chuck atirando, com um piparote, o cigarro na espuma. "Eis a questão. O que você perde quando varre o chão, Teddy? Migalhas que de outro modo atrairiam formigas. Mas o que dizer do brinco que ela perdeu? Também foi parar no lixo?"

Teddy disse: "Quem é ela? De onde você a tirou, Chuck?".
"Há sempre uma ela, não é?"

Acordar:

Dolores morrera havia dois anos, mas revivia à noite, nos sonhos dele. E às vezes, no alvorecer. Teddy passava minutos a fio pensando que ela estava na cozinha ou tomando café na sacada do apartamento em Buttonwood. Era uma cruel ilusão armada por sua mente, claro, mas havia muito tempo que Teddy se conformara com a lógica desse acontecimento - afinal de contas, acordar era como nascer. A gente emerge sem história. Depois, entre um piscar de olhos e um bocejo, reorganiza o passado, dispondo os fragmentos em ordem cronológica, reunindo forças para enfrentar o presente.

livro ilha do medo

Sobre a violência:

Tinham chegado ao portão principal. O diretor, que continuava segurando o braço de Teddy, fê-lo girar de modo a ter à frente a casa de Cawley e, mais adiante, o mar.

"Você apreciou essa dádiva recente de Deus?"

Teddy olhou longamente o homem. Por trás daqueles olhos tão perfeitos havia um espírito doente, ele pensou. "Como? Não entendi."

"Uma dádiva de Deus", disse o diretor. Num gesto largo, o braço dele abarcava a terra devastada pelo furacão. "Sua violência. Quando desci as escadas em minha casa e vi a árvore na sala de estar, senti que aquilo era obra da mão divina. Não literalmente, é claro. Mas no sentido figurado. Deus ama a violência. Você entende isso, não é?"

"Não", disse Teddy. "Não entendo."

O diretor avançou alguns passos e se voltou para encarar Teddy. "Que outro motivo existe para tanta violência? Ela está em nós. Vem de nós. Faz parte de nossa natureza, mais do que respirar. Nós desencadeamos a guerra. Fazemos sacrifícios. Pilhamos, dilaceramos a carne de nossos irmãos. Semeamos nossos fétidos cadáveres em grandes campos. E por quê? Para mostrar a Ele que aprendemos com o Seu exemplo."

Teddy o viu acariciar a capa de um livrinho que apertava contra o ventre.

O diretor sorriu, e seus dentes eram amarelos.

"Deus nos dá terremotos, furacões, tornados. Ele nos dá montanhas que cospem fogo sobre nossas cabeças. Oceanos que engolem navios. Ele nos dá a natureza, e a natureza é um assassino sorridente. E nos dá as doenças para que, em nossa morte, acreditemos que Ele nos deu orifícios só para que sentíssemos nossa vida se escoar através deles. Deu-nos a lascívia, a raiva, a cupidez e nossos corações sujos para que pudéssemos espalhar a violência em Sua homenagem. Não existe ordem moral mais pura que essa tempestade que vimos há pouco tempo. Aliás, não existe nenhuma ordem moral. Tudo se resume apenas a isto: minha violência pode dominar a sua?"

Teddy disse: "Não estou bem certo, eu...".

"Será que pode?", disse o diretor, agora tão perto de Teddy que este lhe sentiu o hálito podre.

"Pode o quê?", disse Teddy.

"Minha violência pode dominar a sua?"

"Não sou violento", disse Teddy.


O diretor cuspiu no chão, perto dos seus pés. "Você é um homem de uma rara violência. Eu sei, porque também sou. Não se dê ao trabalho de negar sua sede de sangue, rapaz. Poupe-me disso. Se não existissem mais os mecanismos de controle social, e se eu representasse o único alimento possível, você não hesitaria em rachar o meu crânio para se banquetear com meu cérebro." Ele se inclinou para frente. "Se eu metesse os dentes no seu olho agora mesmo, você conseguiria me deter antes que eu o arrancasse?"

Teddy viu um brilho de alegria nos olhos de bebê do diretor. Imaginou o coração daquele homem, negro e palpitante, por trás da parede do peito.

"Por que não tenta?", ele disse.

"Pegou o espírito da coisa", sussurrou o diretor.

