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2015-05-11

Twisted [curta]

Uma festa. Rapaz avista moça. Outro rapaz avista a mesma moça. Os dois acabam numa "briga de galo", cada um tentando mostrar os seus dotes para conquistar a moça. Um plot simples, certo? Bem, adicione alguns balões na história, uma pitada de surrealismo, uma estética à lá Scott Pilgrim vs. The World e você terá Twisted, um curta de Stuart Bowen.

curta twisted by stuart bowen

Ganhador do terceiro lugar no Tropfest Australia, o "maior festival de curtas do mundo", Twisted nos traz um duelo de dois homens pelo coração de uma bela moça, usando balões. Balões, ou bexigas, daquelas que palhaços de festa costumam encher e torcer para criar animaizinhos. Só que o duelo vai escalando e os balões se transformam em verdadeiras armas de guerra. Cômico e surreal. Assistam:



A sinopse original do filme é "The Good, The Bad and The Inflatable" (O Bom, o Mau e o Inflável), numa referência ao clássico do faroeste espagueti Três Homens em Conflito, cujo nome em inglês é The Good, the Bad and the Ugly.

Dica via Short of the Week - Twisted by Stuart Bowen.

2014-02-22

Guilty - Culpado [curta]

Um homem acorda. Ao seu lado, uma mulher continua dormindo. Entretanto, ele vê que lhe aconteceu um pequeno acidente noturno, envolvendo urina e o seu lado da cama. Este é o início de Guilty (Culpado), um curta tragicômico dirigido e escrito por John Strong, feito para a revista Dazed & Confused.

Assista sem se preocupar com o idioma, pois o curta não tem diálogos (e mesmo assim ele consegue te comunicar tudo):


"Guilty" - Presented by Dazed and Confused from John Strong (not so strong) on Vimeo.

Dica via Short of the Week.

2013-09-24

Filme: Frances Ha

Uma comédia tragicômica de erros sobre amores e as dores daquela fase em que não se é um adulto, mas também já se deixou a adolescência (a fase que seria uma espécie de adolescência estendida). É essa a descrição sucinta de Frances Ha, que carrega o DNA até a última ponta dos cabelos dos filmes indie norte-americanos.

filme frances ha poster cartaz

Em Frances Ha temos a história de Frances (Greta Gerwig), mulher de vinte e tantos anos que parece mal ter saído da adolescência, em termos de maturidade (e não de aparência). Ela sonha em ser bailarina em um grupo de dança e enquanto isso não acontece, vive como uma dançarina substituta, ganhando pouco. Divide o apartamento com a melhor amiga Sophie (Mickey Sumner), formando, como ela mesmo diz, um casal lésbico que não transa mais. De fato, "dividir o apartamento" é uma descrição generosa, já que quem realmente paga o aluguel é Sophie, que trabalha numa editora. Quando Sophie anuncia que vai se mudar para outro apartamento e dividí-lo com outra colega, o mundo lúdico de Frances começa a desabar e os primeiros sinais da vida adulta de verdade começam a bater a sua porta.

filme frances ha mickey summer greta gerwig

Frances Ha é filmado em preto e branco. Segundo o diretor Noah Baumbach, o motivo era o de dar um ar saudosista ao filme. Infelizmente, essa decisão se mostra apenas um capricho do diretor, já que a fotografia em preto e branco, apesar de ser bem bonita (pelo menos para o meu gosto pessoal), não serve à trama. E se a fotografia em preto e branco naturalmente evoca um certo saudosismo de época, isso é destruído rapidamente ao vermos personagens em um contexto mais do que contemporâneo, com seus iPhones tocando.

filme frances ha greta gerwig

Co-escrito pelo diretor Baumbach e pela protagonista Greta Gerwig, a maior parte de Frances Ha me parece uma sitcom barata sobre o nada, ao estilo de Seinfeld, mas tirando toda a graça. Sim, porque as risadas provocadas pelo filme são quase em sua totalidade por vergonha alheia das situações que a protagonista passa, mas sem muito brilhantismo. Em grande parte da projeção o que vemos é basicamente a mesma coisa: Frances com algum problema, lidando da pior maneira possível, como se fosse uma pré-adolescente. Talvez a intenção tenha sido essa mesma, a de criticar essa geração de jovens adultos despreparados para o que o mundo lhes reserva, um fenômeno contemporâneo que assume diversas formas em diversas culturas, como os hikikomori no Japão ou os nem-nem no ocidente (jovens que nem trabalham, nem estudam).

Se foi essa a intenção, o resultado foi mais enfadonho do que qualquer outra coisa, já que foca muito nessas situações e pouco tempo reserva para o crescimento da personagem, que fica estagnada a maior parte do filme (e cujo crescimento no final não parece acontecer de maneira muito orgânica). A impressão que fica é que quase tudo o que vemos em Frances Ha é descartável e nada acrescenta à trama ou à personagem, como a (curtíssima) temporada que Frances passa na França ou mesmo grande parte das férias de fim de ano com sua família.

filme frances ha greta gerwig

Apesar dos grandes problemas, Frances Ha não é de todo ruim. Gerwig faz uma ótima atuação e é só por causa dela que o filme se torna minimamente assistível: sua personagem, apesar da infantilidade e falta de maturidade, é charmosa e além disso, consegue nos inspirar confiança de que nem toda esperança está perdida. Mesmo com suas loucuras e trapalhadas, conseguimos nos identificar um pouco com ela: afinal, a vida adulta não é nada fácil e quem não deixa escapar um pouco de infantilidade de vez em quando (como Frances faz ao mentir como forma de proteger o orgulho, por exemplo)?

Frances Ha tem alguns bons diálogos e boas cenas pontuais, como o arco do relacionamento de Frances e Sophie (o melhor do filme, que é deixado de lado por quase metade do filme no seu meio), especialmente numa das cenas finais, que evoca um diálogo sobre relacionamentos perfeitos feito num jantar anterior a ida à França, ou algumas das cenas iniciais, que mostram Frances correndo pelas ruas de Nova York. Infelizmente, o saldo do filme ainda é negativo. A falta de desenvolvimento da trama e da personagem, com situações descartáveis, deixa o ritmo lento e enfadonho. Uma pena, já que o filme toca em temas interessantes, como a adolescência estendida e os diferentes tipos de amores e relacionamentos. E nem todo o charme de Gerwig salva Frances Ha.

Trailer:



Para saber mais: crítica no AdoroCinema e no blog do Rubens Ewald Filho.

