À primeira vista, o filme A Sombra do Inimigo (no original Alex Cross) parece ser apenas mais um filme genérico medíocre de ação e suspense policial. Entretanto, se pararmos para analisá-lo, veremos que, na verdade, ele é bem ruim.
A Sombra do Inimigo tem uma histórica até meio clichê de filmes policiais. Ela acompanha o protagonista (que dá o título original ao filme) Alex Cross (Tyler Perry) e sua equipe, composta entre outros pelo parceiro Tommy Kane (Edward Burns) e pela novata Monica Ashe (Rachel Nichols), investigando um assassinato. Quando eles se encontram pela primeira vez com o assassino profissional (vivido por Matthew Fox), frustrando os seus planos, a coisa torna-se pessoal.
A Sombra do Inimigo tem vários problemas como filme, a começar pelos personagens. Cross é um psicólogo brilhante, que aparentemente mostra poderes de dedução e observação no nível de Sherlock Holmes ou House. Entretanto, sem o carisma e charme desses dois citados, provenientes tanto de seus dons quanto de seus defeitos, igualmente colossais, o personagem Cross se mostra um bom-moço chatíssimo, demasiadamente "certinho", pai de família exemplar e que tenta ajudar uma jovem negra (como ele) convencendo-a a delatar o tio que cometera o crime pela qual estava presa.
O assassino vivido por Matthew Fox também não desperta interesse, com um roteiro sem explorar suas motivações e/ou passado, retratando-o apenas como "provavelmente um ex-militar" lunático. Com este personagem, Fox consegue se desvencilhar de seu personagem mais icônico, o Jack de Lost. Isso, no entanto, não quer dizer que seja uma boa atuação, já que o assassino vivido por Fox é unidimensional e não dá muitas oportunidades de atuação, ficando relegado a caras e bocas de maluco, que produzem no final, uma atuação exagerada e caricata.
De fato, o assassino lembra o personagem de videogame da série Hitman ao (tentar) executar os assassinatos com planos mirabolantes (nadando por tubulações de água ou hackeando um trem). Entretanto, se no game (e em menor parte, no filme baseado nele) é divertido ver o assassino, neste A Sombra do Inimigo a diversão se perde um pouco, já que o filme se leva a sério demais para situações claramente absurdas.
Este talvez seja um dos maiores problemas do filme: se levar a sério demais, mesmo quando seus personagens são claramente caricaturas, incluindo o elenco de apoio, como o chefe da divisão policial que, no melhor estilo "chefe de cabelos pontudos do Dilbert", quando decide fazer algo por conta (para receber os créditos políticos) e não escutar Cross, só faz besteira.
Dirigido por Rob Cohen (que sempre fez filmes mais ou menos, como o último e sofrível capítulo da franquia A Múmia), A Sombra do Inimigo também falha na condução do ritmo. Querendo imprimir uma ação rápida (inclusive abusando do recurso de câmera na mão, tremendo a imagem), o filme abandona quase que totalmente o suspense depois de um terço da projeção, fazendo com que não se sinta que haja uma ameaça a espreita. O drama também tem pouco destaque, puxando logo para o tema vingança pessoal. E, por fim, a resolução final também é bem fraca, com a revelação do mandante dos assassinatos sem nenhum impacto. Ou talvez tenha sido só o cansaço e a vontade de ver o filme acabar logo que me fizeram achar o final fraquíssimo.
Baseado na série de livros de James Patterson tendo o personagem Alex Cross como protagonista, A Sombra do Inimigo parece ir ao contrário da direção dos livros. Pelo menos em termos de qualidade e aceitação do público. Enfim, A Sombra do Inimigo é um filme ruim. Com um roteiro genérico e medíocre, poderia render um filme apenas medíocre, caso fosse melhor conduzido. Os fãs de Patterson provavelmente estão decepcionados.
Em Bagdá, entre a zona verde (a área pacificada de Bagdá restritamente controlada pelo governo americano e que dá nome a outro filme de guerra espetacular, com Matt Damon), e o aeroporto, existe uma estrada que é considerada a mais perigosa do mundo, chamada de Rota Irlandesa. Esta explicação é dada por um personagem em certa altura da projeção deste filme, que leva o nome da estrada (no original, Route Irish).
Apesar do pontapé inicial da história se passar no Iraque, a maior parte da trama se desenrola na Inglaterra, onde Fergus (Mark Womack), um soldado privado (uma palavra mais bonita para mercenário), desconfia das explicações oficiais para a morte de seu melhor amigo desde a infância, Frankie (John Bishop), morto na tal rota irlandesa que dá título ao filme. A partir dessa premissa básica, temos uma trama onde o diretor Ken Loach desenvolve um filme quadradinho, sem inovações, envolvendo investigação, um pouco de suspense, leves menções às sequelas dos soldados pós-guerra, mas principalmente, uma denúncia sobre o capitalismo, grandes corporações (sempre malvadas), a privatização de exércitos e os excessos cometidos por estes "caubóis" contratados.
Infelizmente, são nesses últimos aspectos, os mais focados, que Rota Irlandesa se perde. Ao querer chocar, inserindo imagens reais de arquivos jornalísticos mostrando algumas barbáries cometidas por soldados, em momentos da projeção, o filme não apenas quebra o ritmo da narrativa, mas também soa como pretensioso e panfletário, como se fosse um professor que tivesse que ficar repetindo à exaustão, uma lição que é óbvia para a classe.
Rota Irlandesa não deixa de ser uma diversão razoável em termos de filme-de-ex-soldado-fodão-buscando-vingança-pessoal, mas peca também em outro ponto: a mesmice. O trailer também não ajuda, estragando boa parte do final, denunciando de antemão os vilões e fazendo com que a reviravolta final (obrigatória) perca toda a sua força (que já não seria tão grande assim). Nesse sentido, pode-se dizer que Rota Irlandesa seja até mesmo um pouco burocrático, não inovando em absolutamente nada, mas entregando as cenas de ação e de investigação já esperadas pelos familiares ao gênero.
Enfim, Rota Irlandesa entrega o básico do gênero investigação/guerras/grandes corporações. A crítica social se faz presente, mas não se desenvolve bem, soando forçada. Ao contrário do caminho que dá nome ao filme, Rota Irlandesa segue por caminhos seguros, que muitas vezes se mostram também os menos interessantes.
Nas férias passadas, finalmente diminui (um pouco) a minha fila de livros a serem lidos. Um deles foi Ilha do Medo, de Dennis Lehane. Publicado por aqui originalmente como Paciente 67, este livro inspirou o filme de mesmo nome de 2010, dirigido por Martin Scorsese e estrelado por Leonardo DiCaprio.
A sinopse oficial do livro segue abaixo:
No verão de 1954, o xerife Teddy Daniels chega a Shutter Island com seu novo parceiro Chuck Aule. A dupla deverá investigar a fuga de uma interna do Hospital Psiquiátrico Ashecliffe, reservado a pacientes criminosos. Sem deixar vestígios, a assassina Rachel Solando escapou descalça de um quarto vigiado e trancado à chave. Os médicos, funcionários e enfermeiras da instituição não parecem dispostos a colaborar com a investigação. E as mentiras vêm diretamente do enigmático médico-chefe do hospital. O desaparecimento de Rachel traz à tona uma série de suspeitas sobre o hospital: com suas cercas eletrificadas e guardas armados, talvez ele não seja apenas mais um sanatório para criminosos. Surgem rumores de que uma abordagem radical e violenta da psiquiatria seria lá praticada - as suspeitas incluem desde terríveis experiências com drogas e cirurgias experimentais, até o desenvolvimento de instrumentos a serem usados na Guerra Fria. Enquanto isso, um furacão se aproxima da ilha, precipitando uma revolta entre os presos. Quanto mais perto da verdade Teddy e Chuck chegam, mais enganosa ela se torna.
Depois de ler o livro, é perceptível que o filme é bem fiel ao livro. Apesar de ser quase regra que filmes baseados em livros são sempre inferiores ao material original, este não é o caso. Ambas as mídias, livro e filme, têm o mesmo clima soturno de thriller misturado a toques de noir. Apesar de ser basicamente um suspense policial, a história também tem uma boa dose de drama e até mesmo, pitadas filosóficas espalhadas pelo texto. A leitura é dinâmica e não é cansativa, apesar dos temas abordados pelo livro, serem pesados.
Numa avaliação resumida, Ilha do Medo vale muito a pena ser lido. Se, no entanto, você não for fã de leitura, pode se contentar somente com o filme, que faz jus ao material original.
