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2012-10-21

Filme: O Contestado - Restos Mortais

Eu sou uma pessoa teimosa. Isso muitas vezes rende problemas, mas às vezes rende boas surpresas na vida. A mais recente envolve o documentário brasileiro O Contestado - Restos Mortais, do catarinense Sylvio Back. Isso porque se eu fosse me basear na sinopse ou no trailer para decidir se eu abriria mão de quase duas horas da minha vida para assistir o filme, eu diria que não. Mas a teimosia venceu, fui assistir o filme (admito que já pensando no que falar mal dele), mas tive uma boa surpresa. Como documentário, tem alguns problemas sim, mas também tem bons pontos e trata de um tema interessante e que pouco é explorado no estudo da história brasileira em geral: a Guerra do Contestado.

filme o contestado restos mortais poster cartaz

O maior problema de O Contestado - Restos Mortais é também o que o diferencia da maioria dos documentários e o que provavelmente os marketeiros de plantão mais estão usando para vendê-lo: a sua ligação com o espiritismo. Leiam uma sinopse do filme que encontrei em vários lugares (inclusive no cinema onde assisti o filme, que geralmente divulga a sinopse oficial dos filmes e que, por isso, imagino que esta seja também oficial):

Com o testemunho de trinta médiuns em transe, articulado ao memorial sobrevivente e à polêmica com especialistas, "O Contestado – Restos Mortais", é o resgate mítico da chamada Guerra do Contestado (1912-1916). Envolvendo milhares de civis e militares, o sangrento episódio conflagrou Paraná e Santa Catarina por questões de fronteira e disputa de terras, mesclado à eclosão de um surto mes¬siânico de grandes proporções.

Assistindo ao trailer (que se encontra no final do post), você pode ver o quanto é batido a tecla dos médiuns incorporando espíritos que participaram do combate (segundo a crença deles). E sinceramente, um documentário histórico ser baseado em testemunhos espíritas é no mínimo um contra-senso, se não uma afronta a todos os bons documentaristas que existem e já existiram. Felizmente, ao contrário do que aparenta a sinopse e o trailer, O Contestado - Restos Mortais não é isso.

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O documentário trata sobre a Guerra do Contestado, um sangrento conflito armado acontecido em terras que os estados do Paraná e Santa Catarina pleiteavam a posse, por volta de 1912 (ano em que a guerra começou). O conflito não foi entre estados, entretanto, mas sim começou com caboclos que moravam naquele "sertão da região sul" e que envolveu além de outros habitantes locais, os grandes donos de terras da região, capital estrangeiro e o exército nacional, deixando milhares de mortos.

Como é comum em situações extremas, não houve um único motivo para a guerra, mas vários fatores que contribuíram para o desenvolvimento de toda a situação. Entre eles: problemas sociais (em especial a situação de pobreza do povo mais humilde), o desenvolvimento de uma religiosidade exacerbada, fanática e messiânica (muito motivada pelos problemas sociais), a transformação com a chegada de capital americano que construiu uma ferrovia na região e uma madeireira exportadora, a ineficácia de alguns militares de enxergarem a situação e até mesmo a política nacional, que querendo reafirmar a república (com menos de 30 anos na época), não gostaria de ver outro Canudos (episódio este bastante citado no documentário).

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O Contestado - Restos Mortais reúne um bom time de historiadores e estudiosos do assunto, que entrelaçam seus depoimentos, às vezes com opiniões contraditórias, para formar uma imagem dos acontecimentos da época. Isso tem o lado positivo de deixar para o espectador escolher um lado em questões mais espinhosas, mas por outro lado, deixa de mostrar a opinião dos produtores do filme. Esses depoimentos mais acadêmicos, digamos assim, são entremeados por depoimentos de leigos, que se não participaram do conflito em si (afinal, este ano ocorre o centenário dele), repassam com suas palavras histórias ouvidas de pais e avós que estiveram presentes no conflito. Apesar de não ser a mesma coisa que ouvir uma testemunha presencial (há apenas um depoimento testemunhal, sem imagens, com apenas o áudio gravado), esses depoimentos agregam um lado mais humano ao documentário, fazendo com que o filme não se transforme numa aula expositiva chata de escola.

O grande problema é que, além desses "depoimentos leigos", o documentário usa também cenas de médiuns com pretensos espíritos de mortos da Guerra do Contestado incorporados, como "ilustração" ou "vírgula visual", dos depoimentos dos estudiosos/historiadores. Isso acaba enfraquecendo muito o filme, não apenas pelo teor teológico da coisa toda (que talvez funcione se você for muito devoto desta religião), mas pelo próprio ritmo de várias dessas cenas, que são, visualmente, involuntariamente engraçadas e/ou ridículas.