2013-09-19

Filme: Os Estagiários

Podendo ser definido como o maior product placement (ou merchandising) da história, ou mesmo a mais cara propaganda institucional já feita, o filme Os Estagiários (ou The Internship no original) realmente enaltece o Google, ou melhor, a sua imagem que o marketing nos passa. Mas além disso, Os Estagiários é também uma boa comédia. Ou, pelo menos, uma boa comédia geek/nerd.

filme os estagiários poster cartaz

Os Estagiários nos traz a dupla de atores/comediantes Vince Vaughn e Owen Wilson como Billy McMahon e Nick Campbell, respectivamente. Billy e Nick são dois vendedores, muito bons de papo, mas que passam longe da era digital (ou pós-digital como dizem alguns) em que vivemos. E o que eles vendem é um bom exemplo disso: relógios analógicos, num mundo em que (quase) todo mundo usa o celular para ver as horas. Quando a empresa em que trabalham fecha e os dois se vêem sem perspectivas de futuro, Billy, após ter a ideia de pesquisar (googlar) o próprio Google, descobre que esta é uma das melhores empresas para se trabalhar e tem a ideia: por que não tentar um cargo ali? Sendo uma das melhores empresas para se trabalhar, a disputa de vagas é acirradíssima, e a maneira que eles encontram é através do programa de estágios de verão. Neste programa, a dupla se juntará com outros estagiários em um grupo, para concorrer a uma vaga permanente de trabalho no final do programa.

filme os estagiários owen wilson vincent vaughn

A partir daí, temos um filme formulaico e cheio de clichês, do grupo de desajustados que se unem, que a princípio não vão um com a cara do outro, mas depois formam uma verdadeira equipe com amizade entre eles, que individualmente crescem e resolvem seus problemas, que têm que enfrentar um time rival com um líder escroto, e que no final triunfarão sobre todas as adversidades, conseguindo o objetivo. Spoiler? Não, clichê puro.

Entretanto, apesar desse enorme problema, Os Estagiários consegue ficar no saldo positivo. Isso porque algumas piadas funcionam realmente muito bem, mesmo que a sua essência explore um clichê. Por exemplo, quando o grupo se reúne para o primeiro desafio e Nick e Billy são enviados para encontrar um certo professor, as cenas são hilárias. Elas exploram o clichê da dupla de vendedores quarentões que não entende nada mais "descolado", mas o resultado é muito engraçado, além de fornecer referências culturais/pop bem bacanas. Referências, aliás, que permeiam todo o filme, desde algumas mais antigas (as de Flashdance chegam a cansar no final), até assuntos pop como Game of Thrones e Harry Potter (com uma partida muito tosca, mas divertida, de quadribol).

filme os estagiários

Muitas das referências e piadas, todavia, podem passar despercebidas, especialmente quando o assunto é mais nerd ou geek. A cena da entrevista de emprego via hangout é um exemplo disso. Admito que me senti solitário ao dar risada sozinho no cinema quando Billy diz que conhece C+ e só colocara o outro + no seu currículo por achar aquilo muito positivo, ou algo do gênero (C++ é uma linguagem de programação).

Os Estagiários também tem várias aparições de atores comediantes amigos da dupla de protagonistas, em pequenos papéis, como John Goodman, B.J. Novak e Will Ferrell. E falando em aparições, até mesmo Sergey Brin, um dos co-fundadores do Google, faz duas pequenas aparições no filme.

filme os estagiários

Com personagens clichê e unidimensionais (temos a garota nerd safada que na verdade nunca viveu nada e só sonha/imagina, o asiático pressionado pela mãe com sérios problemas freudianos, o garoto blasé que não tira os olhos do smartphone, o nerd tímido que gosta da mulher super gostosa, etc), Os Estagiários não oferece muita surpresa em termos dos arcos dramáticos dos personagens, sendo que a maioria dos problemas individuais se resolve numa ida agitada a uma boate (quem disse que álcool não resolve nada?). Até mesmo os personagens principais de Wilson e Vaughn não oferecem surpresa. De fato, eles parecem saídos diretamente dos outros filmes dos atores, sendo que a impressão é que estão ali se divertindo interpretando a si mesmos. Entretanto, a química entre os dois é boa o bastante para que isso seja o suficiente para algumas boas risadas.

E falando em personagens, não é possível deixar de falar de um: o próprio Google. Ou melhor, a sua imagem como empresa jovial e inovadora, que muda o mundo ajudando as pessoas. Se isso é ou não verdade (e eu não vou dizer que não, já que esse texto está justamente hospedado nos servidores do Google e eu não quero vê-lo apagado), não importa. No filme, é. E é uma de suas premissas básicas. E lembremos que mesmo se o googliness (ou googlicidade, não lembro como traduziram) não existe fora das telas, não estamos falando de um documentário, mas de uma comédia escrachada.

filme os estagiários rose byrne

Destaque ainda para a linda Rose Byrne como uma executiva do Google que é interessante romântico do personagem de Owen. Apesar do pouco tempo dos dois juntos, rola uma boa química, com uma cena especialmente engraçada num jantar romântico.

Enfim, eu me diverti bastante com Os Estagiários. Mesmo que em seu esqueleto hajam os clichês e as fórmulas mais do que batidas, entre elas há boas piadas, garantia de boas risadas. E mesmo que a dupla de protagonistas esteja mais uma vez interpretando a si mesmos, o carisma deles compensa e faz rir.

Trailer:



Para saber mais: críticas negativas no Omelete e no Cinema em Cena e uma positiva no AdoroCinema.

2012-12-05

Filme: E Agora, Aonde Vamos?

Pode parecer que o segundo filme de Nadine Labaki tenha pouco a ver com a sua estreia na direção, a dramédia romântica Caramelo. Entretanto, é possível ver muios pontos em comum com o novo E Agora, Aonde Vamos? (no original, Et maintenant on va où?), sobretudo no olhar sobre as mulheres libanesas em sua cultura.

filme e agora, aonde vamos? nadine labaki poster cartaz

E Agora, Aonde Vamos? nos traz a história de um pequeno vilarejo no Líbano, isolado por minas terrestres e acessível apenas por uma pequena passagem. Afastado, esse vilarejo se mantém praticamente alheio ao mundo exterior, a ponto de conseguirem ligar e assistir uma velha televisão ser tratado como um grande evento. Essa falta de contato com o exterior faz com que os homens do vilarejo ignorem os conflitos que aumentam no país por motivos religiosos, a tensão entre católicos e muçulmanos. E esta ignorância é tratada como uma bênção pelas mulheres, que, cansadas de verem seus filhos, maridos e irmãos mortos por uma luta basicamente inútil (como todo conflito religioso o é), fazem de tudo para que as notícias de fora não influenciem ainda mais os ânimos dentro da aldeia.

filme e agora, aonde vamos? nadine labaki

Esta é basicamente a trama de E Agora, Aonde Vamos?: a união das mulheres de um vilarejo que, independente da religião de cada uma, buscam manter a paz acalmando os afoitos e emocionais homens, que por qualquer motivo estão prontos para partir para a briga (escalando cada vez mais até as últimas consequências) usando a religião como desculpa. Neste sentido, é interessante ver como as figuras masculinas e femininas se apresentam trocadas em relação aos seus estereótipos, com as mulheres usando a razão e os homens, a emoção, o que prova que esse estereótipo de gênero é uma bobagem.