Esse diálogo, que é mantido quase que totalmente fiel no filme, é um dos meus preferidos.

2011-12-28

Livro: Sincero

O livro Sincero, de Jürgen Schmieder, tem na capa escrito o que poderia ser uma pequena resenha dele: a história real e bem-humorada de um homem que tentou viver sem mentir. E é exatamente isso o que você encontra no livro, o projeto de Schmieder, que decidiu que durante os 40 dias da quaresma não ia mentir, dizendo o que viesse à sua mente de maneira sincera.

livro sincero capa jurgen schmieder

Numa sociedade em que pequenas mentiras não são somente toleradas, mas essenciais (e segundo o House, mentir é uma condição básica humana - everybody lies), você pode imaginar que a tarefa de não mentir por 40 dias é bem ingrata (mas bem divertida para quem observa de fora, como é o nosso caso como leitores). O resultado é frequentemente hilário, com Schmieder se colocando em saias justas por causa do seu projeto, ao falar a verdade para colegas de trabalhos e amigos, a namorada de um amigo, a família, a mulher, a si mesmo e até para o imposto de renda.

O texto de Schmieder, que é um jornalista alemão, é bem fluido e torna a leitura bastante agradável. Cheio de referências pop e modernas, o autor dá um toque às vezes meio nerd ao texto, falando desde os Simpsons até o Facebook, passando por diversos filmes conhecidos. O único problema é que não raramente ele cita figuras desconhecidas para nós, leitores não germânicos, mas nada que dificulte ou tire o prazer da leitura.

Com um humor ácido e sarcástico, e reflexões interessantes, Sincero é um livro bem divertido de se ler, além de relativamente curto (não tem 300 páginas).

Até pra mostrar o quanto gostei do livro, reuni alguns trechos dele, e não são exatamente poucos. Isso acontece quando o texto é tão bom que dá vontade de citá-lo quase que inteiro. Leiam:

O início do projeto, como uma penitência da quaresma:

Era a primeira vez, e planejei que seria assim pelo menos mais oito mil vezes. Repetiria aquilo de novo, e tinha grandes planos para a Quaresma. Continuaria bebendo, comendo doces e fumando. Eu tentara parar com tudo isso nos últimos cinco anos com sucesso razoável. Naquele momento tinha início, portanto, um novo projeto:

Ficar quarenta dias sem mentir.

E para deixar bem claro: eu também não diria a verdade. Seria sincero – e entre sinceridade e verdade há uma diferença. Pois é claro que não sei se a mulher atrás do balcão é de fato uma puta sem-vergonha, uma piranha descarada ou uma vaca idiota. Talvez ela seja uma pessoa boa que precisa criar quatro filhos sozinha, faz seu trabalho de forma cuidadosa e ainda prepara sopa para desabrigados – e foi pega desprevenida em um dia ruim, ou mesmo em um momento ruim. Mas naquela hora eu a achei uma piranha descarada e uma vaca idiota – e a informei sobre isso com toda a sinceridade. Existe uma relação complexa entre verdade e sinceridade – e com freqüência confundimos os conceitos. (...)E a afirmação "Você é um bundão" também pode ser sincera, contudo é difícil checar sua veracidade, pois quem pode dizer ao certo que tamanho precisa ter um traseiro para receber o aumentativo?

filme o mentiroso jim carrey

Reflexões sobre a mentira e o projeto:

Mentir, ao contrário, é punido juridicamente apenas quando se trata de delitos graves, como fraude ou perjúrio. Nenhuma mulher precisa ser responsabilizada em juízo por fingir orgasmo, e ninguém será considerado socialmente proscrito por não ter dito de coração que "O Senhor é um ótimo chefe". Porque essas pequenas mentiras são socialmente aceitas. Em geral, trata-se quem é sincero como alguém rude e malcriado.

E é ainda mais surpreendente o fato de que quase ninguém se descreve como mentiroso. A sinceridade é importante para as pessoas. De acordo com um estudo recente, 80% delas admitem que a sinceridade seria de extrema importância em um relacionamento afetivo – ficando à frente do humor, do sexo de qualidade, de boa situação financeira e posição social.