Abaixo, algumas citações que separei da leitura (grifos meus):
Sempre há:
"Mas abrimos mão de nosso passado para garantir o futuro?", disse Chuck atirando, com um piparote, o cigarro na espuma. "Eis a questão. O que você perde quando varre o chão, Teddy? Migalhas que de outro modo atrairiam formigas. Mas o que dizer do brinco que ela perdeu? Também foi parar no lixo?"
Teddy disse: "Quem é ela? De onde você a tirou, Chuck?".
"Há sempre uma ela, não é?"
Acordar:
Dolores morrera havia dois anos, mas revivia à noite, nos sonhos dele. E às vezes, no alvorecer. Teddy passava minutos a fio pensando que ela estava na cozinha ou tomando café na sacada do apartamento em Buttonwood. Era uma cruel ilusão armada por sua mente, claro, mas havia muito tempo que Teddy se conformara com a lógica desse acontecimento - afinal de contas, acordar era como nascer. A gente emerge sem história. Depois, entre um piscar de olhos e um bocejo, reorganiza o passado, dispondo os fragmentos em ordem cronológica, reunindo forças para enfrentar o presente.
Sobre a violência:
Tinham chegado ao portão principal. O diretor, que continuava segurando o braço de Teddy, fê-lo girar de modo a ter à frente a casa de Cawley e, mais adiante, o mar.
"Você apreciou essa dádiva recente de Deus?"
Teddy olhou longamente o homem. Por trás daqueles olhos tão perfeitos havia um espírito doente, ele pensou. "Como? Não entendi."
"Uma dádiva de Deus", disse o diretor. Num gesto largo, o braço dele abarcava a terra devastada pelo furacão. "Sua violência. Quando desci as escadas em minha casa e vi a árvore na sala de estar, senti que aquilo era obra da mão divina. Não literalmente, é claro. Mas no sentido figurado. Deus ama a violência. Você entende isso, não é?"
"Não", disse Teddy. "Não entendo."
O diretor avançou alguns passos e se voltou para encarar Teddy. "Que outro motivo existe para tanta violência? Ela está em nós. Vem de nós. Faz parte de nossa natureza, mais do que respirar. Nós desencadeamos a guerra. Fazemos sacrifícios. Pilhamos, dilaceramos a carne de nossos irmãos. Semeamos nossos fétidos cadáveres em grandes campos. E por quê? Para mostrar a Ele que aprendemos com o Seu exemplo."
Teddy o viu acariciar a capa de um livrinho que apertava contra o ventre.
O diretor sorriu, e seus dentes eram amarelos.
"Deus nos dá terremotos, furacões, tornados. Ele nos dá montanhas que cospem fogo sobre nossas cabeças. Oceanos que engolem navios. Ele nos dá a natureza, e a natureza é um assassino sorridente. E nos dá as doenças para que, em nossa morte, acreditemos que Ele nos deu orifícios só para que sentíssemos nossa vida se escoar através deles. Deu-nos a lascívia, a raiva, a cupidez e nossos corações sujos para que pudéssemos espalhar a violência em Sua homenagem. Não existe ordem moral mais pura que essa tempestade que vimos há pouco tempo. Aliás, não existe nenhuma ordem moral. Tudo se resume apenas a isto: minha violência pode dominar a sua?"
Teddy disse: "Não estou bem certo, eu...".
"Será que pode?", disse o diretor, agora tão perto de Teddy que este lhe sentiu o hálito podre.
"Pode o quê?", disse Teddy.
"Minha violência pode dominar a sua?"
"Não sou violento", disse Teddy.
O diretor cuspiu no chão, perto dos seus pés. "Você é um homem de uma rara violência. Eu sei, porque também sou. Não se dê ao trabalho de negar sua sede de sangue, rapaz. Poupe-me disso. Se não existissem mais os mecanismos de controle social, e se eu representasse o único alimento possível, você não hesitaria em rachar o meu crânio para se banquetear com meu cérebro." Ele se inclinou para frente. "Se eu metesse os dentes no seu olho agora mesmo, você conseguiria me deter antes que eu o arrancasse?"
Teddy viu um brilho de alegria nos olhos de bebê do diretor. Imaginou o coração daquele homem, negro e palpitante, por trás da parede do peito.
"Por que não tenta?", ele disse.
"Pegou o espírito da coisa", sussurrou o diretor.
Esse diálogo, que é mantido quase que totalmente fiel no filme, é um dos meus preferidos.
Tenso. É assim que passei boa parte da projeção de A Perseguição (no original, The Grey). Com uma história simples, mas que prende a atenção, o filme dirigido por Joe Carnahan tem os elementos de um bom filme de suspense/sobrevivência: personagens carismáticos que conseguem nos fazer torcer por eles; uma ameaça sempre presente e que pode atacar a qualquer momento; fugas e, claro, perseguições.
A história básica do filme é simples e pode ser resumida em um parágrafo pequeno: um grupo de trabalhadores de uma indústria petrolífera estão voltando do Alasca, quando o avião deles cai. O grupo de sobreviventes dessa queda se vê ameaçado não apenas pelo ambiente inóspito de frio e tempestades, mas também de uma matilha de ferozes lobos (da espécie de lobos cinza - gray wolves - que dá o nome original do filme, apesar de nem todos os lobos serem efetivamente cinzas), que perseguem o grupo por eles estarem dentro de seu território.
A Perseguição é visualmente bem feito. As cenas com neve caindo, uma constante no filme, se parecem muito verdadeiras, é porque são: a equipe filmou em condições bem adversas, segundo uma entrevista de Liam Neeson, o protagonista do filme. Outro exemplo é a cena da queda do avião, visualmente muito bacana e que não perde em nada para a queda de avião de Lost, por exemplo. Aliás, não só a queda do avião lembra Lost, como também uma boa parte do desenvolvimento de Ottway, personagem de Liam Neeson. Assim como os personagens de Lost com seus flashbacks, Ottway é atormentado pelo passado. Um passado que só entenderemos plenamente no final do filme, e que encerra um desenvolvimento que os personagens começam a ter mais profundamente da segunda metade em diante do filme, com discussões filosóficas sobre a existência de Deus e a crueldade, ou melhor dizendo, imparcialidade da natureza e do destino.
Spoilers neste parágrafo. Se você não viu o filme, pule para o próximo. Toda a construção do personagem de Neeson é excelente. No começo do filme é apresentado o personagem como uma pessoa sem esperança (na cena em que ele quase se suicida). Depois disso, mesmo lutando pela sobrevivência, enfrentando os lobos, ele o faz não por querer viver, por ter algo pelo que lutar (coisa que ele incita seus companheiros a fazer, em um diálogo na fogueira com os outros sobreviventes, ao dizer que se eles tivessem algo a que se apegar, algo que quisessem não no fim da vida, mas logo adiante, lutassem por isso, pois lutariam mais fortes). Como já ouvimos o personagem dizer, o que ele gostaria, não pode ter, pois a sua amada se fora para sempre (no sentido mais literal possível). Mas ao mesmo tempo ficamos sabendo da história de seu pai e seu poema, que não o deixava fugir da batalha, num lance de alma de guerreiro. E aí temos a bela construção do personagem, que mesmo desesperançado, luta sua última batalha (do poema: "Na última boa luta que eu jamais conhecerei, Morra e viva neste dia" - Into the last good fight I'll ever know, Live and die on this day). Entretanto, o que eu mais gostei mesmo foi que o personagem no final não tem uma revelação, não alcança um êxtase. Ele segue coerente, tendo como guia não uma divindade, mas a certeza dos rumos da natureza: da natureza do animal lobo, "do frio" que sente, etc. E a minha cena preferida do filme ilustra isso: desesperado, ao ver o último companheiro sobrevivente da queda, morto afogado, ele grita aos céus pedindo ajuda, que se houvesse um Deus, ele precisava de uma prova naquele momento. Diante do silêncio, com apenas o barulho do rio, ele diz algo como "Foda-se. Eu mesmo vou resolver isso". E segue adiante, até o final, que é deixado em aberto. Fim dos spoilers.
A Perseguição mantém um clima muito tenso na sua primeira metade. Muito tenso mesmo, com os lobos atacando quando se menos espera, e sempre sem mostrar muito dos lobos (uma lição que filmes como Tubarão, de Spielberg, e Seven, de Fincher, nos ensinam muito bem). A segunda metade do filme acalma um pouco a tensão, dando espaço para o desenvolvimento dos personagens, o que é bem vindo, já que uma tensão forte como a da primeira metade no filme todo poderia bem elevar alguns riscos cardíacos.