filme e agora, aonde vamos? nadine labaki

Assim como em Caramelo, a diretora Nadine Labaki (que também atua e co-escreve em ambas produções), procura um tom ameno para contar a sua história. Entretanto, em E Agora, Aonde Vamos? ela adota um tom ainda mais de fábula, o que já é notável nas primeiras cenas, em que um grupo de mulheres vestidas de preto, em luto, caminham em direção ao cemitério, e ensaiam uma coreografia. Há números musicais clássicos no filme, como o "sonho" entre Amale, católica, personagem de Nadine, com seu "par romântico" muçulmano (uma relação meio Romeu e Julieta que acaba sendo pouco explorada), ou então quando as mulheres se unem para fazer guloseimas "especialmente recheadas", cantando. Esses números musicais servem para dar um ar mais cômico e leve à trama, e inseridos de maneira orgânica (na forma do sonho, por exemplo), não incomodam como em filmes musicais em que os personagens do nada resolvem cantar e dançar.

filme e agora, aonde vamos? nadine labaki

Não pense, entretanto, que este filme é apenas comédia. Apesar do tom de fábula e por vezes caricato, o filme toca em pontos dramáticos bastante comoventes, sempre de maneira sensível, ainda que não fique pesado demais. A história da mãe de um dos garotos que percorre a trilha entre o vilarejo e a cidade grande realizando a única rota de comércio, por exemplo, é bem emocionante.

Apesar de todas as suas qualidades, incluindo aí o final absolutamente genial, a bela fotografia e as ótimas atuações, E Agora, Aonde Vamos? não é livre de pontos baixos. Sem uma linha dramática bem estabelecida do início ao fim, às vezes o filme parece episódico demais, além de subtramas pouco e/ou mal exploradas, como o já citado romance entre a católica e o muçulmano, ou mesmo a vinda de garotas de um clube de strip-tease, contratadas pelas mulheres para servir de distração para os homens e evitar um conflito.

filme e agora, aonde vamos? nadine labaki

Enfim, E Agora, Aonde Vamos? é um ótimo filme de uma diretora ainda iniciante, mas que desde o primeiro filme, consegue lançar um olhar sensível e leve sobre o mundo feminino de seu país, mesmo que em obras com temas bem diferentes. E a pergunta do título do filme, cujo sentido dentro da trama fecha a película, deixa um quê de final em aberto, mas também com um tom de esperança. Se devolvêssemos a pergunta à diretora, aonde vamos em seguida, não importa muito a resposta. Pois onde ela nos levar, deverá ser interessante.

Trailer:

2012-11-21

Filme: Histeria

"O que fazemos na vida ecoa na eternidade!", dizia Russel Crowe em Gladiador. Bem, os personagens do filme Histeria (no original Hysteria) poderiam adaptar a frase para "O que fizemos na vida, vibra na eternidade!". Isso porque o filme romanceia de maneira leve e divertida (e até meio caricata) a invenção do vibrador, o acessório erótico amigo número um das mulheres.

filme histeria poster cartaz maggie gyllenhaal hugh dancy

Histeria nos apresenta o doutor Mortimer Granville (Hugh Dancy), um jovem médico na era vitoriana em Londres, que não consegue se fixar em emprego algum em hospitais londrinos, por sempre bater de frente com os médicos mais velhos e seus chefes, que abominam as novidades da medicina que o jovem doutor prega (coisas como germes e assepsia). Desesperado por um emprego, ele acaba se tornando assistente do doutor Robert Dalrymple (Jonathan Pryce), cuja especialidade são mulheres. Mais precisamente, mulheres que sofrem da chamada histeria feminina.

filme histeria maggie gyllenhaal hugh dancy

Parêntese explicando algumas coisas (que podem ser considerados potenciais spoilers dos momentos cômicos). Se não quiser ler, pule o parágrafo abaixo:

Esta pseudo-doença, a histeria feminina, era usada como um diagnóstico genérico para várias condições femininas, geralmente com fundo psicológico, e no filme, sempre ligadas a falta da satisfação do desejo sexual, seja pela falta de um cônjuge ou pela inabilidade deste nas artes românticas, como frisam os personagens algumas vezes durante a projeção. O tratamento médico para tratar as "mulheres histéricas" era a chamada "massagem pélvica", em que os médicos estimulavam manualmente as mulheres (hoje conhecido como masturbação feminina, mas na época, era apenas uma singela e inocente massagem) até que elas alcançassem o "paroxismo histérico", hoje conhecido como o famoso orgasmo feminino, mas que na época era "medicamente" apenas paroxismo, pois "sabia-se" que as mulheres apenas sentiam prazer com penetração. Só pela descrição textual nota-se que é algo engraçado hoje em dia (zombar do "conhecimento científico" do passado geralmente é), e as situações envolvidas nisso rendem as melhores risadas do filme.

filme histeria jonathan price felicity jones hugh dancy

Voltando a trama, Mortimer Granville se instala na casa do doutor Dalrymple, onde conhece as duas filhas, a doce e "perfeita" Emily (Felicity Jones) e a impetuosa e com ideias avançadas e modernas Charlotte (Maggie Gyllenhaal). A princípio Mortimer se encanta por Emily, mas aos poucos o espírito de Charlotte começa a fazer efeito nele. Enfim, como comédia romântica e os nomes no cartaz sugerem, você sabe que os dois no final vão ficar juntos.

Histeria tem, na verdade, duas tramas paralelas. A primeira e mais engraçada é a invenção do vibrador (que é um tanto romanceada segundo minhas pesquisa wikipedianas - ver principalmente o livro The Technology of Orgasm: "Hysteria," the Vibrator, and Women's Sexual Satisfaction de Rachel P. Maines -, já que o doutor Joseph Mortimer Granville, detentor da patente do primeiro vibrador elétrico, teria inventado o equipamento para outros fins e outros médicos é que acabaram usando a máquina para fins "massagísticos pélvicos"). A segunda trama é a obrigatória história de amor entre os personagens, que acontece de acordo com os clichês do gênero: no começo os personagens não se bicam, mas no final, se descobrem apaixonados.

filme histeria vibrador

Essa parte infelizmente é a mais fraca do filme, com o desenvolvimento dos sentimentos dos personagens um tanto fraco. O que eclipsa o romance é o discurso moderno proferido pela personagem de Maggie Gyllenhaal, que trabalha numa espécie de centro comunitário cuidando de crianças e mulheres, versando sobre suporte aos mais desafortunados e principalmente os direitos das mulheres (ao voto, ao corpo e tudo o mais que hoje as feministas e qualquer um que viva no século atual sabem de cor e salteado). De fato, tirando a parte mais cômica envolvendo o vibrador, é Charlotte que consegue levar o filme adiante, com sua paixão (e atitudes altruístas) pelas mulheres, seus direitos e problemas.

filme histeria maggie gyllenhaal hugh dancy

Além de uma boa direção de arte retratando a Londres da época, Histeria tem como grande mérito as atuações. Maggie Gyllenhaal, como sempre, é sensacional (como fã dela, talvez eu seja suspeito pra falar isso, mas é inegável que a atuação da atriz carrega boa parte do filme). Hugh Dancy consegue segurar como co-protagonista, mesmo seu personagem sendo claramente inferior (especialmente no sentido de se sentir inseguro) diante às mulheres no filme. Os coadjuvantes também estão bem, com destaque para Jonathan Pryce e Rupert Everett como amigo de Mortimer, apesar deste estar irreconhecível (quem lembra dele em O Casamento do Meu Melhor Amigo irá tomar um susto).