Claro que – e isso é comprovado também por diversos estudos – as pessoas acham pior ser enganadas do que elas próprias lançarem mão de uma mentirinha inofensiva. Eu queria descobrir, durante esses quarenta dias, algo mais: O que seria pior para as pessoas, ser enganadas ou ter que aguentar uma verdade dura?

Mas existe um problema, porque eu não sou o Jim Carrey – mesmo que a pele do meu rosto seja tão elástica quanto a dele –, muito menos o personagem que ele incorpora no filme O Mentiroso, em que é sincero por 24 horas porque simplesmente não pode mentir. A diferença entre nós é a seguinte: eu posso continuar mentindo sem pestanejar. Não existe uma obrigação, mas uma decisão de livre e espontânea vontade de ser sincero. O personagem de Carrey não entra em conflito consigo mesmo, não lhe resta escolha. Eu tenho. No filme se enfileiram cenas engraçadas, e há obviamente o abominável e inevitável final feliz, que tem apelo fraco por ser infeliz de tão previsível. Veremos como serão as coisas para mim.

De todo modo, eu acharia bem injusto se fosse castigado apenas por ser sincero – como também acharia extremamente injusto morrer há dois anos, quando fui atropelado logo depois de parar de fumar. Por isso voltei a fumar.

Citando cultura pop:

Não gostaria de dizer que tive uma epifania – mas fiquei muito impressionado. E se eu fosse um escritor melhor, me viria à cabeça um ditado mais elaborado do que a frase feita: "Da boca das crianças, apenas a verdade".

Eu estava como Charlie Sheen na brilhante série de TV Two and a Half Men. O pegador hedonista, que deu abrigo ao irmão e ao sobrinho meio lerdo, quer se casar. Charlie pergunta a Jake o que ele acha. "Bom", responde o garoto de 10 anos. Charlie então fica indignado: "Não tem mais nada a dizer?" E o menino: "Bem, o que devo achar?" Charlie pensa um pouco e responde: "Bom". Jake franze a sobrancelha: "Então..."

two and a half man

Verdades e mentiras no escritório e no relacionamento interpessoal no trabalho:

No escritório, ninguém deve expressar abertamente sua opinião, caso contrário se igualará a uma emissão de gás carbônico e será responsabilizado pelas "mudanças climáticas" do departamento. Devemos elogiar os colegas, criticá-los de forma construtiva, acima de tudo de maneira diplomática, e de jeito nenhum expressar abertamente e com todas as nossas forças osso ódio a muitos deles. Não sei exatamente por que as coisas são assim. Só sei que revista femininas, masculinas e treinadores profissionais ganham muita grana explicando aos leitores ou ouvintes como conseguem aplicar essas regras subentendidas e avançar no trabalho por meio de mentiras espertas.

(...) De acordo com estudos, pode-se passar mais tempo com os colegas do que com a própria mulher.

Como eu havia lido algo sobre isso havia poucos dias, perguntei sinceramente a mim mesmo por que as pessoas fazem todo aquele alvoroço com relação ao indivíduo com quem saem, se juntam ou se casam, enquanto na escolha do emprego se atentam apenas ao pagamento, à aparência e ao tamanho da empresa. Os relacionamentos foram transformados em ciência, que, em sua atenção aos detalhes, lembra as preparações para o lançamento de um foguete, enquanto na escolha do emprego, as pessoas conhecem apenas os funcionários do departamento pessoal, com os quais mais tarde vão se relacionar somente se houver erro no cálculo do salário.

Não deveria ser o contrário? Digo, se realmente refletirmos sobre os fatos? Não deveríamos ter o cônjuge escolhido por um assistente de departamento pessoal, enquanto primeiro nos encantaríamos com os colegas em um encontro e decidiríamos sobre sua contratação apenas após falar com seus pais? Será que alguém já pensou nisso?

Acredito que 80% dos meus colegas nem se relacionariam comigo se não tivéssemos de dividir o mesmo andar. Temos interesses distintos e não rimos das mesmas coisas. O escritório é um verdadeiro campo minado verbal sobre o qual temos de correr dia após dia; em todo canto há perigo de explosão. Sinceridade, sinceridade real, no sentido de Honestidade Radical, no ambiente de trabalho é tão adequada quanto uma pulada de cerca no dia do casamento.