Com roteiro do próprio Joe Carnahan (o diretor) e de Ian Mackenzie Jeffers (autor do conto que inspirou o filme), A Perseguição é um filme tenso, adulto, e que como a vida, não te dá respostas finais (a não ser uma que é óbvia e que eu mesmo te dou agora: um dia, você vai morrer, como todos os outros). O filme também prova que o Carnahan não sabe só fazer galhofas (como seu filme anterior, o remake do clássico oitentista Esqudrão Classe A, também com Neeson). É, enfim, uma boa surpresa.
Um filme de suspense/terror sobrenatural à moda antiga. É esse o sentimento ao assistir A Mulher de Preto (ou The Woman in Black no original), um filme que resgata o clima dos bons filmes de fantasma com uma boa dose de suspense. Não é imperdível, mas com certeza, para os fãs do gênero, é uma boa pedida.
A Mulher de Preto traz o eterno "Harry Potter" Daniel Radcliffe como Arthur Kripp, um jovem advogado que há quatro anos perdeu a esposa no parto do seu primeiro filho. Abalado emocionalmente (fato que no filme é mais ressaltado pela exposição do desenho que o filho faz do pai, sempre triste, do que pela atuação de Radcliffe), Arthur tem uma última chance no emprego. Ele deve viajar para o interior da Inglaterra para fazer um levantamento dos papéis de uma recém-falecida viúva que era dona de uma mansão e cliente da firma de advogados em que ele trabalha. Chegando no vilarejo onde se encontra a propriedade, que será vendida quando os papéis estiverem todos OK, misteriosamente ele se vê com uma certa falta de hospitalidade dos habitantes locais. Entretanto, no caminho ele conhece um habitante da vila com propensões modernas, Sam Daily (Ciarán Hinds, que coincidentemente está em cartaz em outro filme "sobrenatural", o segundo Motoqueiro Fantasma), que lhe ajuda e se torna seu amigo.
Kripp, sem ter muita escolha (ou perderá o emprego), vai até a velha mansão, que fica numa espécie de península, cerca por um terreno pantanoso e que cuja única estrada tem hora pra sumir e aparecer, devido às marés. Na mansão ele avista uma mulher de preto, e é quando tem início a sua "maldição", por assim dizer. O resto da história, que é desvendada aos poucos, como qualquer bom filme de suspense, você fica sabendo ao assistir o filme.
A Mulher de Preto tem como pontos fortes uma ótima direção de arte (todo o clima soturno da mansão é impecável e funcional com a proposta do filme, desde os candelabros nas paredes com restos de velas, até o mobiliário da mansão) e uma ótima fotografia (que, mesmo num ambiente supostamente iluminado apenas com velas, consegue manter uma excelente proporção entre luz e sombras). Além disso, o diretor James Watkins consegue extrair alguns excelentes planos, como quando Kripp entra em um quarto pela primeira vez, apenas com uma vela, e o diretor foca os olhos de brinquedos e bonecas, que são iluminadas pela luz da vela e conforme o personagem anda, o efeito da luz é como se os olhos estivessem seguindo o personagem. Um efeito simples, mas que no clima certo de um filme de terror, é genial.
Infelizmente, A Mulher de Preto sofre com o seu protagonista. Radcliffe, apesar de esforçado, parece muito deslocado no papel do jovem advogado. Com uma aparência jovial demais, não é raro que saiamos do clima do filme para lembrarmos do personagem Harry Potter. Além disso, Radcliffe não consegue passar o peso que o seu personagem carrega, a tristeza por ter perdido a mulher e não ter superado isso.
Outra característica interessante do filme A Mulher de Preto é não tratar o espectador como uma criança, mostrando tudo explicadinho. Aliás, se há alguns pontos sem explicação, eles não são essenciais à trama. Longe de ser uma falha, o roteiro de Jane Goldman adaptando um livro de Susan Hill ganha pontos justamente por não explicar detalhadamente todos os pontos. Afinal, nada é mais assustador do que aquilo que se desconhece, que não se vê (Fincher e Se7en estão aí pra comprovar isso).
Aliás, se você está acostumado a pular da cadeira com sustos gratuitos e esse é o seu estilo, esse não é o seu filme. Sim, esses momentos existem, mas estão longe de serem as principais atrações. Aqui o que impera é a apreensão de não saber, e o suspense por ver o que será descoberto em seguida (exceto o "plot twist" final, um tanto previsível). Esqueça os efeitos especiais mirabolantes, pois em A Mulher de Preto, o que vale é a sutileza dos "fantasmas de antigamente", aqueles que assustavam com sombras e objetos se mexendo sem explicação.
Enfim, A Mulher de Preto é um bom filme de terror e suspense sobrenatural. Entretanto, pra geração que já nasceu com um celular na mão e internet na cabeça, pode parecer ultrapassado. Não é. É de certa forma, nostálgico sim. Infelizmente, talvez o maior chamariz do filme (a presença de Daniel "Harry Potter" Radcliffe) seja o seu maior ponto fraco. Ainda assim, pra quem gosta de histórias de fantasmas, é uma boa pedida.
Um dos grandes problemas hoje em dia é o excesso de informações. Quando se fala em filmes, essa enxurrada de informações pode tanto ajudar, instigando o espectador a assistir o filme, quanto pode prejudicar, quando revela mais do que deveria para se aproveitar o filme. Esse último caso é o que acontece com À Beira do Abismo (ou no original, Man on a Ledge), um filme que é bem razoável caso você não saiba nada sobre ele. E de preferência, não ter visto nem o trailer. Por isso, se você ainda pretende assisti-lo, aconselho a pular este post. Particularmente, eu fui ver o filme sem saber absolutamente nada sobre ele e tive uma boa diversão.
Bem, se você continua lendo, ou não vai ver o filme, ou então já viu, ou ainda não dá a mínima mesmo. Você foi avisado. Uma das coisas interessantes de À Beira do Abismo é como o filme vai se descortinando aos poucos. Este é um filme de roubo, um filme de golpe. Mas, ao contrário de Inception, por exemplo (um filme de golpe super sci-fi), ou de Onze Homens e um Segredo, À Beira do Abismo não segue a cartilha de ir apresentando os personagens responsáveis pelo golpe e seus papéis, tendo quase sempre um novato na equipe (que representa o espectador), para o qual tudo precisa ser explicado. De fato, o filme começa e você tem poucas pistas: conhecemos o personagem principal, Nick Cassidy (Sam "Avatar" Worthington), que se hospeda em um luxuoso hotel, abre uma janela e sai do quarto, ficando na beirada do parapeito no prédio. Através de um flashback, ficamos sabendo também que ele é um ex-policial que foi condenado a 25 anos de prisão e que conseguiu escapar da prisão quando obteve permissão de sair para ir ao funeral do pai. Volta para o momento presente, quando uma multidão se aglomera para ver o homem "à beira do abismo", como sugere o exagerado título nacional. A polícia chega, e Nick pede especificamente para falar com a policial Lydia Mercer (Elizabeth Banks), especializada nesse tipo de negociação (de potenciais suicidas).
A partir daí, o filme se desenrola, revelando aos poucos os seus personagens importantes e a história que levou a essa situação, bem como qual é o golpe, afinal. Dirigido pelo estreante Asger Leth (que só havia feito um documentário até então) e escrito por Pablo F. Fenjves (vindo de filmes de TV), À Beira do Abismo sente uma certa imaturidade, mas nada que estrague completamente a diversão. O filme apresenta algumas boas reviravoltas (como é no caso do irmão de Nick, Joey Cassidy, interpretado por Jamie Bell, o menino bailarino de Billy Elliot) e algumas que são bem forçadas (como o caso do pai de Nick). Aliás, algumas coisas são tão desnecessárias que acabam ficando bobas, como é o caso das cenas da repórter.
Apesar disso, À Beira do Abismo é um filme potencialmente divertido. O alívio cômico na forma das discussões de Joey e sua namorada Angie (Genesis Rodriguez) durante o golpe são tão absurdas que são engraçadas. Além disso, mesmo que sejam cenas totalmente gratuitas (que nos animes é chamado de fan service), as cenas em que Angie mostra seus dotes latinos são ótimas. Longe de mim, reclamar da linda Genesis Rodriguez de lingerie, se enfiando numa roupa de couro/látex. Voltando a falar de atuações, mais especificamente, destaque para Ed Harris, que mesmo caricato, garante bons momentos como o vilão "do mal".