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Fora esse problema, que permeia o filme inteiro, apenas dois outros pontos negativos me chamaram a atenção. O primeiro se refere quando O Contestado - Restos Mortais discute a questão da influência do capital estrangeiro no levante do conflito. A impressão que fica é um discurso, muito popular no meio acadêmico de universidades e faculdades públicas, de anticapitalismo com um toque socialista. A edição nesta parte do depoimento do brasilianista Todd A. Diacon faz com que pareça que ele, pessoalmente, esteja defendendo os interesses estrangeiros da época (efeito que fica maior ainda com o seu sotaque estrangeiro), enquanto é nítido que ele expõe um outro lado da moeda que não deve ser deixado de lado. Talvez tenha sido desproposital, mas a impressão final é que transparece um certo discurso anticapitalista vazio (não no sentido de ser relevante ou não, mas no sentido de ser sem argumentos válidos).

O segundo ponto negativo é a escalada da guerra, logo após o primeiro conflito, que particularmente, acho que precisava de uma explicação um pouco melhor, enquanto no documentário boa parte do tempo é reservado ao fiasco (em todos os sentidos, até no moral) da campanha do militar João Gualberto (apesar de alguns pontos serem abordados mais a frente, numa inversão cronológica, como os problemas sociais que levaram a ascensão dos profetas sertanejos).

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O Contestado - Restos Mortais aborda a religião da época de maneira eloquente do ponto de vista histórico, apresentando o misticismo e a ignorância acerca do mundo que a religião se aproveita em situações semelhantes. Assim, é fato que, apesar de não ser dito com tais palavras, a religião ou religiosidade acabou sendo uma das culpadas, ou responsáveis, pelo conflito do Contestado. Assim, é irônico que o documentário esteja permeado de médiuns, numa manifestação religiosa que é totalmente dispensável para o filme funcionar (de fato, funcionaria melhor sem ela).

Enfim, O Contestado - Restos Mortais é um bom documentário, com depoimentos de estudiosos e historiadores bem montado e, nota-se, com uma pesquisa acerca do assunto bem feita. Outro destaque positivo no filme é a sua fotografia, especialmente no que diz respeito às imagens de fotos que ganham bons efeitos em tela. Realizado em 2010, só agora, em 2012, chega ao circuito. Apesar de estar permeado de médiuns incorporando, essas cenas servem apenas como ilustração para o verdadeiro conteúdo, que é passado pelos depoimentos dos "encarnados". Seria ótimo se essas ilustrações fossem diferentes, mas assim como ilustrações ruins não estragam um livro (mas podem diminuir o seu apreço por ele), essas cenas não fazem com que o filme seja ruim. O que realmente foi uma grande surpresa para mim.

Trailer:



2011-11-09

Curta-documentário sobre a floresta dos suicídios no Japão

O número de suicídios no Japão é extremamente alto, levando-se em conta os países desenvolvidos. De fato, já se tornou uma questão sobre a sociedade em si, não apenas um problema individual de poucos, que justamente, não conseguem se adaptar à sociedade.

aokigahara floresta suicídios

Aos pés da montanha mais famosa e símbolo do Japão, o Monte Fuji, existe uma floresta que tem sido palco de frequentes suicídios, a floresta de Aokigahara. Nâo se sabe exatamente como o local se tornou um "popular" local para suicidas, mas desconfia-se que seja devido a um romance escrito em 1960, em que dois amantes se suicidam na floresta no final. Entretanto, o local tem sido associado a morte muito antes disso, o que não é difícil de se imaginar: Aokigahara também é conhecida como Jukai, ou mar de árvores, pois a sua densa floresta vista do alto se assemelha a um mar, e toda floresta densa, desabitada e praticamente deserta tem um ar sombrio.

O curta documentário abaixo acompanha um dia do geologista Azusa Hayano. Ele estuda o solo vulcânico em volta do Monte Fuji, e convive quase que diariamente com a floresta e seus visitantes, tornando-se também um "guarda contra suicídios". Em 20 anos, Hayano diz ter encontrado já cerca de 100 corpos na floresta. Vejam o vídeo (contém imagens reais de pessoas mortas), que está legendado em inglês:



Apesar deste fato macabro, a floresta de Aokigahara é um famoso ponto turístico, que tem trilhas para formações rochosas e cavernas populares entre turistas. Essas trilhas são bem demarcadas, então o perigo para alguém se perder e morrer "sem querer" não é tão grande assim. Devido a sua natureza fechada, fora das trilhas oficiais é fácil se perder, por isso, muitos que vão ali se suicidar, mas sem plena convicção, amarram fitas plásticas nas árvores, para poderem voltar à trilha, caso não concretizem o suicídio. Entretanto, se caso eles realmente se suicidem, a fita fica ali, como um caminho levando ao corpo. "Na maioria dos casos, se você seguir a fita, você encontra algo no final.", diz Hayano.

Já tinha lido sobre o fenômeno dessa floresta em algum lugar, mas não lembro exatamente onde. Entretanto, ao ver as imagens, tudo se torna mais pesado, mais real. E principalmente triste. Como o próprio Hayano diz, "mesmo que você encare o corpo de um suicida, ele não pode te atacar, então não é assustador". O sentimento que prevalece ali é a tristeza. "Você acha que morre sozinho, mas isso não é verdade. Ninguém é sozinho neste mundo. Nós temos que coexistir e tomar conta uns dos outros. É assim que eu vejo", diz o senhor Hayano.

Dica via Empty Kingdom - Aokigahara Suicide Forest.
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