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2010-12-31

Odeio festas de Ano Novo

Um screenshot do filme Tudo Pode Dar Certo, dirigido e escrito brilhantemente por Woody Allen, com o protagonista Boris falando exatamente o que eu penso:

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Acontece que odeio festas de Ano Novo.
Todo mundo desesperado para se divertir. Tentando comemorar de algum modo patético.
Comemorar o quê? Um passo mais perto da sepultura?

Sem mais, feliz ano novo!

P.S. Sim, este post foi escrito em junho, na época em que assisti o filme e tirei alguns screenshots, e está agendado desde então. Se você está vendo isto no final de 2010 e início de 2011, quer dizer que o agendamento do Blogger funciona muito bem!

2010-07-05

Tudo Pode Dar Certo - Cenas - parte 2

Mais algumas cenas deste filme memorável, Whatever Works. A primeira parte você está neste link.

spoiler alert

Pode conter spoilers.

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Se eu tivesse que comer nove porções diárias de frutas e vegetais para viver, não ia querer viver. Odeio essa droga de frutas e vegetais.
E Omega 3, esteira, eletrocardiograma, a mamografia, o ultrasom pélvico e, ai, meu Deus, a colonoscopia!
E, mesmo assim, ainda chega o dia em que te colocam em um caixão.

Hedonismo já!

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- Estou morrendo!
- Como assim?
- Estou morrendo!
- Devo chamar uma ambulância?
- Não! Agora não! Não essa noite! Mas me refiro a um dia!
- Boris, todos morrem.
- Isso é inaceitável!

Panic Attack!

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- Boris, você quer ser enterrado ou cremado?
- Não quero mesmo falar sobre isso, certo?
- Acho que quero ser cremada.
- Quer calar a boca, cretina?
- Não há vermes.

Eu também prefiro ser cremado. Depois que morrer, de preferência.

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O amor, apesar do que dizem, não vence tudo. Nem mesmo costuma durar. No final, as aspirações românticas da nossa juventude são reduzidas a... ao que pode dar certo. Entendeu?

Whatever works.

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- Você tem que ficar atenta a assassinos em série.
- Ele não é um assassino em série. Pelo menos, ele não mencionou isso.

Eles sempre se esquecem.

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- Não acho que seja uma boa idéia.
- Sonhei com você à noite passada. Eu..
- Não use essa frase. Boris disse que sonhou comigo à noite passada. E realmente duvido, é matematicamente impossível para mim estar em dois sonhos ao mesmo tempo.

Realmente, como ir contra o raciocínio de Melody?

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- Obrigado. Vou valorizar esse elogio.
- Meu Deus.
- O que está pensando?
- Entropia.
- Entropia?

Um filme que cita entropia depois de um beijo tem que ser bom.

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- Sim, mas eu cresci. Cresci muito. E, principalmente, por sua causa.
- Sim, é verdade. Fui muito paciente com sua ignorância fenomenal.

Paciência e gentileza não são a mesma coisa.

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- Deus é gay.
- Ele não pode ser. Ele fez o universo todo perfeito. Os oceanos, o céu, as lindas flores, árvores em toda parte.
- Isso mesmo. Ele é um decorador.

Argumento incontestável.

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É por isso que não me canso de dizer, qualquer amor que possa receber e dar, qualquer felicidade que possa se apropriar ou fornecer, cada breve gesto gentil, o que funcionar, está valendo.

Mais uma vez: Whatever works.

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E que ninguém se engane, nem tudo depende da genialidade humana. A maior parte de sua existência é mais sorte do que gostaria de admitir.

Interessante como Woody Allen aborda a "sorte" aqui. Uma visão mais apurada sobre o tema ele faz no filme Match Point.

2010-07-04

Não é fácil conviver com a grandeza

Mais um screenshot do filme Tudo Pode Dar Certo. Uma das razões pelas quais eu não atraio muita gente ao meu redor:

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Sou uma alma profunda e sensível com um conhecimento enorme da condição humana.
Era inevitável que você finalmente se cansasse de ser tão grosseiramente sobrepujada.
Não é fácil conviver com a grandeza, até para alguém de inteligência normal.

Entendo o Boris totalmente, hahaha.

2010-07-02

Isso é um clichê

A maneira como o filme Tudo Pode Dar Certo "se desculpa" pelos seus clichês é genial:

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- Isso é um clichê.
- Muito bem, Melody. Você aprendeu.
- É que você sempre fica irritado quando eu os uso.
- É, eu não deveria. Às vezes um clichê é a melhor forma de se expressar um ponto de vista.