Com cenas de suspense e ação nada inovadoras, mas bem feitas (como por exemplo, aquele velho clichê da gota quase caindo e pondo tudo a perder, já vista em desde Missão Impossível quanto em Homem-Aranha), a primeira grande cena de ação de À Beira do Abismo poderia retratar bem o filme. A cena em questão é a da fuga no cemitério, em que o personagem de Worthington rouba um carro e foge pelo cemitério, conseguindo sair dali e no final, sendo parcialmente atingido por um trem. A cena em si é bem convencional, mas o final dela (o trem atingindo a traseira do carro quando ele está tentando atravessar os trilhos para despitar os policiais) é bem supreendente. E assim é o filme, com cenas convencionais com algumas boas reviravoltas. Mas isso, se você não leu esse texto e nem viu o trailer que eu vou colocar aqui no final. Eu avisei...
Antes de mais nada, uma explicação. Apesar de também estar na seção de rapidinhas de cinema, o filme dinamarquês Tudo Ficará Bem (cujo nome original é um verdadeiro trava-língua para nós: Alting bliver godt igen) é tão bom que merece um post mais detalhado. Mas, sendo um suspense (com altos toques de drama), ouvir muita coisa sobre o filme é, de certa forma, estragar a surpresa de descobri-lo (coisa válida para qualquer filme, mas em especial sobre os suspenses). Portanto, apesar de tentar não dar spoilers em nenhuma parte, dividirei esse texto em duas partes. A primeira só com o básico da história, e em seguida, impressões mais detalhadas (que você deveria ler só depois de ver o filme).
De qualquer maneira, fica a minha recomendação máxima: se você ainda não viu, vá ver o filme. De preferência, no cinema. (Aqui em Florianópolis ainda dá tempo de ver até quinta no Paradigma Cine Arte.)
Tudo Ficará Bem é sobre o escritor e diretor de cinema Jacob Falk (Jens Albinus), um dinamarquês obcecado pelas próprias histórias que cria. Sofrendo pressões do produtor de seu filme para terminar o roteiro do seu último filme, e da mulher para aprontar todos os preparativos para uma tão esperada adoção de um filho, Jacob um dia ao voltar para casa de madrugada acaba atropelando Ali (Igor Radosavljevic), que lhe entrega uma bolsa que carregava. Nesta bolsa, Jacob descobre fotos de prisioneiros de guerra sendo torturados por soldados dinamarqueses. Ao tentar fazer algo com essas fotos, Jacob se vê envolto numa rede de paranóia e possíveis conspirações que podem se mostrar muito perigosa, tanto para ele quanto para sua esposa Helena (Marijana Jankovic).
Tudo Ficará Bem tem excelentes atuações, com destaque especial a Albinus. Seu personagem principal é humano, e transparece na tela o seu sofrimento conforme o filme progride. Outros aspectos técnicos, como fotografia e som, também exercem bem os seus papéis, em especial o uso da fotografia, que discutei mais abaixo.
Se eu fosse resumir Tudo Ficará Bem em uma palavra, essa palavra seria: veja. Particularmente, achei Tudo Ficará Bem uma grande surpresa do cinema dinamarquês. Uma grande e grata surpresa.
Trailer:
A partir daqui você deveria ler só se já viu o filme...
Tudo Ficará Bem que mistura suspense, conspirações e uma boa dose de drama. Muito drama, na verdade, mas cuja carga só é realmente notável no final, ao vermos a virada no roteiro, o plot twist com o grande flashback. É interessante notar que até esse ponto, o filme é muito mais um thriller de suspense-político-conspiracional do que propriamente um drama.
O diretor e roteirista Christoffer Boe consegue conduzir o filme muito bem, até um ponto em que parece a trama vai se resolver (com possíveis consequências nefastas, em se tratando de uma grande conspiração). Entretanto, é neste momento em que temos o plot twist, mudando o rumo do filme. Talvez algumas pessoas se chateiem com isso, mas ao se analisar toda a projeção até o momento, vemos que fomos iludidos habilmente, sem que o roteiro tenha cometido alguma aberração estilo deus ex machina (a famosa "forçada de barra").
Ao dividir a linha de história de Christoffer Boe em duas, mostrando ao mesmo tempo Jacob tentando fazer algo com as fotos comprometedoras e a história de Ali, que as tirou fugindo de um agente do governo, o filme nos leva a crer que essa segunda linha, a de Ali, se trata de flashbacks. E eis a genialidade do filme, nada indica eles serem flashbacks, mas somos levados a pensar isso. De fato, aparecem dicas de que não são flashbacks, sendo flash-imaginations (trademark meu, please). No começo do filme, a abertura se dá mostrando diversas maquetes em branco com alguns personagens em preto, com que Jacob simula/cria suas histórias. A chave aqui são as maquetes. No decorrer do filme, em alguns planos gerais de estabelecimento do local (ou establishing shots), como o apartamento de Ali, o diretor usa a técnica de tilt-shif, fazendo com que os cenários pareçam maquetes. Assim, o diretor nos dá a dica de que aquilo na verdade, se passa não na realidade, mas na maquete (ou seja, na cabeça do protagonista Jacob).
Não bastasse o toque visual, o roteiro também nos fornece pistas do que acontece. Uma frase, em particular, me chamou a atenção, mais pela beleza e filosofia das suas palavras do que por desconfiar da realidade, mas que se mostrou totalmente pertinente depois. Em uma cena com a mulher, Jacob diz a ela algo como "Você sabe que é a mulher dos meus sonhos?". E eis que ela, meigamente responde "O que acontece quando você acorda?" Destaque também para a encarnação do agente que perseguia Ali, na figura do funcionário público que errou no documento de adoção do casal.
Se você souber dinamarquês, esse trailer é mais legal (mas não tem legendas...):
Faz tempo que não escrevo sobre filmes por aqui. Não é por falta de material, já que tenho visto bastante filmes (e frequentado bastante o Paradigma Cine Arte, vendo uns filmes mais alternativos). O problema é mesmo a falta de tempo e motivação. Por isso, em vez de longos textos sobre um filme, começarei com a sessão rapidinhas, com comentários menos aprofundados. E pra estrear essa série, nada melhor que um filme raso como Apollo 18 - A Missão Proibida.
Quando vi a sinopse do filme, achei que poderia render alguma coisa interessante. Afinal, era uma mistura de ficção científica com suspense, envolvendo conspirações e visual mockumentary (em que o filme é tratado como se fosse um documentário, com supostas "imagens reais"). Infelizmente, o resultado final é fraco, inverossímil ao extremo e sem grandes surpresas. Uma pena.
A história de Apollo 18 - A Missão Proibida é a seguinte: o programa Apollo, que levou o homem à lua, foi descontinuado na missão 17, oficialmente por problemas de orçamento. Mas na realidade (do filme, pelo menos) o que ocasionou essa parada foi a descoberta de algo letal na superfície lunar. E já adianto aos ufólogos/entusiastas de plantão que não foi uma base Gray. (Ou seria dos reptilianos? Nunca sei ao certo...) Voltando ao filme, três astronautas são escalados para ir na tal missão Apollo 18, financiada pelo Departamento de Defesa Americano e que instala câmeras por toda a cápsula e nave, além de dar câmeras pros astronautas fazerem os filminhos caseiros mais caros da história. E claro que chegando na Lua, tudo desanda, mas paro por aqui, caso alguém seja corajoso de ver o filme.
E quando digo ter coragem pra assistir o filme, não é porque ele dá medo. O que dá medo é pagar o preço do ingresso pra ver um Bruxa de Blair misturado com Atividade Paranormal espacial. Apesar do filme martelar que as imagens são supostamente reais, não se explica em nenhum momento como elas foram parar nas salas de cinema (tudo que é dito é que foram colocadas em um misterioso site). O que realmente não faz sentido algum, se você ver o filme até o fim. E essas supostas "filmagens reais" ficam ainda mais risíveis ao vermos câmeras automáticas dando zoom em algumas cenas, enfocando detalhes. Coisa que certamente exigiria algum operador (e ninguém me diga que eram operadas da Terra, já que o pessoal mal conseguia fazer funcionar um rádio). Particularmente, acho que o filme seria bem melhor se não quisesse passar esse ar de mockumentary (que geralmente é usado pra economizar uma graninha).
O roteiro de Brian Miller até consegue criar um pouco de suspense, colocando russos na lua (suspensão de crença level max, por favor) e fazendo-os desaparecer. Mas a partir do momento em que a ameaça lunar se revela de maneira escancarada, qualquer clima de apreensão se vai. Se bem que o final do filme realmente é uma surpresa, se você espera algo que faça sentido...