Enfim, Histeria é um filme simpático e leve, apesar dos temas sexuais (boa parte disso se deve ao tom caricato dos personagens, tendendo visivelmente para a comédia). É divertido, mas não foge das clássicas fórmulas de comédias românticas. Não é exatamente um filme vibrante, mas, relaxando, é bem divertido.

Trailer (que tira muito da graça do filme, esteja avisado):



Para saber mais: crítica no Omelete.

2012-11-13

Filme: 7 Dias em Havana

7 dias, 7 histórias, 7 diretores e uma cidade quase mítica no imaginário, capital de Cuba e que reúne todos os estereótipos (verdadeiros ou não) associados ao país: Havana. Esses são os ingredientes básicos do filme 7 Dias em Havana (ou 7 días en La Habana, no original), que de segunda a domingo, nos brinda com sete histórias, uma para cada dia da semana (e cada segmento dirigido por um diretor diferente).

filme 7 Dias em Havana poster cartaz

Ao contrário do que geralmente acontece com filmes com muitas histórias, em que cada uma acaba se cruzando com outra, neste 7 Dias em Havana elas quase não se cruzam, sobrando apenas uma referência aqui ou ali (como o acontecimento do festival de cinema, ou a personagem principal de uma história aparecendo em outra). Se na essência são sete curtas passados na mesma cidade, é visível que há uma ligação entre elas: a cidade/país, com seus costumes típicos e características marcantes, sobretudo a religiosidade, sensualidade, musicalidade e cultura exótica. Além disso, no aspecto técnico, apesar de variar, a fotografia é quase sempre uniforme: amarelada, colorida e com forte contraste, assim como imagina-se Cuba.

filme 7 Dias em Havana

Os dois curtas mais fracos, na minha opinião, são o segundo (Jam Session, terça-feira) que mostra um diretor sérvio indo a Cuba para ser homenageado num festival de cinema, enquanto passa por uma crise no casamento e é "salvo" pela música cubana (a história é até simpática, e termina com uma bela cena, mas é bem fraco no geral). O segundo ponto fraco é a quinta história (Ritual, sexta-feira), que praticamente sem diálogos, mostra uma jovem que, depois de descoberta dormindo com outra moça, é levada pelos pais a um ritual de exorcismo para "curar" sua homossexualidade. É uma visão sobre a cultura e a religiosidade regional, mas que é bem melhor explorada (e com muito mais bom humor) na última história (A Fonte, domingo), sobre o esforço coletivo para fazer uma fonte para uma Virgem Maria chamada frequentemente por um nome orixá. Além da mistura religiosa, é interessante notar como o povo cubano sobrevive, no melhor estilo "jeitinho brasileiro".

filme 7 Dias em Havana

Tirando as duas histórias mais fracas, acima citadas, todas as outras histórias de 7 Dias em Havana são ótimas. A primeira história (Yuma, segunda-feira), de um jovem americano que aproveita o dia para conhecer Havana e acaba levando uma surpresa para o seu quarto de hotel (que é previsível, mas ainda assim ótima), mostra bastante o lado sensual/sexual visto por um turista, além de mostrar um pouco mais sobre a cultura local do ponto de vista estrangeiro. Mas sensual mesmo é a terceira história (A Tentação de Cecília, quarta-feira), que mostra a personagem-título pendendo entre amor e paixão, família e carreira, além de citar a busca por melhores condições de vida.

filme 7 Dias em Havana

O tema busca por uma vida melhor, basicamente longe do regime cubano (significando na maioria dos casos, uma travessia até Miami), voltará a tona no penúltimo conto (Doce Amargo, sábado), sobre uma família que produz doces para complementar a renda. Além do tema financeiro, esta história mostra de maneira muito bem humorada as condições de vida em Havana, como a dificuldade da personagem em arranjar ovos depois que uma queda de energia atrapalha a primeira leva de doces. E, por fim, temos a história de quinta-feira, Diário de um Principiante, que mostra de maneira sensível e sutilmente cômica, a espera de um visitante para falar com "o Comandante". Enquanto espera Fidel terminar um de seus famosos longos discursos, o visitante passeia por Havana em silêncio, vendo a vida passar lentamente na cidade e nos seus habitantes, reparando na dualidade entre o regime (comunismo) e a abertura capitalista (com os turistas). Com um ritmo lento e praticamente sem diálogos, é a obra mais intimista e a que eu mais apreciei.

Enfim, 7 Dias em Havana, apesar de seus pontos baixos, nos faz viajar em duas horas, por uma semana na capital cubana. Uma viagem que, apesar dos exageros e romantismos associados à imagem que temos de Havana, é divertida e vale a pena.

Trailer:



Para saber mais: ótimo texto no Omelete.

2012-02-18

Filme: Os Descendentes

Às vezes, (ou melhor, quase sempre) na ânsia de expor muitas boas ideias, o resultado é que cada ideia recebe um tratamento superficial, não se conectam direito e se obtém um produto final mediano. Essa é a impressão ao assistir Os Descendentes (The Descendants no original), um drama meio indie com toques de comédia, que ganhou bastante atenção pelas suas indicações ao Oscar, mas que considero apenas mediano.

filme os descendentes poster cartaz george clooney

Em Os Descendentes, George Clooney é Matt King, um advogado que mora no Havaí. Mas ele não é um advogado qualquer, já que ele e seus inúmeros primos herdaram de seus antepassados uma boa riqueza, incluindo um imenso lote de terra inexplorada e paradisíaca no Havaí, que potencialmente vale bilhões, se vendida. Porém, você não diz isso a primeira vista de Matt, vestido bermudas e uma camisa folgada. É como ele mesmo diz a certa altura no filme: no Havaí, os caras mais ricos se parecem com um desocupado qualquer. Entretanto, Matt segue uma linha conservadora quando se trata de dinheiro, vivendo apenas de seus ganhos como advogado. E o trabalho é a única coisa com a qual ele está realmente comprometido, no início do filme. Mas tendo sua esposa sofrido um acidente e estando em coma, Matt tem que retomar seus laços com suas filhas, a pequena Scottie (Amara Miller, que é responsável pelos momentos mais "fofos" do filme) e a adolescente Alexandra (Shailene Woodley), que traz a reboque o amigo idiota Sid (Nick Krause). E tudo se complica ainda mais quando Matt descobre que sua mulher estava tendo um caso.

