2013-06-15

Conto: No ponto de ônibus

No ponto de ônibus

ponto de ônibus

Era um desses típicos dias de outono daquele tempo. No relógio, a hora marcava um final de tarde, mas o tempo nublado, que assim permanecia desde a manhã, já tornava o céu noturno. Saí de um cinema e me dirigi a um ponto de ônibus. O local era envolto por sombras, graças a combinação de luz fraca do alto de um poste, das folhas já caindo de uma das poucas árvores da rua e da cobertura do ponto de ônibus.

Aquela era uma rua de mão dupla. Do outro lado, a poucos metros, quase em frente ao ponto em que eu me encontrava, havia outro ponto. Mais iluminado, mas mesmo assim, escuro.

Sentei-me no banco do ponto, para esperar o ônibus. Do outro lado da rua, notei uma mulher sentada no banco, fazendo o mesmo que eu: esperando a sua condução. Por causa da pouca iluminação e da minha natural dificuldade em enxergar na penumbra, não consegui distinguir seus traços. Como uma foto tirada contra o sol, enxergava quase apenas a sua silhueta.

Em dias de semana, a espera no ponto de ônibus pode encher uma pessoa de angústia ou até mesmo, uma certa adrenalina. O medo de perder o ônibus correto, a pressa de se chegar ao destino o mais rápido possível, a batalha velada entre os passageiros para entrar no veículo e se acomodar da maneira possível... Tudo isso se desvanece nos fins de semana, onde a quantidade de pessoas circulando é bem menor, assim como a pressa, e os ônibus demoram a passar.

E aquele era um fim de semana. E eu memorizara o horário do ônibus, que ainda demoraria a passar por ali. Assim, sem ter o que fazer, meus olhos repousaram sobre a mulher sentada no ponto de ônibus quase em frente ao meu.

Quem seria ela? Para onde estaria indo? Estaria ela fugindo de casa? Correndo em direção a um amante secreto? Indo a uma festa? Sem nada melhor para pensar, comecei a inventar histórias e possibilidades para a jovem moça.

Sim, através da luz fugidia dos faróis dos carros que passavam, consegui distinguir alguns poucos traços da mulher. Jovem, loira, cabelos longos e um corpo normal, usava um jeans clássico e uma blusa vermelha, com um decote que não era generoso, mostrando apenas a parte superior do seu colo. Mas o que mais me chamou a atenção ali se encontrava logo abaixo do seu pescoço.

Logo acima do limite do decote, algo brilhava. Pendurado numa corrente, algo refletia a pouca luz que iluminava o ponto. Algum brilhante, ou o mais provável, alguma bijuteria ou adorno metálico, era como se uma distante estrela escondida pelas nuvens houvesse escapado e começado a brilhar no colo daquela mulher. Conforme o objeto virava, conforme a luz dos faróis passantes refletia, era como se aquele ponto ganhasse vida numa estrela terrena.

Não era como se eu estivesse ali me apaixonando ou algo do gênero, mas a memória do personagem de Jim Carrey em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, me tomou a cabeça, quando ele está num café e observando a personagem da Kate Winslet, ele escreve em seu diário: "Por que me apaixono por todas as mulheres que vejo que me dão um mínimo de atenção?". Obviamente, não era o caso ali, pois ela nem mesmo devia me enxergar, já que o meu ponto de ônibus estava envolto em ainda mais escuridão.

Fiquei ali absorto alguns minutos, olhando aquele ponto brilhante, até que um cão de rua me chamou a atenção quando quase foi atropelado e se ouviu alto o barulho de pneus freando, mais a minha esquerda.

Voltei a olhar para o ponto de ônibus quase em frente ao meu, mas agora um ônibus estava na minha frente. E quando ele seguiu, não havia mais ninguém no ponto.

Empertiguei-me no banco e suspirei, pensando no quanto ainda teria que esperar.

2 comments:

CintiaYamane said...

aaai, tadinho do cachorro... ele está bem?
aah eu achei que fosse um conto de terror, pela maneira que tinha comecado.. XD

Andarilho said...

O cachorro só existe na minha imaginação. Então ele morreu. XD

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