Dirigido por Gonzalo López-Gallego, Apollo 18 - A Missão Proibida parte de uma premissa interessante, mas é tão irreal que é até uma ironia o seu formato ser um de mockumentary.
Sabe aqueles trabalhos de escola, em que o grupo ou turma toda tem que fazer um vídeo pra apresentar (geralmente em uma feira ou festival)? Mesmo que hoje tenhamos alguns trabalhos excelentes como alguns lipdubs recentes colocados na internet, a imensa maioria desses trabalhos é sofrível, seja pela inexperiência dos envolvidos, seja pelo limitadíssimo orçamento, geralmente pelos dois motivos. Mas, mesmo sendo o resultado tosco, ele sem dúvida foi fruto de muito trabalho, e todos os envolvidos sentem grande orgulho de terem feito parte dele, ficando cegos para os problemas dele. De certa forma, ao ver o filme catarinense (assim anunciado com orgulho), A Antropóloga, senti como se estivesse vendo um trabalho escolar como descrevi: ruim, mas com ardorosos fãs e defensores (que assim o são por paixão, coisa irracional, note-se bem!).
Rodado em Florianópolis, A Antropóloga talvez (e esse é um grande talvez) agrade aos nativos da ilha de Santa Catarina, sobretudo por levar à telona, coisas tão familiares a eles, como suas paisagens, costumes, lendas, crendices e o sotaque. Entretanto, quem procura um bom filme, independente da paixão por onde nasceu, não vai sentir a mesma afeição.
A Antropóloga do título é Malú (Larissa Bracher). Portuguesa, ela pesquisa sobre a cultura local de ervas medicinais nos lugares onde os imigrantes açorianos (habitantes de um arquipélago de Portugal, com uma cultura bem característica), se estabeleceram. Nessa sua pesquisa, ela vem parar em Florianópolis, onde se instala na Costa da Lagoa, um lugar onde o mato (ou se você for ecologicamente chato preferir, onde a natureza) é abundante e as pessoas vivem como se vivessem em vilas de muitos anos atrás. Neste fim de mundo, Malú aluga uma casa (com direito a uma vergonhosa cena em que ela arranca a placa de "aluga-se" como se estivesse num filme americano dos anos 80), ao lado da casa onde mora a menina Carolina (Rafaela Rocha de Barcelos), uma criança diagnosticada com câncer no cérebro (presumivelmente sem chance de cura, já que o pai dela - um médico - não a mantém no hospital). Entretanto, as crises que Carolina enfrenta melhoram quando a benzedeira da região Dona Ritinha (Sandra Ouriques) a trata com ervas e rezas. Malú se envolve cada vez mais com seus vizinhos e com Dona Ritinha, que a princípio ela entrevista sobre ervas, mas vai entrando cada vez mais no mundo sobrenatural da cultura local, que envolve as famosas bruxas da cidade, magia e até - pasmen! - lobisomens.
A Antropóloga é um filme irregular. O filme começa como um filme de gênero, o do suspense sobrenatural mais sério, mas no final, ele se volta para o surreal, como bem ilustra uma das cenas finais, em que um barqueiro sobe aos céus em direção a lua. O desenvolvimento da história como um todo é tão ridícula, que talvez o diretor Zeca Nunes Pires tenha tomado consciência desse fato e decidido terminar o longa como um filme que brinca com o sobrenatural de forma leve e surreal. Entretanto, essa opção não se mostra muito acertada, destoando do resto da película e parecendo mais uma desculpa do diretor para o quão ridícula foi a condução da história até o momento. Tivesse sido feita essa opção desde o início, talvez (e esse é também um grande talvez) fosse melhor sucedido.
Mesmo quando A Antropóloga tenta criar um clima de suspense/terror sobrenatural, o filme deixa muito a desejar. A impressão é que voltamos aos anos 80. Além da trilha sonora instrumental que é a cara de filmes de terror dos anos 80 (estilo as milhares de continuações de Sexta-Feira 13), o diretor ainda nos brinda com diversas cenas em que a câmera emula o ponto de vista do "assassino". Sabe quando a câmera foca o personagem como se fosse a visão do assassino, estando o personagem dentro de casa e a câmera fora, filmando pela janela, ou com o personagem andando por uma trilha e a câmera atrás de algum mato "se escondendo"? Esse enquadramento, que é característico de filmes de terror dos anos 80 de filmes de assassino (lembram-se do Jason ou Michael Myers?), é também usado em A Antropóloga diversas vezes, sobretudo quando Malú caminha no mato (ok, ou natureza selvagem). Entretanto, se esse tipo de enquadramento serve para causar expectativa ou suspense (afinal, presume-se que o assassino esteja vendo a mocinha), dada a natureza da história, esse contexto se perde totalmente. Afinal, a bruxa má (o "assassino" do filme) não ataca ninguém, exceto a menina Carolina. Porém, mesmo esses "ataques" não causam medo, pois são apenas desmaios, como se a bruxa estivesse "sugando a alma" da menina, de maneira invisível. Com ataques assim, é fácil entender como somente uma benzedeira acreditaria em bruxas sugadoras de almas. Por isso, o roteiro faz com que Malú tenha outras experiências sobrenaturais para que ela se convença do misticismo e da magia, e que culmina com uma desfecho do porquê dela estar ali um tanto difícil de engolir, que envolve maldições e reencarnações.
Definitivamente, o roteiro de A Antropóloga não é o seu forte. Além dos mistérios sobrenaturais serem muito mal conduzidos, os personagens são mal trabalhados. O pai de Carolina, por exemplo: apesar de ser médico e dizer não acreditar nessas magias, admite sem culpa nenhuma que as rezas da benzedeira fazem um bem muito grande a Carolina. Obviamente se contradizendo, o personagem até poderia ensaiar algo no sentido de sobrenatural x ciência, crença x ceticismo, mas a ele é relegado o papel de pai que corre quando a filha desmaia. Nem um eventual interesse romântico por Malú é desenvolvido (apesar de acontecer um flerte com o assunto, quando Carolina menciona como o pai olha para a casa de Malú). Ou tome como exemplo, ainda, a nora da benzedeira numa cena em que ela tem ciúmes de Malú. Uma única cena em que se demonstra uma possível linha, mas que é esquecida pelo resto do filme.
Além disso, o filme tem diversas cenas que não fazem sentido algum, a começar pela cena inicial, com uma grande explosão ou algo parecido. Outra cena desnecessária é quando a nora da benzedeira (que também trabalha tomando conta de Carolina) chega em casa e é "atacada" pelo marido sedento de sexo. Se a intenção era causar um suspense para depois apresentar o personagem, não funcionou. Outras cenas que são totalmente dispensáveis são as que envolvem os três góticos ou aspirantes a bruxos(as). São personagens introduzidos exclusivamente como alívio cômico (mas, infelizmente com pouquíssima graça), cujo único desenvolvimento se dá com o líder do trio, que inexplicavelmente se transforma no final em algo muito mais convencional. Na minha opinião, foram personagens mal trabalhados que apenas tentam fazer uma gracinha ou outra, mas que só servem para criarem uma linha paralela à história principal, linha esta que não acrescenta em nada.
A Antropóloga não é um filme milionário, e por isso, limitações técnicas e orçamentárias são normais. Entretanto, se o diretor de fotografia consegue extrair boas imagens usando muita luz natural, e mesmo a falta de luz, como na cena em que sombras dançam à luz de fogueira no ritual de bruxas, ou nas cenas na floresta, que visualmente são bacanas, o diretor parece não saber como usar eficientemente a câmera. Além do já citado POV (ponto de vista) do "assassino", o diretor usa muita câmera na mão onde o plano exigiria algo mais suave. A câmera na mão dá um ar de ação, de pressa à cena, o que é o oposto do que se vê no enquadramento. Isso nota-se facilmente na sequência do encontro entre Malú e o velho Delano, onde a câmera na mão acaba tremendo a imagem (pouco, é verdade, mérito do cinegrafista). Esse ponto, entretanto, pode ter sido por causa do orçamento, uma vez que montar e levar o aparato em locação (e a locação é no meio do mato, ops, natureza selvagem), não é simples. De qualquer modo, é válido deixar o registro.