filme os descendentes george clooney

Os Descendentes tem bons momentos, como quando Matt vai buscar sua filha em outra ilha do arquipélago e compara sua família com o Havaí: cada um isolado, como uma ilha, mas ainda assim, formando o arquipélago. Ou quando os personagens dão uma olhada no vasto terreno verdejante que herdaram e Alexandra comenta de suas lembranças acampando com a mãe ali, quando alguém lembra que aquilo ali irá desaparecer pra dar lugar a condomínios ou resorts, e a jovem Scottie reclama que ela ainda não teve a sua chance. Ou, na minha opinião, a mensagem mais acentuada no filme, que é: você pode morar num paraíso (o Havaí) e mesmo assim não vai escapar dos pequenos dramas humanos, sejam aqueles emocionais (como toda a história que o personagem de Matt vive), sejam os do cotidiano (como a loucura do trânsito, que é mostrado enquanto temos a narração de Matt falando sobre isso). (Como morador de um lugar que muitos consideram o paraíso na Terra (Florianópolis), eu assino embaixo.) O diretor Alexander Payne passa essa mensagem diversas vezes, seja ao mostrar Matt chorando ao lado de uma linda fonte natural, seja em planos de interlúdios do drama, ao usar cenários e paisagens naturais deslumbrantes do Havaí. E diga-se de passagem, a fotografia do filme é bem bonita, mas chega uma hora que cansa, assim como ver filmes ou panfletos turísticos enjoam (a não ser que você esteja planejando viajar para aquele lugar logo).

filme os descendentes george clooney

Entretanto, Os Descendentes tem o grande defeito de pulverizar muito a história, dando foco a personagens e subtraminhas que nada acrescentam. O personagem Sid é o exemplo mais visível disso, mas também temos os pais da mulher de Matt, com o pai durão e a mãe com Alzheimer, que pouco acrescentam. E por mais que eu adore ver a bela Judie Greer, a sua personagem como esposa do amante da mulher de Matt (!) também é desnecessária. A decisão de Matt, no final, também é mal trabalhada, parecendo que foi tomada meio às pressas e não sendo desenvolvida ao longo do filme. Destaque bom mesmo vai para as atuações, tanto de George Clooney, indicado ao Oscar (merecidamente), quanto de Shailene Woodley, a filha adolescente.

filme os descendentes george clooney

Enfim, Os Descendentes é um drama bacana, típico de filmes indie americanos, mas que não vejo como um grande e memorável filme. Está na média, e isso por si só não é ruim. Só não é excepcional. E admito, eu não iria escrever esse texto nem falar sobre esse filme. Mas em homenagem aos antepassados dos quais os personagens são descendentes, resolvi escrever. Afinal, como não citar os reis Kamehamehas? ;)

Trailer:



Para saber mais: crítica no Cinema em Cena e no Omelete.

2012-01-05

Filme: Compramos um Zoológico

Quando vi o material de divulgação (trailer, poster) de Compramos um Zoológico (We Bought a Zoo, no original), achei que seria mais um filme feel good medíocre de fim de ano. Mesmo assim, fui assisti-lo (afinal, tinha a Scarlett Johansson no elenco). Saí da sessão com uma grata surpresa: sim, é um filme feel good, mas um dos bons. Dos ótimos, aliás.

filme compramos um zoológico matt damon scarlett johansson poster cartaz

Compramos um Zoológico traz a história baseada em fatos reais de Benjamin Mee (Matt Damon), um repórter aventureiro que perdeu a esposa e agora tem dois filhos para criar, o pré-adolescente Dylan (Colin Ford) e a pequena e meiga Rosie (Maggie Elizabeth Jones). Ainda em um processo de luto, Benjamin não consegue superar a morte da mulher, não conseguindo nem mesmo frequentar os mesmos restaurantes em que iam. Procurando por uma nova casa para conseguir ter um novo começo, Benjamin encontra uma que parece ideal: grande, afastada da agitação da cidade, com um imenso quintal (com o terreno sendo medido em hectares!) e um preço bem baixo. Mas com um grande porém: o terreno na verdade é um zoológico, e a compra da casa implica na compra do pacote inteiro, leões, zebras e tigres inclusos.

Após ver a filha Rosie feliz brincando com alguns animais, Benjamin não resiste e decide comprar a casa e tudo o mais. Entretanto, manter o zoológico não será fácil, mas ele contará com a ajuda de fieis empregados que já trabalhavam lá, destacando a jovem tratadora de animais Kelly Foster (Scarlett Johansson).

filme compramos um zoológico matt damon scarlett johansson

Se formos julgar apenas pelo poster e trailer, Compramos um Zoológico pode dar a impressão de ser mais uma comédia bobinha que se apoia no elenco animal (os bichos do zoológico, e não o elenco humano, que de tão bom, poderia ser também descrito como "animal", no bom sentido), para ter graça. O filme é, acima de tudo, sobre pessoas, o que é bem evidente e bem enfatizado, como por exemplo, logo no começo, pelo irmão de Benjamnin (interpretado por Thomas Haden Church) que reforça ao irmão enlutado como é importante ele ver pessoas. (Possível SPOILER até o final deste parágrafo!) E essa ênfase nos seres humanos é reforçada no final, quando a jovem Lily (Elle Fanning) pergunta a Kelly, sua tia, que se ela tivesse que escolher entre humanos e animais, qual ela escolheria. E Lilly, diante do silêncio de Kelly, que somente olha com carinho para a família Mee, completa dizendo algo como "Eu também. Pessoas." E então sorri. (Fim do Spoiler.)

filme compramos um zoológico matt damon scarlett johansson

Com um ótimo roteiro, baseado no livro de Benjamin Mee e escrito por Aline Brosh McKenna e pelo próprio diretor Cameron Crowe, Compramos um Zoológico equilibra bem momentos cômicos com o drama pessoal de Benjamin e Dylan, tendendo mais para o cômico, não deixando assim o clima muito pesado em nenhum momento (note até como o "vilão" do filme, o inspetor que dará a licença de funcionamento para o zoológico, é caricato ao extremo).

filme compramos um zoológico matt damon scarlett johansson

Outro ponto a se ressaltar no texto do filme são as boas frases, que usadas em momentos cirurgicamente calculados no filme, passam aquela sensação inspiradora, como quando Benjamin diz para os empregados do parque, que estão com moral baixa, que ele "sempre foi um observador e escritor, mas que aquela era a sua primeira aventura", ou então quando ele ensina ao filho a técnica para vencer o medo de falar com mulheres: "só é preciso 20 segundos de coragem insana, e algo bom vai sair disso". (Possível SPOILER até o final deste parágrafo!) Outro exemplo de como o texto me agradou são as suas "rimas", que mostram como uma mesma frase se encaixa no começo e no fim do filme de maneira que "ligam" as cenas, como a própria frase dos 20 segundos de coragem insana, que também é mostrada na última cena do filme, quando Benjamin conta para os filhos como conhecera a mãe deles, ou como quando ele logo no começo do filme responde a Kelly, que o indaga por qual motivo comprara um zoológico tão cheio de problemas, e ele responde 'Por que não?', e essa é a mesma frase que a mulher dele respondera a cantada que ele usara puxar assunto com ela. (Fim do Spoiler.)

