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2013-07-11

Conto: Pernas de aranha

Pernas de aranha

pernas de aranha

*Clic, clic*

Ela reconheceu o som que as modernas câmeras de celular fazem, uma simulação de uma época em que as máquinas fotográficas realmente faziam barulho porque havia um obturador que abria e fechava.

Ela se virou para trás, de onde vinha o som, e deu de cara com ele. O rapaz era um desses tipos comuns que se vê todos os dias e que não deixam uma marca indelével na memória, vestindo roupas ordinárias já meio gastas. Talvez o mais notável nele fosse os óculos redondos, o que lhe dava um leve ar de nerd desajeitado.

Ela logo percebeu que o rapaz estava tirando fotos dela. Ele, percebendo que ela sabia o que ele estava fazendo, apenas sorriu para ela. E a moça, sentindo mais curiosidade do que qualquer outra coisa, perguntou, sem demonstrar irritação:

- Por que você tirou fotos minhas?

O rapaz, sentindo no fundo um grande alívio pela moça não fazer nenhum escândalo ou se mostrar falsamente indignada, respondeu:

- Desculpe, mas não resisti. O momento pedia para ser registrado e, por sorte, eu estava com o celular na mão.

- Que momento?

- O que acabou de passar. Você estava mexendo na sua bolsa e isso fez com que deixasse o peso do corpo mais em uma perna, fazendo com que ficasse com uma pose lindamente assimétrica. Aliás, você tem pernas lindas, sabia?

Ela achou muito estranho aquela explicação. Pose assimétrica? E ainda por cima, dizer que ela tinhas pernas lindas? Nunca achara as suas pernas grandes coisas, eram relativamente finas e longas, longe do modelo de beleza de pernas torneadas. Até houve uma vez em que um velhinho, na fila atrás dela, comentou (até hoje ela não sabe se para ela ouvir ou apenas um pensamento em voz alta do senhor de idade), que ela tinha "pernas de aranha". Nunca soube se era um elogio ou não, mas como a maioria das mulheres em relação a auto-imagem, no fundo achava que a comparação de suas pernas com as de uma aranha não era nada positivo, afinal.

Era um dia de inverno, mas o frio não viera forte, por isso ela vestia uma calça jeans justa (mas não justíssima, daquelas coladas na pele) e um casaquinho preto. Nada muito extravagante, nem muito planejado, era um dia comum. Por isso, ela estranhou ainda mais aquela conversa de bela pose.

- Vejo que você acha que estou mentindo ou tirando um sarro da sua cara - disse o rapaz, quebrando a onda de pensamentos e devaneios dela.

- É, é meio estranho...

- Olha, não se preocupe que eu não sou nenhum tarado, stalker ou coisa assim. Na verdade, eu já ia pedir a sua permissão pra tirar uma foto sua.

- Depois de ter tirado?

- Bem, é que o momento era aquele e momentos nunca duram muito. Depois de tirar a foto como eu realmente queria, eu ia pedir permissão pra tirar uma foto sua e, se você me permitisse, ia tirar uma foto qualquer. Depois, eu guardaria mesmo a primeira. Não é totalmente honesto, eu admito, mas eu não acho anti-ético e nem acho que fica mal-intencionado desse jeito. Aprendi essa técnica com um mestre meu.

- É um bom truque - ela respondeu, ainda um pouco desconfiada.

- É, mas você percebeu e agora não dá pra usar mais ele. Então eu vou perguntar: você se importa?

- Com as fotos?

- É. Quer que eu as apague?

- Deixa eu ver antes.

Ele mostrou a ela duas fotos no celular. Ali estava ela, retratada de corpo inteiro. Irreconhecível, podia ser qualquer uma, ela estava de costas, com os cabelos um pouco desgrenhados e mexendo na bolsa. A foto não era erótica nem nada sensual (não focando em sua bunda, por exemplo), como ela pensou que poderia ser. E desistiu de entender aquele rapaz, de aparência normal, mas que tinha um espírito de bicho-grilo, como ela pensou.

- Pode ficar com essas fotos. Realmente não sei o que você viu nesse tal "momento" aí.

- Obrigado pelas fotos. Você realmente tem pernas muito lindas.

- Pernas de aranha - ela disse, enquanto subia em sua condução que acabava de chegar e já partia.

2013-06-29

Conto: Lendo você

Lendo você

casal lendo livro

- Sonhei com você outro dia.

- É?

- Sim.

- Espero que tenha sido um sonho bom.

- Ah, foi sim. Nele, eu e você estávamos deitados, e eu lhe acariciava os seios...

- Hmmmm...

- Mas sabe como é sonho, né? Sempre é meio esquisito. Então, meio que você não era exatamente você, no sonho.

- Ué? Mas como assim? Estava me traindo no sonho com outra, é?

- Não, era você mesma. Mas apesar de ser seu corpo, seu rosto, seu jeito e tudo seu, você não era uma pessoa. Quer dizer, era e ao mesmo tempo não era. Essas coisas malucas de sonho, sabe?

