2012-02-11

Filme: J. Edgar

Geralmente conhecemos J. Edgar Hoover, o famoso diretor do FBI, que por décadas se manteve no poder e que detinha muitos segredos, apenas pela sua fama. Uma fama quase sempre nada boa, diga-se de passagem: paranóico, obstinado, chantageador, conhecedor de incontáveis segredos e que não tinha escrúpulos em usá-los e nem como consegui-los... Enfim, um belo de um fdp. Esta sua cinebiografia, J. Edgar, dirigida por Clint Eastwood e escrita por Dustin Lance Black (que roteirizou outro bom filme baseado num personagem real, Milk - A Voz da Igualdade), explora não apenas esses aspectos, mas vários outros, o que a torna fascinante e interessante, moldando um personagem tridimensional verossímil, sem, entretanto, nunca apresentar uma teoria fechada e definitiva de por que Hoover era como era.

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E apesar de isso poder ser apontado como uma falha por alguns, eu não compartilho desta opinião. Afinal, seres humanos são complexos, muito complicados se forem analisados individualmente e não encaixados em grupos (de/ou) estereótipos. Por isso, qualquer que fossem os motivos internos que levavam Hoover a ser como era, provavelmente toda e qualquer teoria seria, no máximo, incompleta (correndo o risco de ser totalmente incorreta). Essa postura de Eastwood, de não apresentar o personagem como alguém totalmente já compreendido pela história, pode tanto ser um não-comprometimento por medo, quanto um olhar isento de documentarista. Apesar de não ser um documentário, creio que foi por esta última abordagem que o cineasta se norteou.

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J. Edgar traz Leonardo DiCaprio como o personagem principal, na pele de Hoover. Ou sob a pele de Hoover, já que a maquiagem pesada dos períodos em que Hoover está mais envelhecido não consegue esconder o rosto jovial do ator (que continua com cara de moleque, mesmo que ele já tenha passado dos 37 anos). Entretanto, é injusto dizer que o departamento de maquiagem do filme seja ruim. Há sim, momentos em que DiCaprio se transforma no Hoover, especialmente na meia-idade. Infelizmente, essa boa maquiagem não o acompanha quando se torna mais velho, e nem em nenhuma idade quando se trata da maquiagem de Armie Hammer (mais conhecido como os gêmeos de A Rede Social), que interpreta Clyde Tolson, segundo em comando no FBI e (na vida real supostamente) companheiro amoroso de Hoover. Completando o elenco principal, temos ainda a sempre linda Naomi Watts como Helen Gandy, a secretária pessoal de Hoover, que assim como Tolson, acompanhou J. Edgar Hoover por toda a vida no FBI. Destaque também para Judi Dench, como mãe de Hoover.

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J. Edgar Hoover com certeza merece admiração e repulsa, ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo que modernizou a investigação de crimes (e é bem interessante o filme mostrando a criação dos primeiros e quase mambembes laboratórios de criminalística), Hoover via a lei como algo que poderia ser dobrado, quando do seu interesse (que, obviamente, sempre levava "a consideração da proteção do país"), e provavelmente conseguiu se manter como chefe máximo do FBI por tanto tempo por causa dos segredos que descobriu com escutas ilegais. Na vida pessoal, era uma pessoa complexa: homossexual, tinha de viver numa época em que não podia ser realmente o que era (como deixam bem claro as suas interações com a mãe), bem como por causa do seu trabalho, que ironicamente, apoiava-se muito na percepção da reputação das pessoas.

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J. Edgar é contado pelo ponto de vista do personagem, que na trama está ditando suas memórias. Assim, passado e presente (o período em ele já está com uma certa idade) vão se entrelaçando (com destaque para a boa montagem). Por isso, é natural que em certas partes o personagem seja caracterizado como um grande herói. Mas Eastwood, no ato final, dá um certo tapa na cara da audiência, quando Tolson confronta Hoover, apontando grandes incoerências no que vimos da história no filme, que sempre foi filmado com base no olhar do personagem de DiCaprio. Assim, fica-se na dúvida sobre muito do que foi visto: teria sido aquilo mesmo ou uma versão deturpada? A resposta é incerta, assim como os arquivos secretos de Hoover. (E que apesar de no filme se tratar mais de algo parecido com a coluna de fofocas de uma Caras, poderiam conter fatos mais interessantes, digamos assim. Fox Mulder feelings.)

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J. Edgar não traz respostas definitivas para o personagem. De fato, acaba levantando algumas questões. Mas ainda é fascinante, ao enxergarmos o homem que praticamente construiu o FBI, uma instituição quase mítica hoje em dia (graças ao cinema e às séries) e que, mesmo hoje, ainda continua ligada a ele ("um inventou o outro", como é dito a certa altura do filme). Sem dúvida, J. Edgar é outro ótimo trabalho de Eastwood na direção e vale a pena ser conferido. Mesmo sem respostas definitivas. Mas afinal, na vida, quem as tem?

Trailer:



Para saber mais: crítica no Cinema em Cena e no Omelete.

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