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Com ótimas atuações, o grande destaque de Compramos um Zoológico vai mesmo para a pequena Maggie Elizabeth Jones, que interpreta a filha Rosie. Ela é a dona das melhores piadas ("O que tem o coelhinho da Páscoa?") e a sua presença meiga rouba a cena quando ela aparece. Matt Damon também está ótimo e Scarlett Johansson continua linda como sempre, mas entrega uma ótima atuação sem apelar para a sua presença femme fatale. Destaque também para o elenco de animais, que não fazem feio, aparecendo em cena bem treinados, mesmo não tendo tanto destaque como em um Dr. Dolittle, por exemplo.

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Com uma boa fotografia que ressalta a luz natural em diversos e importantes momentos (reparem na hora em que Benjamin decide comprar o zoológico e o efeito da luz do sol nele), Compramos um Zoológico é uma comédia familiar, mas que não agride o cérebro. Ainda é um filme e, portanto, ficção (mesmo que tenha sido baseado em fatos reais, pois a palavra importante é BASEADO), mas tem boas sacadas e consegue nos fazer simpatizar com seus personagens. E, como estes acabam todos bem e felizes, ficamos felizes junto. Essa é, afinal, a razão de ser de um filme feel good. Sair da sessão se sentindo bem. E mesmo que a realidade não seja tão boa conosco como a ficção (e geralmente não é), se o filme conseguir te inspirar algo, já é válido. E este Compramos um Zoológico tem tudo para conseguir.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Omelete.

2012-01-04

Filme: Um Dia

Eu acho que a maioria já deve ter conhecido (ou mesmo ter feito parte de) um casal que era notadamente feito pra ficar junto, mas cujas duas pessoas ficavam enrolando, seja se mantendo na zona da amizade, seja por outro motivo qualquer, até que uma hora o casal se resolvia e você suspirava um 'ufa, até que enfim'. Se você não tem ou teve um casal conhecido assim, pode ver o filme Um Dia (One Day no original) e saberá do que estou falando. E poderá até derramar algumas lágrimas no final, se você for mais sensível.

filme um dia anne hathaway jim sturgess poster cartaz

Um Dia é uma adaptação de um livro de David Nicholls (adaptação esta feita pelo próprio autor, que assina o roteiro do filme). Na história, acompanhamos o casal Emma (Anne Hathaway) e Dexter (Jim Sturgess), que se conhecem no dia 15 de julho de 1988, depois de uma festa de formatura. Depois de irem embora juntos para a casa de Emma, eles passam a noite dormindo juntos (e dormindo). A partir daí, acompanhamos a vida dos dois sempre no dia de São Swithin (15 de julho), ao longo de mais de vinte anos, onde vemos a amizade surgida entre eles, seus romances com outras pessoas, seus dramas pessoais e tudo o mais que a vida reserva. (E será que eles ficam juntos no final? Seria spoiler se eu contasse se eles ficam juntos ou não?)

filme um dia anne hathaway jim sturgess

É clichê dizer que o tempo passa bem depressa e que não vemos direito o ano passar. Clichê ou não, o fato é que pra maioria das pessoas, um ano não é tããão diferente assim do outro, sendo que alguns pequenos detalhes mudam e coisas se acumulam. Nesse sentido, a ideia (e execução) de Um Dia é genial, mostrando o desenvolvimento da vida dos personagens em apenas um momento, um dia do ano, o filme confere um ritmo honesto, realista e diferenciado à vida deles. Visualmente, isso pode ser notado no visual dos personagens, em especial, na maquiagem. Sutil, ela não mostra grandes diferenças entre um ano e outro, então até passa-se a impressão de que nada mudou nos personagens, mas então você se dá conta de que eles estão bem diferentes e que a maquiagem, alterando o visual gradativamente, teve um efeito acumulativo notável. Essa mudança do visual é bem visível no final do filme, que termina com um flashback, e então é notável a maquiagem, especialmente no personagem de Sturgess.

E falando em clichês, é interessante notar o caminho que os dois personagens de Um Dia tomam, de maneira inversa. Enquanto Dexter começa meteoricamente a carreira, Emma sofre servindo comida mexicana. E, no futuro, a situação se inverte, com o sucesso de Emma e o fundo do poço de Dexter, até que ela o salve.

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Ainda no quesito clichê, o último terço do filme é recheado deles. Desde o clichê do que acontece ao prosseguimento da cena inicial (o filme inicia com uma rápida cena em 2006, volta para 1988 e vai contando a história até voltar a 2006 e além), que apesar de impactante, não deixa de ser bem previsível, até o clichê de 2003, quando Emma larga o namorado boa pinta tocador de piano pra correr atrás de Dexter, que meio que havia desistido, e sai correndo até o encontrar, o abraça e o plano termina com um beijo (sim, eles ficam juntos, se você achou que não, é porque realmente nunca viu filmes de romance ou leu livros do gênero, e não me culpe pelo spoiler mais do que óbvio). Apesar dos vários clichês, isso realmente acaba não importando muito para a experiência do filme no geral, pois vários deles são até mesmo esperados (e se até Woody Allen disse que às vezes um clichê é a maior maneira de se expressar um ponto de vista, quem sou eu pra dizer que não?).

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Com atuações ótimas de Sturgess e Hathaway (mesmo esta repetindo mais uma vez o seu estereótipo de mulher bonita escondida atrás de uma camada de "feiúra" que depois desabrocha), Um Dia tem ainda um bom elenco de coadjuvantes, com destaque para Rafe Spall como Ian, um comediante sem graça que se engraça com Emma. Apesar disso, a maior parte da comédia vem mesmo de Hathaway, com os comentários sarcásticos e engraçados de Emma, como por exemplo, quando Emma admite ter tido uma queda por Dexter, e este pergunta o que aconteceu, ela responde algo como "Fui te conhecendo melhor. Você me curou de você", ou quando ela dá as boas vindas a um funcionário novo no restaurante mexicano em que trabalha, "Bem-vindo ao cemitério das ambições."

Um Dia é um bom filme. Dirigido por Lone Scherfig, filme mostra uma ótima trilha sonora que acompanha muito bem o desenvolvimento dos personagens e o clima de cada época. O texto também é bom, e na maior parte do tempo, flui ótimo, equilibrando alívios cômicos com algum drama mais pesado (apesar de destes serem pouco desenvolvidos, o que já seria esperado devido à estrutura narrativa presa a um dia do ano, por vez). E é sempre interessante ver alguma obra enfocando esse período de amadurecimento do jovem adulto, depois da formatura, em que ainda existe alguns (vários) resquícios da adolescência, mas a realidade começa a apertar.