E as pequenas mentiras que todos contam no escritório:

Reflita comigo. Uma frase do tipo: "Desculpe, não tenho tempo, estou cheio de coisas para fazer" é uma mentira quando seu e-mail pessoal está aberto na tela do computador. É uma desculpa gentil, mas uma mentira. Uma fala como "Seu texto está perfeito" é uma mentira quando na verdade se pensa que o texto é no máximo mediano. Trata-se de algo agradável, mas é uma mentira. E mesmo o fato de cumprimentar um colega que não lhe agrada apenas para contribuir para a paz geral significa mentir.

dwight schrute the office

Sobre propagandas, marketing, capitalismo desenfreado e o efeito manada:

Ao meu lado, a televisão exibia propagandas. Primeiramente Heidi Klum tenta me convencer de que ela e suas seguidoras magrelas vindas do inferno de algum casting se entopem diariamente de fast-food e ainda assim conseguem entrar em roupas PP. Então um quarentão atraente diz que cerveja sem álcool tem o mesmo gosto de cerveja normal e, para completar, uma mulher, que certamente nunca precisou fazer faxina na vida, me explica que com aquele produto é possível tirar as piores manchas do carpete.

Sinceramente, eles acham que somos idiotas? As pessoas que gravam esses filminhos de merda pensam mesmo que caímos nesse papo? Que acreditamos nessa baboseira toda? Há pouco li em um artigo que os negócios de fast-food, cerveja e produtos de limpeza prosperam também em meio à crise financeira, o que me leva a concluir que as pessoas devem ter perdido toda e qualquer noção. Somos enganados, e apesar de tudo compramos como se não houvesse amanhã. Quem compraria um produto anunciado assim: "Não somos os melhores nem os mais baratos, mas ficaríamos felizes se você ainda assim comprasse essa besteira?" Não sou exceção, também como fast-food e compro coisas no supermercado, embora toda vez minha mulher me explique que o outro produto, que fica vinte centímetros abaixo na prateleira, é mais barato e tão bom quanto o que está ao alcance do braço. E é claro que minha abundante autoconfiança me obriga a me considerar inteligente e a não me deixar influenciar por propagandas – mas definitivamente não rola. Eu me deixo enganar e não luto contra isso – e em algum lugar do mundo um diretor de comerciais está rolando de rir.

Temos ciência de que somos trapaceados o tempo todo, e ainda assim apoiamos isso ao comprar. Deveríamos boicotar esse tipo desonesto de anúncio e ainda reclamar com os fabricantes por meio de cartas, mas aceitamos o fato de que todos agem assim, e por isso está tudo em ordem. Porque todos mentem, achamos que isso é menos pior. A própria burrice não parece tão burra assim quando todos os outros são burros também. Nós certamente também aceitaríamos o estupro e o assassinato se todos agissem assim. Nós, seres humanos, somos engraçados.

Recapitulando e desejando terminar o projeto:

É bem provável que Deus me acusasse de ter feito as pessoas à minha volta sofrer, e teria razão. Ele me lembraria que eu dedurara meu melhor amigo como Judas traíra seu filho, e teria razão. Talvez até dissesse quão idiota eu era por ter deixado 1700 euros para o fiasco, embora não fosse totalmente divino ferrar com a receita federal, que parece muito com o inferno, e ele teria razão.

E certamente diria que nunca fui sincero com essa história de sinceridade, mas só comecei o projeto porque, por um lado, minha vida até aquele momento era muito chata e, por outro, desejava ficar rico e famoso com um livro e fazer com que as pessoas que afirmaram que eu não daria em nada revirassem no túmulo ou, no mínimo, na cama à noite. Nesse caso, ele também teria razão.

Resumindo, eu queria desistir.

Mentiras, mentiras:

O que existe de bom numa mentira? Absolutamente nada. Claro que Steffi e Uwe viveram felizes com a mentira por muito tempo. Ele podia andar de moto sem chateação e ela o considerava seu namorado querido que administrava com parcimônia o próprio dinheiro.

Uma mentira pode ser útil quando não desmascara ninguém.

Nós mentimos porque esperamos nunca ser apanhados. Só que uma mentira leva a outra que leva à próxima, e no fim tudo explode. Bem, pelo menos na maioria das vezes.

máscara anonymous

Sobre a geração "Dorian Gray" do autor, que se recusa a crescer:

Por isso eu não me descreveria como exemplo para meus sobrinhos e sobrinhas, mas com isso espero ser descrito como sinistro, ou da hora, ou show, ou seja lá o que os jovens de hoje costumam dizer em casos assim – na minha época de adolescente, poderia ser definido como bacana.