A fotografia não é o único ponto positivo de A Antropóloga. Apesar do elenco como um todo variar na qualidade da interpretação, pelo menos os protagonistas entregam boas atuações. Destaque para Larissa Bracher, que faz o que pode com sua personagem, apesar do roteiro, e da menina Rafaela Rocha de Barcelos, que se ainda não é nenhuma gênia atuando, parece que tem sim, um caminho bom a trilhar. Os depoimentos de idosos e anciãos, explicando parte da sua sabedoria milenar é outro ponto interessante por si só. Quero dizer que as tomadas dos depoimentos de "pessoas reais" são interessantes, e um documentário nesse estilo não seria nada mal. Entretanto, o ar documental dessas entrevistas inseridas no meio deste filme não ajudam no ritmo, bem como soam um tanto deslocadas. Isso acaba tirando um pouco o espectador de dentro do filme, ao mostrar algo muito real para em seguida colocá-lo de volta na ficção, até porque até a câmera e fotografia se alteram nessas cenas de entrevistas.
Apesar de muito se dizer que A Antropóloga é um filme como Rio, no sentido de que vende uma imagem interessante da cidade para turistas, senti falta de uma certa "apadrinhagem". Sim, o filme abre com o tradicional plano mostrando o cartão postal da cidade, a ponte pênsil (que quer cair, mas não cai) Hercílio Luz. Sim, o cenário logo é deslocado para imagens da Costa da Lagoa, outro ponto belo da ilha (isso se você gostar de mato, natureza). Entretanto, faltou um ar mais didático no que concerne a algumas manifestações culturais locais, como a festa em que o velho Delano aparece pela segunda vez para Malú. Não seria uma desculpa esfarrapada do roteirista colocar alguém pra explicar a Malú todo o ritual e significado da festa, uma vez que ela é uma antropóloga, não é? Isso reforça o ar bairrista do filme, cujo foco está em mostrar as coisas da cidade, mas pra quem já é da cidade.
Enfim, A Antropóloga é um filme com muitos problemas. Desde o roteiro até a execução. Poderia ser melhor se fosse mais focado, e não uma mistura mal feita de suspense, terror, sobrenatural, drama e tentativas frustradas de comédia (aliás, risadas mesmo só involuntárias, de certas cenas de vergonha alheia pura, como a dancinha da bruxa). Pode ter sido um filme que tenha dado trabalho, um filme cujos realizadores colocaram muito esforço. Mas infelizmente, na vida real, isso nem sempre basta pra um bom produto final.
Uma das falas clássicas da história de Chapeuzinho Vermelho é aquela em que a garota questiona o lobo travestido de avó: "Que olhos grandes você tem, vovó. É pra te ver melhor. Que nariz grande você tem, vovó. É para te cheirar melhor", e assim por diante. Nesta versão contemporânea do conto de Chapeuzinho feito para os cinemas, A Garota da Capa Vermelha (ou Red Riding Hood no original), alguém poderia dizer ao espectador: "Que saco enorme você tem". E ele responderia: "Tem que ter, pra aguentar a encheção que é esse filme". Na melhor das hipóteses, é um filme equivocado. Muito equivocado.
A Garota da Capa Vermelha é Valerie (Amanda Seyfried), uma camponesa que vive num vilarejo na borda de uma floresta muito mal encarada. Ela nutre paixão (correspondida) pelo pobre lenhador Peter (Shiloh Fernandez), mas acaba sendo prometida para Henry (Max Irons), que tem condições financeiras melhores, se bem que ele não é o que se chamaria de rico hoje em dia, sendo um ferreiro no vilarejo. Vilarejo este, que além de tudo, mantém uma relação íntima com um lobisomen que toda lua cheia exige o sacrifício de alguns animais. Valerie e Peter tencionam fugir do vilarejo, mas os planos são interrompidos quando o lobisomen faz de vítima, a irmã de Valerie. A partir daí temos uma trama que mistura dramalhões dignos de novelas mexicanas (traição, meio irmãos, quase incestos, etc.) com o mistério de "quem será o lobisomen".
A Garota da Capa Vermelha talvez agrade pré-adolescentes femininas de todas as idades. As comparações com Crepúsculo são inevitáveis. A diretora Catherine Hardwicke, que também dirigiu o primeiro filme da citada "saga", não se esforça nem um pouco para diferenciar este filme da sua "inspiração" vampiresca. Aliás, se neste filme temos a falta de fadas (aquelas voam pela floresta e brilham ao sol), o mesmo não se pode dizer do resto. Temos uma jovem frágil e romântica que se vê no meio de um turbilhão sobrenatural, ao mesmo tempo em que é disputada por dois jovens apaixonados por ela. E, claro, não falta também o contexto de castidade e pureza da personagem principal, que de certa forma, se torna hilário ao perceber como a diretora trabalha o tema, por diversas vezes deixando o casal quase tocando os lábios, só pra interromper o beijo por algum evento inesperado. Isso, claro, até a cena toda errada da comemoração pela falsa captura do lobo, em que finalmente vemos um beijo.
Aliás, toda essa cena da comemoração é um grande equívoco. Comemorando a falsa captura do lobo, a vila se transforma num circo pagão, em que pra uma orgia só faltou o sexo mesmo. A câmera vai e volta filmando por cima, oferecendo um espetáculo caricato e de alta vergonha alheia. Talvez seja apenas a minha mente suja (não acredito), mas tem uma hora em que Valerie começa a dançar com uma amiga, pra deixar Peter enciumado ou enfezado, ou o que quer que tenha passado na cabeça do roteirista David Johnson. O que tem de errado na cena? Tudo. A insinuação lésbica, a motivação dos personagens em fazer isso, o desenrolar da cena. É um mix de coisas que até podem ter parecido boas ideias (se você está bêbado) individualmente, mas que é tão idiota e sem sentido junto...
Outra coisa que não agrada em A Garota da Capa Vermelha é a quantidade de clichês "dramáticos" e de "romance". Só nos quinze minutos iniciais da trama, já vemos a mocinha apaixonada que é prometida para outro, a mãe que convence o amor verdadeiro a deixar a mocinha se casar com o outro pra ter uma vida melhor e o mocinho dispensando a mocinha pro "bem" dela. Sim, tudo isso acontece nos primeiros minutos de projeção, e não acaba por aí. Muitas traições e revelações ainda estão por vir, numa trama que faz do filme uma autêntica novela mexicana. E claro, não falta no final a união dos mocinhos, Peter e Henry, pra tentar resgatar Valerie, deixando as diferenças entre eles de lado. Sim, feito pra menininhas suspirarem.
Além do roteiro ser carregado de clichês, ele é carregado de coisas sem sentido e sem explicação. Tome por exemplo, tudo o que envolve o padre Solomon, caçador de lobisomens e outros monstros vivido por Gary Oldman. Pra começar, o padre chega carregando dois filhos na carruagem e contando histórias da mulher morta. Ok, suponhamos que ele tenha se tornado padre depois da morte da esposa. Ainda assim não explica o fato de alguns de seus guerreiros serem negros. Na Idade Média, guerreiros negros lutando pela Igreja. Er... Será que o casting do filme tinha cotas? Ou eu estou perdendo algum momento histórico? E como explicar o elefante que o padre Solomon usa para torturar suas testemunhas? Não sou perito em aparelhos de torturas medievais indianas (pois os adereços no elefante sugerem essa origem), mas creio que isso seja muito WTF. Tanto quanto as reações do povo do vilarejo, que uma hora tratam Valerie como uma bruxa dos infernos e na outra, a protegem. Tudo bem que com razão, mas convenhamos, multidões não são conhecidas por usarem a cabeça.
A Garota da Capa Vermelha até tem um elenco razoável, mas nem o melhor elenco do mundo salva um filme desses. Gary Oldman deve ter pego gosto por fazer vilões exagerados (vide o anterior O Livro de Eli), mas o caricato se encaixa bem neste filme. Tentativas mais sérias, como a própria protagonista de Seyfried, soam deslocadas no clima caricatural do filme.
Soando caricato e falso, com vários planos que mais parecem um teatro (devido ao cenário totalmente irreal e que lhe passa isso na cara), A Garota da Capa Vermelha tem não só um texto ruim, mas uma direção sem muita direção. Se esforçando para parecer sério, mas mostrando visualmente o contrário, como na floresta com árvores espinhudas de um falsidade ímpar, o filme só não espanta os espectadores usando a artimanha do mistério de "quem é o assassino", no caso, "quem é o lobisomen". Mesmo assim, é muito fraco, e as explicações no final são de dar vergonha alheia. Sério.
Usando do artifício do "sonho vívido/profético da personagem principal" para conseguir encaixar as famosas frases do diálogo entre Chapeuzinho e Lobo disfarçado, A Garota da Capa Vermelha é uma tentativa frustrada de revitalizar ou "modernizar" o conto do secular imortalizado pelos irmãos Grimm. O melhor mesmo era ter deixado tudo como estava.