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Um Dia é um filme que fala de amor e de relacionamentos através dos anos. É um filme romântico por natureza, e apesar de se arrastar um pouco no final dos anos 90 (ninguém tem a vida toda atribulada ou interessante todo o tempo, afinal), entrega um bom produto final. O final do filme, aliás, foi meticulosamente calculado para fazer com que as vendas de lenço de papel aumentem. É de dar nó na garganta. Enfim, Um Dia, o filme, pode realmente não ser o filme romântico da minha vida. Mas, assim como Emma diz em certa parte do filme, "o que quer que aconteça amanhã, tivemos hoje", pelo menos tivemos um bom momento naquelas quase duas horas de imersão na vida deste casal, desconhecido a princípio, mas que com o passar dos dias dos anos, passamos a conhecer e até a gostar deles.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Cinema em Cena.

2011-12-21

Filme: Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Digital

O filme Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Digital (ou simplesmente Medianeras no original) leva o nome da capital argentina no subtítulo, mas poderia se passar em qualquer cidade grande, sem grandes perdas. O filme argentino é uma comédia romântica com toques de drama e de filosofia (em alguns momentos, batida, mas interessante no geral), que escapa do estereótipo já desgastado de comédias românticas, sobretudo as americanas. É um filme leve e divertidíssimo, que nem por isso, agride a inteligência de um espectador mais crítico.

filme medianeras - buenos aires na era do amor digital poster cartaz

Medianeras nos traz a história de Martín (Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala), que moram em quitinetes em prédios quase vizinhos, acabam passando um pelo outro na rua, mas sem nunca se notarem. Martín é designer de sites, sofre de fobias (e se trata com um psiquiatra), é meio isolado, vive com um cachorro (deixado para trás pela ex-namorada) e é nerd. Muitas, muitas referências nerds espalhadas, desde o papel de parede do computador (com o Astro Boy), até outras mais escancaradas, por exemplo a Star Wars, como a brincadeira com um sabre de luz e um cartaz com um "que a força esteja com você" (genial e ironicamente, enfocada quando acontece um apagão). Mariana se formou como arquiteta, mas trabalha decorando vitrines de lojas de roupas. Recém-saída de um relacionamento, ela ainda está aprendendo a passar o dia sozinha, como ela mesma diz em certa parte do filme. Entretanto, se sente solitária, chegando a usar um manequim para apaziguar a carência (e esse uso se faz tanto no sentimental - ela deixa escrito um 'como foi o seu dia' no manequim - quanto em outros sentidos, numa cena que é tragicômica).

filme medianeras - buenos aires na era do amor digital Pilar López de Ayala Javier Drolas

Sendo uma comédia romântica, não é preciso enfatizar que Martín e Mariana ficarão juntos no final, e que, como filme leve e romântico, os dois foram feitos um para o outro, algo que o diretor e roteirista Gustavo Taretto mostra ora de maneira escancarada (como quando os dois se cruzam e é desenhado um coração formado pelos dois, ou quando Mariana filosofa que ela imagina que suas vitrines sejam uma extensão, ou parte, dela, e que se alguém para e olha interessado para a vitrine, de certa maneira está olhando para ela, e logo depois que ela fala isso, Martin passa em frente e se detém para olhar interessado a vitrine), ora de maneira mais sutil, especialmente quando a ótima montagem mostra cenas de um e de outro quase que se complementando.

filme medianeras - buenos aires na era do amor digital Pilar López de Ayala Javier Drolas

É interessante notar que Medianeras não faz parte daquele imenso grupo de comédias românticas que seguem o padrão: "mocinho conhece mocinha, acontecem confusões e piadinhas, algo ameaça o casal de ficar junto, mas no final, o amor prevalece". Sim, em Medianeras o amor também prevalece no final, mas as jornadas dos dois personagens só se interpõem no final do filme, algo que meio que me lembrou o clássico romântico-para-mulheres (e que eu também gosto, afinal, tem Tom Hanks e Meg Ryan), Sintonia de Amor (ou Sleepless in Seattle), cujo plano em que os dois realmente contracenam é praticamente o clímax do filme. Medianeras não é tão radical assim, mas o foco de boa parte do filme é nas trajetórias individuais de cada personagem: encontros e desencontros amorosos, a solidão, a cidade e eles mesmos.

filme medianeras - buenos aires na era do amor digital Pilar López de Ayala Javier Drolas

As Medianeras do título são as laterais dos prédios em Buenos Aires, que segundo a legislação local, não poderiam ter janelas. Ou seja, janelas, só na parte da frente ou na de trás dos prédios, o que deixa alguns moradores um tanto quanto sufocados. E esse sufoco é o que dita (metaforicamente) a vida de ambos os personagens, até que cada um deles resolve abrir uma janela por conta própria (e que rende uma cena ótima, devido ao posicionamento das janelas, bem em espaços publicitários, indicando uma "mensagem do destino", por assim dizer). Ainda nesse sentido, vale destacar também a performance dos dois atores principais, Javier Drolas e Pilar López de Ayala, que aparentam estar muito a vontade nos seus papéis, alternando os momentos das pequenas maluquices (que cada um de nós também tem e que sempre rendem momentos engraçados), com os momentos mais sufocantes (em que o drama é maior).

Com uma bela fotografia que retrata uma Buenos Aires cheia de contradições (como no início do filme, em que edifícios de diferentes estilos são mostrados lado a lado, como o moderno com o clássico, ou o grande com o pequeno), é inegável o papel que a arquitetura tem em Medianeras (chegando ao ponto de Martin, no início do filme, em seu discurso filosófico-depressivo culpar as construções pequenas e abafadas pelos seus males, ou então o fato de Mariana ser arquiteta).

filme medianeras - buenos aires na era do amor digital Pilar López de Ayala Javier Drolas

Com um texto leve, divertido, mas também intelectualmente interessante, Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Digital consegue ser sério sem ser sisudo, e engraçado sem ser bobo. Não se aprofunda realmente em assuntos espinhosos, como a crítica ao mundo moderno (e as relações cada vez mais virtuais e virtualizadas) ou uma análise da solidão nos centros urbanos, ou ainda uma crítica à urbanização sem controle, mas mesmo assim, acha espaço para encaixar cada um desses assuntos organicamente na narrativa, seja falando de como a cidade deu as costas ao seu rio, seja dizendo que encontros são como lanches de fast-food (ou seja, são melhores nas fotos), seja mostrando Mariana apagando fotos do passado e desejando que pessoas funcionassem tão bem quanto computadores (algo que me remete a Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças). Isso pode até ser usado para criticar Medianeras, essa falta de aprofundamento em algumas questões. Entretanto, vejo isso como um bônus, pois o que realmente importa, ou seja, os personagens e seus conflitos, estão bem caracterizados e desenvolvidos.

filme medianeras - buenos aires na era do amor digital Pilar López de Ayala Javier Drolas

Enfim, Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Digital é um excelente filme. Aliás, mais um ótimo exemplar vindo dos nossos vizinhos da América do Sul (e que desta vez não tem o excelente ator Ricardo Darín, figura tarimbada dos sucessos de lá). Medianeras consegue reunir drama, comédia e romance (e com toques nerd moderninhos, ainda por cima), numa mistura que dá certo e que diverte e emociona. Recomendadíssimo. Assista e quem sabe, não acaba encontrando o seu Wally perdido na cidade?