Faço jus à geração Dorian Gray. Minha imagem fica cada vez mais velha, enquanto luto desesperadamente para que os 30 anos durem vinte ou mais. Não se trata de modinha – hoje em dia membros da geração são recrutados em todas as faixas etárias. Os de 40 anos atraem mulheres de 22 na academia. Os de 50 festejam o aniversário não com um banquete, mas com uma festa de arromba na boate badalada do momento. Aposentados não saem mais para passear, mas se jogam na balada ou correm maratonas. Eles definitivamente não são molengas. Precisamos experimentar de tudo, mas nada mais certinhos. Somos turistas japoneses de nossa própria vida – procuramos momentos interessantes, tiramos uma fotografia rápida e logo estamos a caminho da próxima atração.

(...)

Tento ser jovial, bacana e descolado – pois ser jovem, bacana e descolado é ainda mais importante do que ser rico. Há pouco tempo, no cabeleireiro, apontei uma foto de um ator de 20 anos quando precisei escolher um corte de cabelo. Sei como se baixa um toque de celular, tenho mais de trezentos amigos no Facebook e há pouco tempo fui a um show das Pussycat Dolls. Sei o que é happy slapping. É muito simples: eu não quero crescer, nunca. Pode me chamar de Peter Pan, Lucien de Rubempré ou Dorian Gray.

Adorei a metáfora do turista japonês.

Ainda reflexões sobre a geração Dorian Gray e as mentiras que contamos a nós mesmos...

É ainda característico da minha geração não viver no presente, mas no passado ou no futuro. Mentimos a nós mesmos o tempo todo, porque nosso presente é determinado por empregos das nove da manhã às seis da tarde e programas de TV enfadonhos. Ou seja, contamos sobre nosso tempo de adolescência e faculdade, que naturalmente era muito mais louco e interessante do que o de todas as outras pessoas. Trata-se de um efeito psicológico simples: o cérebro elimina de nossa lembrança anual 320 dos 365 dias. O restante é editado e recheado de efeitos especiais – e assim um filme caseiro enfadonho vira um megasucesso psicopornô de ação. E de repente mesmo um professor de latim, que na adolescência era tímido demais para peidar na escola, pode contar aos filhos que foi um garanhão selvagem.

...e o vazio dessa geração, que quer estar sempre presente, mesmo que de forma frívola:

E a característica mais importante da geração Dorian Gray: queremos estar presentes. Como a maioria de nós não quebrará nenhum recorde mundial, não salvará vidas nem fará um gol decisivo numa final de Copa do Mundo, é de tremenda importância vivenciar algum acontecimento no mínimo como espectadores. Mario Barth conseguiu entrar para o Guinness com seu show de comédia no Estádio Olímpico de Berlim. As pessoas nas filas do fundo não viram, tampouco entenderam Barth – o que não foi assim tão ruim –, mas estavam lá, no recorde mundial. Um bombeiro resgata um homem de um carro capotado – e nós passamos por eles bem lentamente para poder contar detalhes na mesa do bar, mesmo que nunca salvemos outra pessoa. E claro que assistimos à final do campeonato, de preferência no estádio, mas em caso de necessidade a televisão também serve. Assim, estamos de alguma forma presentes – quando não como protagonistas, ao menos como espectadores. E ninguém se pergunta o que deu errado na vida para nunca ter estado no centro, mas todos nos damos tapinhas nas costas por pelo menos estar lá, à margem. Antigamente havia o ditado alemão: "Quem gosta de fazer da própria vida um show em algum momento vai ter de comprar um ingresso para si mesmo". Hoje poderia ser alguma coisa assim: "Quem não faz o próprio show tem ao menos um ingresso para ver o show alheio".

dorian gray

As conseqüências de ser da geração Dorian Gray e as suas mentiras:

De acordo com um estudo recente, temos uma faixa etária cuja taxa de mortalidade nos países industrializados cresce de maneira desproporcional: pessoas entre 16 e 30 anos. Ninguém quer procurar os reais motivos, então culpam os jogos de computador, o rock ou a internet. Isso também pode se dar pelo fato de que nossa adolescência dura muito, e em algum momento percebemos que a ilusão não pode mais ser sustentada e que mentimos para nós mesmos por quinze anos. Então enlouquecemos. Morremos de overdose. Corremos a 160 por hora numa estrada e socamos a cara num trator. Atiramos em outras pessoas e então cometemos suicídio.