Boris dando uma lição de como explicar os próprios clichês.

2010-06-27

Tudo Pode Dar Certo - Cenas - parte 1

Tudo Pode Dar Certo, ou como é melhor chamado no original, Whatever Works, é um dos filmes de comédia mais inteligentes e engraçados dos últimos.

Abaixo, alguns screenshots das cenas iniciais do filme:

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Não é a ideia por trás do cristianismo que critico, nem do judaísmo ou de qualquer religião.
É sobre os profissionais que fizeram disso um negócio empresarial.
Tem muito dinheiro nesse negócio de Deus. Dinheiro alto.

Que o digam os bispos de certas igrejas...

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O que poderia ser ruim? Todos devem compartilhar com igualdade. Fazer pelos outros. Democracia. Governo pelo povo.
São ótimas ideias. Todas elas, mas todas sofrem de uma falha fatal. Todas elas são baseadas na ideia falaciosa que as pessoas são, essencialmente, decentes.

E isso todos sabemos que é uma baita duma mentira usada pra fazer com que as criancinhas durmam melhor.

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Só estou dizendo que as pessoas fazem a vida ser bem pior do que é, e, acredite, é um pesadelo sem a ajuda delas.

"O inferno são os outros" - Sartre.

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- Eles não conhecem sua história. Boris, conte a eles.
- Só quer que eu conte de novo para que eles possam ouvir.
- Quem?
- Eles. Há uma plateia lotada olhando para nós. Eles pagaram uma grana alta pelos ingressos, dinheiro suado, para que um idiota de Hollywood possa comprar uma piscina maior.

Mas nem por isso você vai baixar, não é? Ou não...

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- Está dizendo que há pessoas aí fora que compram ingressos para nos ver.
- Devo dizer que a maioria deles está interessada em mim.
- É, eles estão lá sentados. Não os vê? Alguns estão comendo pipoca, outros só olhando para frente, respirando pela boca, como Neandertais.

Metalinguagem, baby.

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Por que querem saber a minha história? Nos conhecemos? Nos gostamos?
Deixa eu explicar, certo?
Não sou um cara simpático. Carisma nunca foi prioridade para mim.

Evidente.

2010-06-25

Filme: Tudo Pode Dar Certo

E terça-feira passada foi dia de sessão dupla no cinema. Depois de assistir o razoável Em Busca de uma Nova Chance, foi a vez de dar muita risada com a nova comédia do diretor Woody Allen, o filme Tudo Pode Dar Certo (no original, Whatever Works), que chegou alguns meses atrasados aqui em Floripa, mas pelo menos chegou.

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No filme, Larry David é Boris, físico tão inteligente quanto neurótico. Ele é o alterego do diretor na película, encarnando brilhantemente todas as neuroses e idiossincrasias de Woody Allen. A diferença é o tom que David usa, ainda mais sarcástico e cínico do que os alteregos de Allen (ou ele próprio) geralmente são. Imagine alguém tão inteligente, ranzinza e sarcástico quanto o doutor House. Agora triplique isso, adicione alguns sintomas de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) e uma pitada de hipocondria, e pronto, você já conhece Boris. Outra similaridade com o doutor: ele também é manco. E faz muitas citações, que nem todo mundo vai entender, mas quem pegar, vai ter um motivo a mais pra estampar um sorrisão no rosto.

filme tudo pode dar certo whatever works woody allen larry david
Quando conhecemos Boris, vemos que ele é, acima de tudo, uma pessoa sem esperança. Tendo abandonado sua profissão, passa o tempo ensinando xadrez para crianças sem o menor talento, apenas para jogar as peças em cima das cabeças delas. Separado (porque achava a sua ex-mulher perfeita demais), Boris um dia acaba se deparando com Melody (Evan Rachel Wood), toda desarrumada e suja na sua porta, pedindo por um pouco de comida. Boris acaba lhe dando abrigo, que ele espera ser temporário, mas que se mostra um pouco mais demorado.

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Melody é uma típica menina de cidade pequena e caipira do sul, bem estereotipada com seu sotaque característico, suas tendências religiosas, e sua beleza, tão incontestável quanto sua ignorância e burrice. E claro, ela está fugindo de casa. Uma jovem encantadora, porém, muito longe de ser considerada inteligente. Mesmo com os insultos que Boris dirige a ela, Melody sempre se mantém de bom astral, até porque não entende boa parte do sarcasmo de Boris.