Trailer:



P.S. Destaque ainda para duas ótimas canções - americanas - que fazem parte de Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Digital. A primeira, True Love Will Find You in the End é a que está no trailer acima. E a segunda é a de um vídeo que Mariana e Martin fizeram (que rola nos créditos, mas que como você sabe que os dois terminam juntos, não dá pra dizer que é spoiler), que mostra os dois juntos fazendo um lip dub de Ain't no Mountain High Enough. Veja neste link. (Se o usuário do youtube fosse o mesmo que aparece no filme, seria um epic win pro filme.)

P.S.2 Que linda essa Pilar López de Ayala, que interpreta a Mariana, hein?

2011-12-15

Filme: Triângulo Amoroso

Se fôssemos analisar os relacionamentos românticos sob uma ótica da geometria (como neste excelente gráfico da geometria da infidelidade), o filme Triângulo Amoroso (ou apenas 3 ou Drei, no original) seria um triângulo equilátero. Se você fugiu das aulas de matemática, um triângulo equilátero é aquele que tem os três lados iguais. E, de certa maneira, essa metáfora se encaixa bem ao analisarmos os três personagens principais deste filme.

filme triângulo amoroso drei poster cartaz

A história de Triângulo Amoroso começa com o casal formado por Hanna (Sophie Rois) e Simon (Sebastian Schipper), um casal de meia idade que vive junto, mas que ainda não é oficialmente casado. Vivendo juntos há bastante tempo (eles comemoram o aniversário de 20 anos juntos, em certo ponto do filme), numa Alemanha contemporânea, mesmo que eles ainda se gostem, é notável o tédio que se instala entre eles. E essa morosidade inclusive se reflete no sexo, como bem mostra a cena em que Simon simula que havia gozado (sim, com camisinha, homem também consegue mentir nessa hora, jogando saliva na camisinha).

filme triângulo amoroso drei

É quando surge Adam (Devid Striesow), que se envolve com Hanna. Sendo claramente bissexual (ponto que é reforçado pela presença, no filme, da ex-mulher e de um caso com um aluno de seu instituto), Adam por coincidência acaba se envolvendo também com Simon, sem saber que os dois são casados. E claro, o casal também esconde a infidelidade mútua. A partir dessa premissa, o filme se desenvolve, focando mais nas interações de seus personagens do que numa intrincada história em si.

filme triângulo amoroso drei

De fato, em termos de história, duas cenas iniciais de Triângulo Amoroso já resumem toda ela. Na primeira, que também é a que consta no trailer, ouvimos um personagem (que descobrimos ser Simon no filme) recitando fases de um relacionamento enquanto acompanhamos correndo duas linhas ou cabos de energia/comunicação ao céu, com estas linhas se cruzando, se aproximando ou se separando, ou ainda acompanhadas de mais uma outra linha enquanto o personagem descreve situações que podem aproximar ou separar o casal. É um plano super criativo e até mesmo poético. De fato, é o meu preferido do filme. De certa forma, essa cena é a metáfora do relacionamento de Hanna e Simon até o momento em que o filme começa, que chegara num ponto em que ambos os personagens se encontram vazios, meio mortos (e a vida volta a eles depois que cada um começa o caso com Adam, fato que é exposto quando os dois se encontram na porta de casa, ambos depois de terem passado algum tempo com o amante no dia, e se vêem como outros, mais radiantes, viçosos, cheios de vida, e acabam transando cheios de vitalidade e tesão).

filme triângulo amoroso drei

A segunda cena inicial, e que praticamente resume todo o filme, é um espetáculo de dança. De fato, a cena não se encaixa na história (não é uma peça que os personagens estejam assistindo, por exemplo), apenas serve como um recurso simbólico. A comparação da dança com relacionamentos (que já é óbvia do ponto de vista sexual, uma vez que o que é a dança, senão um ritual de pré-acasalamento "mais evoluído"?) basicamente conta a história do filme: há um casal dançando, quando chega um outro bailarino. Este dança com um, depois com outro e depois com os dois ao mesmo tempo.

Apostando num ritmo suave, o diretor Tom Tykwer foca no desenvolvimento dos seus personagens, um de cada vez. Primeiro conhecemos mais Hanna (e seus delírios sexuais durante uma palestra chata), depois Simon (e o drama de sua mãe e a sua própria doença), e enfim, Adam (que tem um filho e leva uma vida promíscua). Não é no drama anterior de cada personagem em si que leva o foco, mas nas relações que se constroem entre eles. De fato, achei o ponto mais fraco do filme o desenvolvimento do drama de Simon (a história da mãe dele destoa muito do resto do filme e do tom que este adota).

filme triângulo amoroso drei

Classificado como uma mistura de drama, comédia e romance, Triângulo Amoroso só tem mesmo graça numa única cena (e isso, lá no último terço do filme). O resto são pequenos alívios cômicos, de um humor bem sutil, que não o classificariam exatamente como comédia. Talvez uma dramédia. O foco é realmente nos relacionamentos entre os personagens, tanto afetiva quanto sexualmente. Sem "papas na língua", Tykwer mostra de maneira sensível, mas visceral, todo o sentimento e tesão envolvidos (mesmo que alguns momentos sejam viscerais em demasia e sem necessidade, como na operação de Simon). As split-screens, ou seja, quando a tela se divide em vários segmentos, acaba sendo um exercício estético interessante, ilustrando eventos paralelos (que não são vitais, mas são interessantes), bem como a passagem de tempo e o fortalecimento de relações. E claro, mostrando de maneira "despudorada", cenas de sexo entre os personagens, tanto hétero quanto homos.

filme triângulo amoroso drei

Triângulo Amoroso é uma ode ao livre amor (e também ao poliamor), que além de trazer cenas mais sensuais, ainda traz uma boa gama de símbolos e metáforas, apoiando a sua "causa", por assim dizer. Não vou ficar destrinchando cada um desses simbolismos (como a questão das células-tronco e a vida em si, como inclusive termina o último plano, ou o simbolismo do número 3, que é o título original e que é bem martelado na hora em que a mãe de Simon morre e os números 3 e 9 - que é 3x3 - aparecem frequentemente), até porque o texto já está bem longo. Mas termino dizendo que neste caso, o título em português não fez feio. Afinal, triângulos equiláteros, em que cada ponta (ou vértice, pra dizer bonito) se conectam aos outros dois de maneira igual (pois cada lado - ou aresta - é de tamanho igual) exprimem bem a ideia do filme. Se cada vértice fosse um personagem e cada aresta um relacionamento, o triângulo mostra 3 amores não iguais (porque nenhum é igual, afinal, seus vértices são diferentes), mas semelhantes e igualmente importantes.

Trailers (o primeiro sem legendas, que é o que eu cito no texto; o segundo é um trailer legendado):





Para saber mais: crítica no Omelete.

P.S. Destaque positivo para a trilha sonora com Space Oddity, de David Bowie. Sempre me lembro dessa animação ao escutá-la...
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