Até aí não importa o fato de que nosso emprego paga mal, moramos em um buraco e não fazemos sexo há um ano. Porque, e isso está no catecismo da geração Dorian Gray: "Na escola e na faculdade eu era descolado, tinha dinheiro suficiente e dormia com pelo menos uma mulher por semana – em dez anos vou ganhar muito dinheiro, viajar pelo mundo e ter uma mulher dez anos mais nova. Isso aqui é só uma fase". O ópio não é a religião, mas o embelezamento do próprio passado e a esperança de um futuro mais interessante.

Mentimos para nós mesmos o tempo o todo, pois não queremos ser tediosos de jeito nenhum. E eu, como um dos membros dessa geração, minto para mim mesmo.

Elogios sinceros são uma arte:

Uma pergunta sincera: Quando foi a última vez que você fez um elogio realmente sincero? Não estou falando da frase feita "Sim, ficou ótimo" quando alguém pergunta, nem do enfadonho "Você fez um bom trabalho hoje", e tampouco estou me referindo ao meloso "Lindos olhos", que não é um elogio de fato, mas apenas um prelúdio do cortejo masculino com o objetivo de induzir ao sexo uma mulher que não quer transar. Estou falando de elogio sincero e bem pensado, que necessita de grande esforço e declara explicitamente ao outro que ele está realmente muito bem, ou o que no trabalho dele foi tão excelente, ou o motivo de seus olhos serem realmente excepcionais. Um elogio em que também se revele um pedaço de sua própria alma e talvez dê até um pouco de vergonha quando enunciado.

Sinceridade, paixão e amor:

Ficou claro também que sinceridade tem muito a ver com paixão e amor. No início do meu projeto, havia aquela emoção, aquela sensação de frio na barriga, coração disparado, arrepio. Era fascinante ser sincero com as pessoas – com a funcionária da estação de trem, com a namorada do meu melhor amigo, com a receita federal. Era empolgante ver a reação no rosto das pessoas e, olhando para trás, tomar uma porrada na costela também foi uma experiência prazerosa. Essa coisa de sinceridade era nova, tinha algo de proibido, era excitante. Era, de fato, um pouco como estar apaixonado.

Depois dos primeiros desesperos, primeiros sucessos e o retorno contínuo do frio na barriga, a rotina se instala, há uma quantidade de experiências engraçadas e algumas dolorosas – mas a empolgação desaparece. Queimei minhas melhores observações, pois tinha mesmo de ser sincero, isso fazia parte do meu projeto. Eu fazia elogios como se lesse as notícias do jornal das oito em um teleprompter. É verdade, nunca mais parei para pensar. Eu me acostumei à sinceridade, não fiz o menor esforço. Minha relação com ela havia esfriado, acabou ficando tão empolgante quanto um filme caseiro. Eu conhecia tão bem as principais reações das pessoas que às vezes nem prestava mais atenção. O sistema era sempre o mesmo: eu criticava alguém rapidamente e ganhava um olhar feio ou uma crítica. Caso fizesse um elogio sem amor, recebia de volta um sorrisinho breve ou uma palavra gentil. Sim, a sinceridade havia se tornado uma namorada com a qual eu estava desde os 13 anos e não fazia sexo havia seis meses.

amor sincero

Sinceramente revendo conceitos no trabalho:

Eu me testei. E o resultado não me agradou em nada.

Eu considerava os caras legais e as meninas bonitas os melhores funcionários da redação, enquanto os esquisitões e as mulheres, de acordo com Charloes Bukowski, integradas à sociedade apenas por emancipação caíam na minha escala de competência.

Meu Deus, eu era fútil. Eu precisava mudar. Urgentemente.