- Explica isso direito!

- Bem, eu vou tentar. No sonho, você era como uma revista ou um livro. E eu lhe folheava, lhe lia. Literalmente, manipulando cada página e folha. E a cada página virada, partes suas iam surgindo. Quer dizer, surgindo não, era como se antes eu não visse aquela parte e só depois eu me tornava consciente dela, então surgindo para mim. Como se você se formasse a cada página. Eu passava uma página e seus seios surgiam pra mim, por exemplo. E só a partir daí eu conseguia passar a mão por eles...

- Seu taradinho.

- E eu virava outra página e então eu tomava consciência da sua linda barriguinha. E conseguia agora acariciá-la também.

- E até onde o senhor leu, hein?

- Ah, o sonho acabou antes de eu chegar ao clímax da história.

- Hahaha. Que bom.

- Bom por quê?

- Porque é sempre bom deixar um mistério para o leitor. Se ele conhece tudo depois de ler, acaba largando o livro.

- Mas as melhores histórias sempre me dão vontade de voltar a elas. Elas sempre oferecem algo novo na releitura.

- Acho que nunca tive uma leitura assim.

- Eu já.

2013-06-15

Conto: No ponto de ônibus

No ponto de ônibus

ponto de ônibus

Era um desses típicos dias de outono daquele tempo. No relógio, a hora marcava um final de tarde, mas o tempo nublado, que assim permanecia desde a manhã, já tornava o céu noturno. Saí de um cinema e me dirigi a um ponto de ônibus. O local era envolto por sombras, graças a combinação de luz fraca do alto de um poste, das folhas já caindo de uma das poucas árvores da rua e da cobertura do ponto de ônibus.

Aquela era uma rua de mão dupla. Do outro lado, a poucos metros, quase em frente ao ponto em que eu me encontrava, havia outro ponto. Mais iluminado, mas mesmo assim, escuro.

Sentei-me no banco do ponto, para esperar o ônibus. Do outro lado da rua, notei uma mulher sentada no banco, fazendo o mesmo que eu: esperando a sua condução. Por causa da pouca iluminação e da minha natural dificuldade em enxergar na penumbra, não consegui distinguir seus traços. Como uma foto tirada contra o sol, enxergava quase apenas a sua silhueta.

Em dias de semana, a espera no ponto de ônibus pode encher uma pessoa de angústia ou até mesmo, uma certa adrenalina. O medo de perder o ônibus correto, a pressa de se chegar ao destino o mais rápido possível, a batalha velada entre os passageiros para entrar no veículo e se acomodar da maneira possível... Tudo isso se desvanece nos fins de semana, onde a quantidade de pessoas circulando é bem menor, assim como a pressa, e os ônibus demoram a passar.

E aquele era um fim de semana. E eu memorizara o horário do ônibus, que ainda demoraria a passar por ali. Assim, sem ter o que fazer, meus olhos repousaram sobre a mulher sentada no ponto de ônibus quase em frente ao meu.

Quem seria ela? Para onde estaria indo? Estaria ela fugindo de casa? Correndo em direção a um amante secreto? Indo a uma festa? Sem nada melhor para pensar, comecei a inventar histórias e possibilidades para a jovem moça.

Sim, através da luz fugidia dos faróis dos carros que passavam, consegui distinguir alguns poucos traços da mulher. Jovem, loira, cabelos longos e um corpo normal, usava um jeans clássico e uma blusa vermelha, com um decote que não era generoso, mostrando apenas a parte superior do seu colo. Mas o que mais me chamou a atenção ali se encontrava logo abaixo do seu pescoço.

Logo acima do limite do decote, algo brilhava. Pendurado numa corrente, algo refletia a pouca luz que iluminava o ponto. Algum brilhante, ou o mais provável, alguma bijuteria ou adorno metálico, era como se uma distante estrela escondida pelas nuvens houvesse escapado e começado a brilhar no colo daquela mulher. Conforme o objeto virava, conforme a luz dos faróis passantes refletia, era como se aquele ponto ganhasse vida numa estrela terrena.

Não era como se eu estivesse ali me apaixonando ou algo do gênero, mas a memória do personagem de Jim Carrey em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, me tomou a cabeça, quando ele está num café e observando a personagem da Kate Winslet, ele escreve em seu diário: "Por que me apaixono por todas as mulheres que vejo que me dão um mínimo de atenção?". Obviamente, não era o caso ali, pois ela nem mesmo devia me enxergar, já que o meu ponto de ônibus estava envolto em ainda mais escuridão.

Fiquei ali absorto alguns minutos, olhando aquele ponto brilhante, até que um cão de rua me chamou a atenção quando quase foi atropelado e se ouviu alto o barulho de pneus freando, mais a minha esquerda.

Voltei a olhar para o ponto de ônibus quase em frente ao meu, mas agora um ônibus estava na minha frente. E quando ele seguiu, não havia mais ninguém no ponto.

Empertiguei-me no banco e suspirei, pensando no quanto ainda teria que esperar.
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