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Melody vai ficando e ficando, e Boris começa a se sentir mais a vontade com ela. Até que, num momento clichê, ela se apaixona por ele, e os dois acabam casando. Depois, chega a mãe de Melody, que não aceita de jeito nenhum a relação dos dois. E depois, chega o pai, numa das cenas mais engraçadas do filme.

O filme é hilário. Ao contrário de muitas outras obras de Woody Allen, que escreve e dirige, o humor de Tudo Pode Dar Certo é bem democrático, sem apelar para o pastelão descarado. Mesmo aquela pessoa um pouco mais lenta vai soltar umas boas risadas. Evidentemente, se você for mais inteligente, vai rir mais. Sim, porque se tem piadas que todo mundo ri (e as gargalhadas que eu ouvi na sessão provam isso), também tem piadas mais sutis, mas não menos engraçadas.

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Como se pode notar, o roteiro é o grande trunfo de Tudo Pode Dar Certo. Mesmo os clichês, como o já citado, funcionam. Como o próprio filme diz, "às vezes um clichê é a melhor maneira de se expressar", ou algo parecido (não lembro das palavras exatas). Uma maneira genial de se 'desculpar' pelos clichês, mesmo que não haja o que desculpar neste filme. O problema dos filmes, geralmente não é a existência de um clichê, mas o abuso deles.

Entretanto, uma coisa que pode prejudicar (um pouco) o filme Tudo Pode Dar Certo é justamente o seu título em português. Whatever Works é algo mais próximo de "O que der certo", no sentido de "o que for suficientemente bom pra dar certo". Essa expressão é usada algumas vezes no filme, e tem uma certa importância na definição do tom do filme. Tenho a impressão de que mesmo durante os diálogos, essa expressão foi traduzida como no título, de maneira que altera, mesmo que sutilmente, o sentido. Não sei se realmente aconteceu, porque neste filme não consegui acompanhar todas as legendas (acabo indo mais pelo som original).

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A atuação é um espetáculo a parte. Larry David está um Woody Allen turbinado. Seu sarcasmo e ironia são deliciosos de se ver. Mesmo nas cenas em que Boris, utilizando-se de meta-linguagem, dirige-se aos espectadores (para por vezes, insultá-los), está ótimo. O seu timing de comédia está perfeito. Evan Rachel Wood, entretanto, é a grande surpresa do filme: sua adorável caipira Melody é ao mesmo tempo encantadora e muito engraçada, como nos momentos em que ela repete as frases que ouve de Boris, mesmo sem saber o que elas significam. Até mesmo o sotaque carregado do sul dos EUA é utilizado na medida: na tênue linha entre o caricato engraçado e o exagerado, explorando todas as suas possibilidades na composição da personagem. Destaque ainda para Patricia Clarkson e Ed Begley Jr., os pais de Melody, absolutamente hilários.

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Woody Allen, depois de passar uma temporada filmando na Europa, volta a seu reduto, Nova York, neste filme. Entretanto, essa volta ao cenário habitual pode até passar despercebido por um espectador mais desatento. Isso se deve a fotografia do filme, que raramente mostra planos mais abertos, se focando sempre nos rostos dos personagens. Talvez uma das poucas vezes em que a fotografia assume maior importância seja a cena que se passa no museu de cera. Nesta cena, acontece uma das poucas piadas visuais do filme, apesar de ser bem sutil (e carecer de um referencial mais apurado do espectador, mas de qualquer jeito, muito bacana de se perceber).

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Enfim, Tudo Pode Dar Certo é uma comédia excelente, que se pauta bem mais no roteiro inteligente e nos diálogos afiados, do que em gags visuais ou no pastelão fácil. Isso geralmente causa certa apreensão nos donos de cinema, uma comédia inteligente, pois estamos acostumados, aqui no Brasil, a um humor rasteiro, nivelado por baixo, de Zorras e Didis (que é basicamente, um humor muito infantil). Entretanto, o aumento do número de sessões aqui na cidade (na primeira semana, só tinha uma sessão por dia, nesta semana têm sessões o dia inteiro), e o grande número de risadas que ouvi quando fui assistir o filme, mostram que talvez, ainda tenhamos espaço para um humor inteligente e de qualidade. Mesmo que demore um pouco mais para chegar por aqui.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Cinema em Cena e no Omelete.