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2015-05-18

L3.0 [curta animação]

L3.0, ou Leo, é o nome de um aparentemente simpático e solitário robôzinho numa Paris de um futuro pós-apocalíptico, onde quase não há sinal de vida. Leo passa seus dias sozinho, vendo antigos programas de TV, brincando sozinho em jogos de tabuleiro e esperando que apareça outro ser para brincar com ele.

L30 Leo animação curta 3D

O curta L3.0 mistura animação digital com cenários reais filmados. O trabalho, realizado por estudantes da ISART Digital, uma escola de videogames e animação em 3D com sedes na França e no Canadá, nos mostra uma Paris desolada, quieta e vazia. Guardadas as devidas proporções, lembra um pouco a parte inicial de Wall-E, da Pixar, que sem dúvida deve ter inspirado as cenas iniciais do curta. Assistam:


FILM_FX L3.0 (2014) from ISART DIGITAL,

Com um plot twist bem interessante no final e que levanta vários questionamentos, L3.0 é um ótimo curta que mistura drama e ficção científica.

Dica via Short of the Week - L3.0 by Isart Digital School.

2015-05-15

Lichen [curta]

Lichen, ou Líquen em português, é um ser vivo bastante simples, formado a partir da simbiose de um fungo e uma alga. É também o nome do primeiro curta produzido pelo grupo Soda Honey Studios, e dirigido por Kevim Lim.

curta lichen

Lichen é um curta sobre romance, coincidências, memórias e a vida. Sensível e bem humorado, o curta nos apresenta a história de dois personagens sem nome, apenas ele e ela, e alguns pequenos e insignificantes objetos que marcaram a vida dos dois. Assistam:


Lichen from Soda Honey Films.

Bem, agora que você já assistiu (são apenas uns 8 minutos), posso comentar o curta sem medo de dar spoilers.

Se a vida fosse um conto de fadas, ou mesmo um bom filme de comédia romântica, seria como Lichen. Desde a primeira cena de encontro dos dois personagens, o curta é construído a partir da ideia de pequenas coincidências que juntam um casal, e mais ainda, que juntam um casal que se complementa, num relacionamento destinado a durar. Reparem como no primeiro encontro dos dois, num café, além do tradicional enquadramento da primeira troca de olhares deles, que já diz muito, o rapaz estuda ortodontia, e a garota, optometria. E o principal problema do rapaz é a visão, enquanto a da garota são os aparelhos.

Além do roteiro romântico (bem construído), a fotografia do curta merece destaque em pelo menos uma cena, que consegue desbancar vários grandes filmes de Hollywood, ao usar uma split screen (tela separada) mostrando a noite (quase) fracassada de Halloween dos dois personagens individualmente, até o reencontro deles, que junta as duas telas.

Ótimas também são as transições, que mostram objetos importantes para a história do casal, mas que são irrelevantes e pequenos para o resto das pessoas: um ovo (que marca o primeiro encontro, no final da cena do café, onde uma garçonete traz um ovo, e os ovos que ela atira na noite de Halloween), uma rolha (que marca um encontro do casal, onde mais uma vez podemos ver como eles se complementam, ao trocarem recheios do sanduíche) e até mesmo um Batman e Robin de Lego.

curta lichen

O final do curta nos enche de uma mistura de tristeza e alegria. Tristeza pelo destino (inevitável), mas também alegria por ver que a vida continua. E isso só acontece porque o curta consegue, nesses meros minutos, conectar a audiência com os seus personagens. A cena do recolhimento dos objetos que fizeram a história do casal é ao mesmo tempo simples, mas cheia de significado. Sobre essa relação entre esses pequenos objetos e as memórias que nos conectam a eles, o diretor diz:

"Eu me lembro de ler esse artigo, que propunha como micro-tubulações dentro do corpo humano poderiam potencialmente agir como 'discos rígidos' quânticos para guardar memórias. Eu levei a ideia mais longe e pensei, e se objetos inanimados pudessem guardar memórias E se essas lembrancinhas que guardamos de um relacionamento pudessem atuar como um mapa, contando a história de como duas pessoas se conheceram, se apaixonaram e tiveram filhos?"