Um filme que critica de maneira irônica e divertida (sem apelar para o escracho total), todos os clichês de um gênero do qual ele mesmo faz parte (e nesse processo, fazendo uma autocrítica), não pode ser de todo o mal. Pânico 4 (ou no original, Scream 4) é isso: uma ironia do começo ao fim.
A série Pânico nunca se levou muito a sério como filme de terror. Com certeza haviam as mortes, o(s) vilão(ões) assassino(s) ghostface e o suspense de ver quem seria o próximo personagem a bater as botas. Mas Pânico assumia também o lado cômico desse tipo de terror adolescente, seja usando de metalinguagem com um nerd explicando "as regras" para se sobreviver num filme de terror, seja usando humor físico ao fazer as personagens darem verdadeiros balés ao fugirem das estocadas do assassino atrapalhado (mas que no final, acertava o alvo). Pânico 4 abandona um pouco o humor físico (o assassino agora, paradoxalmente com o final, está mais atlético), mas continua abusando, e muito, da metalinguagem, seja ao enfatizar tanto "as novas regras", seja ao brincar com o filme dentro do filme, numa abertura que traz um aspecto meio Inception (recursivo) e que é, de longe, a melhor sequência do filme.
Pânico 4 se passa muitos anos depois dos eventos do terceiro filme. Os personagens principais já estão bem mais velhos, Dewey (David Arquette) agora é xerife, por exemplo, e sua esposa Gale (Courteney Cox) envelheceu mal, tanto pelo lado profissional (não conseguindo mais escrever) quanto pelo lado físico (o botox de Courteney Cox a deixou horrível). Sidney (Neve Campbell) querendo se livrar da estigma de eterna vítima e perseguida (!) por assassinos, escreveu um livro sobre o tema, e volta à boa e velha cidadezinha de Woodsboro numa turnê para divulgar o seu livro de auto-ajuda, bem no aniversário dos primeiros eventos ocorridos. O que ela não esperava é que um novo assassino de adolescentes está a solta, e ele parece mirar no círculo de conhecidos da prima de Sidney, Jill (Emma Roberts, a linda sobrinha da mulher Julia Roberts), que tem como melhores amigas Kirby (Hayden Panettiere, a eterna cheerleader) e Olivia (Marielle Jaffe).
O elenco de Pânico 4 é enorme, e formado por muitos rostos conhecidos da televisão, por isso, não vou citar todos. Se bem que eles são irrelevantes pra trama, sendo mais um "bônus" pro espectador (nerd), porque no filme servem mesmo de número e de vítimas para o assassino da vez. E se você pensou que com os protagonistas seria diferente, se enganou. O trio (formado pelos sobreviventes dos filmes anteriores) pouco se desenvolve. (Talvez pelo roteirista Kevin Williamson achar que o que eles tinham que se desenvolver, já foi feito nos outros filmes?) O fato é que apenas o casal Gale e Dewey tem algo a mais, que é a crise no casamento deles, mas é algo tão mal explorado que a gente facilmente se esquece disso. O interessante é que o foco maior da projeção fica com os novos personagens adolescentes, mas que apesar de ganharem bastante tempo em tela, são unidimensionais como personagens (tem o clichê do nerd, da gostosinha, do jogador de futebol americano...)
Mesmo que este seja o quarto filme da franquia, como os próprios personagens se dão conta (depois da providencial explicação dos nerds de filmes de terror), Pânico 4 é como se fosse uma refilmagem do primeiro. O que não é nenhuma surpresa nesta época em que Hollywood só recicla ideias, coisa que até mesmo o personagem no filme critica. (Uma auto-meta-crítica?) Nesse contexto, esqueça todo o marketingo do filme: a década mudou, mas as regras continuam as mesmas.
O lado bom disso é que Pânico 4 traz algo de nostálgico e familiar pra quem assistiu os primeiros com pipoca e refrigerante, e rindo muito com os amigos do lado. Além da familiaridade de ver os personagens principais reunidos novamente (mesmo que seja meio assustador o visual de Courteney Botox, quero dizer, Cox), as mortes absurdas também têm um certo gosto de nostalgia e graça (do absurdo). Ou vai me dizer que o assassino cravar uma faca na testa de alguém não é, de certa maneira, engraçado? (Só pra constar, na vida real pra pessoa fazer isso, e depois ainda tirar a faca cravada até o fundo, o cara tem que ter uma força de Jason.) E pior ainda, a vítima ainda dá uns passos depois disso. (Não é à toa que quem interpreta essa vítima é um comediante.)
Enfim, Wes Craven, o diretor de todos os Pânico, fez em Pânico 4 uma refilmagem do original, atualizando um ou outro elemento temporal, como a presença massiva de celulares e facebook, hoje em dia, por exemplo, ou com o fato de que agora ser famoso não é ter um livro escrito sobre você, mas aparecer em vídeo na internet (Rebecca e seu Friday, que o diga). É um filme razoável, legal se você curtiu os três primeiros e se gosta de um terrir com metalinguagem. Mas, como uma personagem mesmo fala no filme, "uma refilmagem nunca supera o original", o que é autocrítico e irônico, mas ao mesmo tempo, de certa forma covarde, como se os autores estivessem se desculpando a priori. Irônico é que não precisava.
Pessoalmente, creio que filmes sejam como histórias, que podem ser divididas em dois aspectos básicos. Cada um desses aspectos responde a uma pergunta. O que contar? E como contar? (Talvez ainda coubesse uma terceira pergunta, por que contar?, mas aí entraríamos na discussão da motivação do artista, o que é sempre algo complicado e que ultrapassa o limite da obra em si). Bem, o novo filme do premiado e cabeça diretor Darren Aronofsky, Cisne Negro (ou Black Swan no original), responde à questão do "como?" maravilhosamente bem, o que esconde um enredo (o "o que?") apenas OK.
Então, comecemos pelo o que o filme nos conta. Natalie Portman é Nina, uma bailarina já há alguns anos, que vê na aposentadoria forçada da primeira bailarina do seu grupo Beth (Winona Ryder), a chance de ascender. Mas para isso, ela deve conseguir o papel principal da nova montagem do diretor Thomas (o ator Vincent Cassel, que bem poderia interpretar o Caco Barcelos). Thomas pretende montar o clássico O Lago dos Cisnes, com apenas uma bailarina interpretando o papel principal, de rainha cisne, que incorpora tanto o cisne negro quanto o branco da história original (leia mais sobre a história da peça no link da wikipedia).
Entretanto, para Nina, o papel apresenta dificuldades, pois apesar dela ser inicialmente a personificação do cisne branco, com atributos como pureza, inocência e castidade, sempre procurando alcançar o que imagine ser a perfeição no balé, o papel de cisne negro exige uma lúxuria, uma volúpia espontânea, uma sensualidade natural e selvagem que não são naturais a ela. Nina mais parece uma bonequinha (e o físico de bailarina ajuda nesse sentido), envolta pela mãe super-protetora e ex-bailarina Erica (Barbara Hershey). Além da pressão pelo papel na peça, Nina ainda vê surgir Lily (Mila Kunis), uma bailarina que, se não tem a técnica apurada, lhe sobra espontaneidade e sensualidade na dança. Com tudo isso, Nina, que já não era a pessoa mais equilibrada do mundo, começa a surtar, criando em seu íntimo uma viagem à esquizofrenia, vendo e sentindo coisas que podem ou não ser realidade, despedaçando-se entre o branco e o negro (o que inevitavelmente leva a uma área cinzenta).
Essa dicotomia entre o preto e o branco, trevas e luz, dá o tom no filme. Aronofsky já nos mostra isso na primeira cena, em que uma câmera acompanha os pés e os passos de uma bailarina dançando num cenário escuro, com uma única fonte de luz marcando uma parte do chão. Nesta dança, a bailarina ora pende para o escuro, ora para a luz, até que a câmera, que estava focada apenas nos pés e sapatilhas, vai subindo até nos revelar a protagonista Nina. Reparem que, com uma única cena inicial, o diretor consegue vários feitos. Primeiro, ele além de nos revelar sobre o fio condutor da trama, o balé, nos revela o embate entre o branco (luz) e o preto (trevas) que se seguirá. Segundo, ele consegue nos apresenta a protagonista dançando, e o peso de mostrar a própria atriz bailando nos ajuda a imergir no universo do filme, afinal, quem está na tela acaba não sendo a atriz Natalie Portman, mas a bailarina Nina.