Eu tinha de dizer aos colegas o que achava de seus textos – e tinha de confessar isso com sinceridade: para mim era mais difícil elogiar do que encher alguém de ofensas críticas. Já tinha notado isso no pebolim havia algumas semanas – mas naquele momento calava mais fundo, pois era a segunda vez que acontecia, e se tornara evidente demais que tipo de pessoa eu era: um resmungão mal-humorado que preferia detonar que elogiar.

Meu pai sempre dizia: "Não dizer nada já é elogio suficente". Eu devia repensar a criação de meus pais.

As mentiras que os homens contam no sexo e no amor:

Sejamos sinceros: logo no primeiro encontro, mentimos dizendo que o barão de Münchhausen nos pediu para mudar para o seu castelo. Glamorizamos nosso trabalho, omitimos detalhes sobre o último relacionamento e claro que em algum momento surge a afirmação de que queremos ir devagar e primeiro desejamos conhecer o outro, por isso um beijinho no fim do encontro realmente basta. Não vou fazer como os comediantes costumam fazer por aí, mas preciso dar esta dica para as mulheres: um homem que no primeiro encontro não deseja dormir com a mulher é gay ou liga tanto para mulheres como o torcedor de um time liga para um célebre ex-jogador de outro.

Claro que, no primeiro encontro com minha mulher, eu disse que pegar na mãozinha já estava bom, embora o que quisesse mesmo fosse avançar sobre ela como um tamanduá sobre um formigueiro. Precisei esperar mais de cinco meses – uma espera e tanto, que agora vejo que valeu a pena, mas imagine você se o relacionamento tivesse terminado depois de três meses. Eu realmente teria perdido algo muito bom...

E a mentirada continua comendo solta – e em algum momento, surge a frase inevitável: "Você é a mulher mais bonita do mundo". Não gostaria de dizer nada sobre essa frase, pois vários comediantes e cerca de duzentas autoras de livros femininos já o fizeram. Obviamente podemos dizer que se trata de um belo elogio, mas é sobretudo uma mentira. E bem maldosa.

Pois, por um lado, ninguém pode afirmar que conhece de verdade a mulher mais linda do mundo – exceto se tiver amizade com a atual Miss Universo, além da Miss Mundo, da Miss Intercontinental e da "Mamãe Universo". Assim, deve-se tomar como exemplo Hugh Grant no filme Amor à segunda vista, quando Sandra Bullock o acusa: "Você é a pessoa mais egoísta do mundo". Ao que ele responde: "É ridículo – como se ela conhecesse todas as pessoas do planeta".

Por outro lado, a frase é mesmo uma mentira, porque não foi dita pela primeira vez – a não ser que o jovem esteja no início da puberdade. Acredito que eu – espero que minha mulher não leia isto – já tenha dito isso a umas vinte mulheres diferentes. Claro que é possível dar uma desculpa e explicar que todas as vezes ela foi dita com sinceridade. No entanto, uma mulher que realmente acredita nisso também acredita na frase: "Não, meu amor, eu nunca dormiria com a sua melhor amiga".

Ou seja, a frase, no melhor e mais romântico caso, deveria ser: "Acho você a mulher mais linda que encontrei na vida até agora". Ficaria um pouco desajeitada, mas seria sincera.

Se alguém reclamar perguntando onde fica o romantismo sem adulação, então eu ressalto que este livro se chama Sincero, e não Frases feitas sedutoras para conquistar qualquer mulher. Você vai entender do que estou falando. Eu concordo com a banda Die Ärtze, na música "Männer sind Schweine" (Homens não prestam), quando cantam: "Ele mente como se não houvesse amanhã apenas para levá-la para a cama".

Sim, é verdade, nós homens não prestamos, mas pela onda da metrossexualidade fomos obrigados a omitir esse fato. ...

discussão casamento

Casamento, sinceridade e o projeto do livro:

Na cerimônia de casamento, os casais são forçados a fazer promessas de longo prazo, que podem criar uma amarra mais poderosa que qualquer prisão. Deve-se amar e respeitar o cônjuge, e melhor que seja até a morte pôr um fim na relação. Comento aqui, apenas de passagem, que essa regra foi criada numa época em que a expectativa de vida não passava dos 30 anos, por isso ser casado pela vida toda significava apenas quinze anos. Aliás, não são poucos os prisioneiros que, na Alemanha, são condenados ao tempo máximo de prisão e são soltos por boa conduta após os mesmos quinze anos.