Líquens, na vida real, são novas formas de vidas criadas a partir de duas outras, que se unem para sobreviver. Assim como no curta, que mostra, como sua sinopse oficial diz, como através do acaso e coincidência, infinitas pequenas decisões podem produzir nova vida.

Dica via Short of the Week - Lichen by Kevim Lim.

2014-05-13

Burning Hearts [curta]

Sabe aqueles filmes que começam em um gênero e têm uma virada que os transforma num gênero completamente diferente? Talvez o exemplo mais emblemático (ou pelo menos mais citado) seja Um Drink no Inferno, que começa com uma pegada mais dramática/suspense policial e na metade se transforma num terror gore/galhofa. Bem, o curta Burning Hearts (em tradução livre, "Corações em Chamas"), dirigido por James McFay e produzido por Toshio Hanaoka, é um desses exemplos de histórias que se transformam ao longo da narrativa, passando de um gênero a outro. (Se não quiser spoilers, dê um play agora. Vídeo sem legendas, mas fácil de entender.)


BURNING HEARTS (バーニング ハーツ) from Beaufort on Vimeo.

O início de Burning Hearts nos mostra o drama pessoal de Elle, uma modelo no Japão, que tem seu coração quebrado. Atordoada, ela não percebe que está andando em direção a elementos não muito recomendáveis. E é nesse momento que o herói de nossa história, um taxista, se mostra, lutando para proteger a mocinha.

burning hearts

O curta começa como um drama convencional (decepções amorosas fazem parte da vida, afinal), mas com um contexto que o diferencia (modelos no cenário japonês). Mas depois de uns 7 minutos, o curta torna-se um filme de ação e artes marciais.

Com uma cena de luta emblemática, filmada toda em um único longo plano, a segunda parte do curta tem aquele ar de jogos de luta dos 16-bit (como Streets of Rage ou Final Fight), onde o herói caminha por um caminho horizontal, derrotando inimigos que surgem todos vestidos do mesmo jeito. Até mesmo o logo de Burning Hearts nos remete a essa ideia (reparem como é parecido com o logo do Final Fight, usando a mesma tipologia).

final fight

Dica via Short of the Week - Burning Hearts.

2013-10-02

Filme: O Tempo e o Vento

Antes de mais nada, deixo claro que não li as obras literárias de Érico Veríssimo, tampouco assisti às adaptações televisivas, portanto, este texto se foca apenas no filme O Tempo e o Vento de 2013. E o resultado, adianto, é pouco animador.

filme o tempo e o vento poster cartaz

Dirigido por Jayme Monjardim, mais acostumado à linguagem televisiva, O Tempo e o Vento nos conta a história da família Terra-Cambará num período que compreende três gerações e que está intimamente ligada a história do Rio Grande do Sul. A narrativa se desenvolve a partir de um grande flashback na qual Bibiana (Fernanda Montenegro) relembra a história de sua família ao conversar com o fantasma de seu marido capitão Rodrigo (Thiago Lacerda). A grandiosidade da história acaba sendo o maior problema do filme, que conta muita coisa de maneira rápida e com a profundidade de um pires. Narrativamente, essa saga gaúcha seria melhor contada numa série ou em uma trilogia de filmes (o que, desconfio pelas notícias de espectadores/arrecadação, não sairia do papel).

filme o tempo e o vento cleo pires

Tirando a personagem de Cléo Pires e Thiago Lacerda, os personagens são pouco desenvolvidos. Mesmo Bibiana, que é interpretada magistralmente por Fernanda Montenegro e por Marjorie Estiano (linda como sempre!), se mostra um pouco desinteressante, já que apenas vemos de relance partes de sua história, sem aprofundamentos (nem mesmo a morte da sua filha é bem explorada, focando quase sempre no personagem do Capitão Rodrigo, interpretado por Lacerda). Outro problema é a opção por se usar vários atores diferentes ao retratar os personagens em diferentes épocas de suas vidas: mal há tempo de nos acostumarmos com os rostos dos personagens e eles já mudam, o que em certos momentos me incomodou, devido a confusão que isso gera. Sei que a opção por se usar maquiagem é mais complicada e possivelmente mais onerosa, mas de qualquer maneira, é um ponto negativo do filme.