Reparem também nos figurinos de Cisne Negro, que reforçam essa dicotomia. Nina sempre usa roupas brancas ou claras (especialmente rosa), enquanto sua mãe, que representa de certa forma uma antagonista, usa sempre preto. Ou mesmo Lily, que na primeira cena que surge, no metrô, é quase um clone da personagem Lily (muito devido ao físico também), com exceção das roupas escuras. Essa caracterização serve perfeitamente à história, pois a personagem de Portman, até certo ponto, é a imagem estampada da pureza e virgindade (o que a torna meio chata também, como todo ser "perfeito" e puro).
Aliás, a caracterização dos personagens está excelente, claro que com destaque para Natalie Portman. Além de ter aprendido balé, sua atuação é surpreendente, não sendo à toa os prêmios que ela ganhou. As cenas com Thomas são ótimos exemplos da excelente atuação da atriz. Quando Nina vai a Thomas pedir para ser a escolhida, por exemplo, a caracterização da personagem já mostra uma certa falta de equilíbrio de Nina. Ao mesmo tempo em que se produz toda para esse encontro (claramente numa tentativa de sedução, mesmo que a maquiagem acabe ressaltando uma certa infantilidade, ao ser exagerada, como uma pessoa sem experiência para tal), suas atitudes são ingênuas, até inocentes. Seu tom de voz é quase um sussurro, seu físico pequeno e magro (ela emagrecera para o papel) a fazem parecer uma bonequinha frágil, e ela só consegue o papel por um rompante provocado por um Thomas "mal intencionado".
Se Cisne Negro tem em sua protagonista uma esmagadora atuação, os coadjuvantes não ficam atrás. Cassel vive um Thomas obcecado e perfeccionista, mesmo que o conceito de perfeição dele e de Nina não sejam os mesmos. Mila Kunis parece a vontade no papel, e mesmo a participação de Winona Ryder, bastante breve, é eficiente. Destaque também para Barbara Hershey como Erica, a mãe de Nina, que de maneira sutil, se mostra talvez não culpada, mas em parte responsável pela loucura da filha, tanto em termos de criação (numa bolha e sem privacidade nenhuma), quanto talvez em genética. E isso é acentuado pelo design de produção, ao mostrar o quarto dela na primeira vez.
A câmera e a fotografia de Cisne Negro são um deleite a parte. Pegue por exemplo, as cenas de dança, um pouco mais demoradas. A da introdução, a que já falei, por exemplo. A câmera se move com uma suavidade que não deixa de ser parecido com um balé. Além disso, ao se movimentar em volta e com os bailarinos, cria de certa forma, uma coreografia nova, ao interagir com a própria dança dos bailarinos, algo só possível no cinema (porque num teatro, a sua perspectiva da dança será sempre a mesma por estar sentado parado). E, como já disse, mesmo em movimento, a câmera é fluida, com poucos solavancos típicos de uma cena que deve ter sido gravada com a câmera na mão e não num apoio. Agora, compare isso com a mesma câmera na mão, quando ela segue de perto Nina, ao andar na rua, por exemplo, logo no início do filme, ao se dirigir para o balé. A câmera se posiciona logo atrás dela, mas o visual agora é mais tremido, com solavancos, colocando o espectador como que colado na atriz. De certa forma, isso deixa transparecer que iremos acompanhar de perto o que acontece com Nina (compartilhando de sua crescente loucura), mas de uma certa distância segura.
E isso acaba ficando claro em Cisne Negro, quando o filme mostra aqueles pequenos sustos, aquele clima de apreensão por não sabermos ao certo, o que se passa. São pequenos detalhes, como uma pintura que pisca para a personagem, ou a transformação momentânea dela maquiada em cisne negro num dos flashes da balada, por exemplo. O maior suspense, nesse tipo de filme, quando fica claro que a personagem está um tanto esquizofrênica, é saber o que é real e o que não é. Como esses pequenos sustos certamente não são reais (ou não!), o espectador não sente medo, o que é a distância segura dele, mas continua aquela apreensão ou angústia por saber o que, de fato, é real.
Ainda com relação à fotografia, vale citar o uso dos espelhos em cena. Uma constante para bailarinos que precisam ficar checando se o seu movimento está perfeito, os espelhos não apenas surgem nesse sentido, mas frequentemente de maneira simbólica (mesmo quando o objetivo imediato na tela seja de causar surpresa/espanto). O mais perceptível talvez seja quando os espelhos mostram várias imagens de Nina, seja no apartamento dela ao se preparar pra treinar (um conjunto de três espelhos), ou logo na entrada do apartamento, onde um espelho decorativo multifacetado mostra múltiplas faces. Com relação ao simbolismo dos espelhos, não me alongarei aqui, pois o crítico Pablo Villaça escreveu um ótimo texto sobre ele na a crítica no Cinema em Cena (para ler, de preferência, DEPOIS de ver o filme).
Outro ponto que merece destaque é o som do filme. Bem, a trilha sonora, baseada, claro, no trabalho de Tchaikovsky (o autor do balé O Lago dos Cisnes), mescla músicas do balé com outras, que, se meu ouvido não se engana (estou longe de ser um músico), são originais mas inspiradas nas do balé, como se fossem pequenas variações dessas. Outro aspecto relacionado é quanto ao som propriamente dito. Pequenos barulhos, como sussurros, pontuam o filme, reforçando o clima sombrio e de suspense, especialmente quando vemos que o "lado negro da força" começa a tomar maior forma.
Algo bastante comentado antes do lançamento de Cisne Negro (que creio que foi uma estratégia de marketing genial), foi a cena de sexo lésbico entre Portman e Kunis, (que eu só vi no cinema, não antes). Bem, a cena não é gratuita, ela faz sentido na narrativa, mas apesar das beldades envolvidas, não é tão sexy assim. Primeiro, porque não tem nada de explícito, e segundo, por causa do contexto no filme. É mais uma questão de raiva e outros sentimentos reprimidos que acabam se libertando (repare que nessa cena, Nina está vestida de preto, depois de pegar emprestada uma peça de roupa de Lily), do que apenas desejo sexual. Em termos visuais, acho a cena em que Portman se masturba muito mais sensual.
Tecnicamente impecável, Cisne Negro perde força apenas ao nos focarmos na sua história. O primeiro problema é que o filme é tratado como suspense (incluindo elementos clássicos do gênero, como alguns sustos providenciais, até mesmo um clichê de filme de terror com espelhos). Entretanto, se o alma do suspense é o mistério, o não saber, o filme se prejudica por nos avisar de antemão, que o problema está na cabeça da personagem (coisa que fica ainda mais óbvia se o trailer for visto antes). O segundo problema é que, uma vez que não há grande mistério, o suspense foca apenas em qual será a próxima mirabolante e simbólica peça a se apresentar. E a história fica realmente interessante apenas no como é apresentada.
Bem, talvez eu esteja esperando demais da humanidade (o que eu geralmente não faço), e o espectador médio consiga ficar preso ao suspense apresentado. Se for este o caso, infelizmente, o filme também não deve agradar às massas. Pontas soltas sem explicação são deixadas propositalmente, confundindo um pouco a cabeça dos espectadores. Não digo isso sem conhecimento de causa, pois algumas das reações que vi ao sair da sessão de cinema, demonstram claramente uma frustração nesse sentido. Uma pena, mas a verdade é que não apenas o espectador de cinema, mas o consumidor de mídia em geral tem ficado cada vez mais preguiçoso (de usar a cabeça e pensar).
Se alguém leu até aqui (o que creio que poucos tenham feito), talvez se lembre que eu disse no começo que Cisne Negro contava sua história de maneira excelente, muito acima da média, mas que a história em si, o enredo, era apenas bom. Talvez haja uma interpretação errada do que isso quer dizer, e é compreensível. Um bom enredo ainda é um bom enredo, mesmo sendo ele, apenas bom. E apenas bom só ganha conotação negativa se comparado a algo ótimo ou excelente. (Particularmente, uso a escala bom < ótimo < excelente.) Agora, junte a um bom enredo uma forma magnífica de compartilhá-lo. E temos uma excelente história. E um excelente filme.
O interessante é que, até o terço final do filme, Cisne Negro era para mim, como a personagem Nina. Impecavelmente perfeito, sim, do ponto de vista técnico, mas ainda assim, sem conseguir me seduzir. E, assim como Nina consegue incorporar o cisne negro (se eu disser literalmente, não será mentira), o filme também consegue seduzir conforme ele vai passando. Algo que é simplesmente genial, senhor Aronofsky.