Na cerimônia, nada se fala a respeito da verdade e da sinceridade. Quem é que tenha criado os votos matrimoniais não imaginou que a sinceridade anteciparia a morte e a taxa de divórcio alcançaria números inimagináveis no mundo todo.

Geralmente as pessoas acreditam que a sinceridade traz mais problemas ao casamento do que infidelidade, bar com os amigos e mania de comprar sapatos. Eu também acreditava nisso. E foi por isso que quis colocar "a sinceridade no casamento" no fim do livro, sem me dar conta de que um casamento não deve ser mantido só até que a morte os separe, mas todos os dias.

Na preparação do projeto, imaginei que dizer a verdade à minha mulher seria pior do que mais uma continuação de Homem-Aranha. Pensei nas perguntas clássicas que todo homem teme, como sobre impotência e queda de cabelo. Antes do projeto, anotei as cinco perguntas das quais eu tinha mais medo:

- Você acha meu traseiro gordo?
- Você dormiria com a Nicole Scherzinger se ela quisesse?
- Com quantas mulheres você transou antes de mim?
- Se tivesse de escolher entre mim e o futebol, o que escolheria?
- Você se casaria comigo de novo agora?

Sim, eu respondi a essas perguntas, e no fim do capítulo revelarei as respostas.

Se você quiser saber as respostas, vai ter que arranjar o livro. :)

Pequenas citações pop:

De qualquer forma, ao surfar na Wikipédia, cheguei ao artigo sobre Lake Wobegon. Trata-se de uma cidadezinha dos sonhos no estado americano de Minnesota, onde todas as mulheres são lindas, os homens espertos e as crianças melhores que a média. Qualquer criança na cidade tem talentos acima da média.

Lógico que esse lugar não existe. O artigo já poderia ter me chamado atenção quando mencionou que todas as mulheres eram bonitas e todos os homens espertos. Um lugar assim não pode mesmo existir.

Lake Wobegon é a invenção do conhecido entrevistador e radialista americano Garrison Keillor – ele deve ser famoso, pois apareceu em um episódio dos Simpsons, e neste mundo as pessoas são realmente famosas quando alguma vez na vida se tornaram um desenho amarelo.

Um dos meus sonhos é tomar uma Duff no bar do Moe com o Homer.

bar do moe

Sobre auto-imagem, photoshop e a mentira para si mesmo:

A mania do Photoshop fez com que, em 2003, uma bela mulher estampasse a capa de uma revista masculina americana, só que o designer gráfico, zeloso demais, retocou os mamilos da moça e aparentemente não restou mamilo algum. Óbvio que os responsáveis pela revista se comportaram de forma correta na esfera jurídica, pois mamilos expostos nos Estados Unidos ficam em algum lugar entre assassinato e estupro. Contudo, eu me pergunto o que é mais perturbador: uma mulher maravilhosa nua ou uma mulher sem mamilos? De qualquer forma, minha carta de leitor da época ficou sem resposta.

De volta a mim e à sinceridade comigo mesmo: meus dentes estão amarelados por causa do cigarro, os cabelos também costumavam ser mais cheios. As roupas de trabalho são inadequadas, parecem mais as de um adolescente. A casa está como se tivesse sido abandonada por hippies há trinta anos e ninguém mais tivesse entrado nela.

Em suma: este homem aqui, que adora fingir que é autoconfiante e atraente, não tem controle nenhum sobre sua vida. Quero sempre ouvir dos outros que o texto está bom, de outra forma não consigo dormir de tanta insegurança. Não aceito perder. Sou irritado. Arrogante. Poderia continuar por mais duas páginas, mas acho que você já entendeu.

A psicóloga Claudia Mayer escreveu em Lob der Liige (Elogio à mentira) que, em muitos momentos, seria muito melhor e mais fácil não dizer verdade. Em curto prazo, ela até pode ter razão. Mas o que resulta em longo prazo? Nada. Tudo fica cada vez pior. Ela quase não escreve como é mentir para si mesmo – e como as pessoas se sentem quando descobrem a verdade sobre si mesmas.

Dói.

Ao descobrir a mentira, tomamos consciência de que a verdade não é tão legal quanto havíamos pensado até o momento
.
Blog Widget by LinkWithin