filme o tempo e o vento thiago lacerda fernanda montenegro

As próprias interpretações variam bastante. Inquestionavelmente Fernanda Montenegro é a melhor coisa de O Tempo e o Vento, com uma atuação digna de quaisquer prêmios imagináveis. Thiago Lacerda também cumpre bem o seu papel, apesar de ter momentos em que o personagem parece caricato demais. Cléo Pires entrega uma interpretação inconstante: não convence bem como uma mulher que se apaixona, mas a partir do momento em que torna a coisa física, ela se sai melhor. Suas nuances não convencem, mas quando o peso dramático exige ações mais grandiosas, ela se sai muito bem. E não poderia deixar de citar que ela filma uma das cenas mais sexy que já vi em filmes brasileiros, envolvendo um banho ao ar livre (se fosse passada a cena nos tempos atuais, seria um banho de chuveirinho). Já Marjorie Estiano sofre com o roteiro, que não lhe abre muito espaço, a não ser para se mostrar como a heroína bonitinha.

O Tempo e o Vento tem uma fotografia muito bonita, apesar de um certo exagero nos planos abertos, que servem apenas para mostrar a paisagem gaúcha e servir como um "intervalo". Apesar disso, gosto bastante desses planos em contraluz, com as silhuetas dos personagens, apesar de achar que o diretor os use com um pouco de exagero.

filme o tempo e o vento marjorie estiano

Com um caráter episódico, o roteiro, escrito por Tabajara Ruas e Letícia Wierzchowski, até tenta ilustrar o simbolismo de certos elementos que se mantém constantes com o passar do tempo, como a adaga e a tesoura que atravessam gerações. É, entretanto, algo pouco sutil, especialmente na maneira que Monjardim foca essas peças, com closes constantes nelas. Vício de uma narrativa televisiva, certamente.

Pesando seus prós e contras, O Tempo e o Vento não é um filme ruim, mas também não anima muito. Não fosse pela atuação de Fernanda Montenegro, eu diria que é um filme medíocre. A impressão final é a de uma mini-série condensada, no estilo das produção da Globo (algo que começou, se não me engano, com O Auto da Compadecida, de Guel Arraes). O povo gaúcho, tão orgulhoso de sua história e tradições, pode até lotar algumas sessões do filme, mas não verão algo que faça jus a elas. Ou ao orgulho de que sentem delas.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Omelete.

2013-09-24

Filme: Frances Ha

Uma comédia tragicômica de erros sobre amores e as dores daquela fase em que não se é um adulto, mas também já se deixou a adolescência (a fase que seria uma espécie de adolescência estendida). É essa a descrição sucinta de Frances Ha, que carrega o DNA até a última ponta dos cabelos dos filmes indie norte-americanos.

filme frances ha poster cartaz

Em Frances Ha temos a história de Frances (Greta Gerwig), mulher de vinte e tantos anos que parece mal ter saído da adolescência, em termos de maturidade (e não de aparência). Ela sonha em ser bailarina em um grupo de dança e enquanto isso não acontece, vive como uma dançarina substituta, ganhando pouco. Divide o apartamento com a melhor amiga Sophie (Mickey Sumner), formando, como ela mesmo diz, um casal lésbico que não transa mais. De fato, "dividir o apartamento" é uma descrição generosa, já que quem realmente paga o aluguel é Sophie, que trabalha numa editora. Quando Sophie anuncia que vai se mudar para outro apartamento e dividí-lo com outra colega, o mundo lúdico de Frances começa a desabar e os primeiros sinais da vida adulta de verdade começam a bater a sua porta.

filme frances ha mickey summer greta gerwig

Frances Ha é filmado em preto e branco. Segundo o diretor Noah Baumbach, o motivo era o de dar um ar saudosista ao filme. Infelizmente, essa decisão se mostra apenas um capricho do diretor, já que a fotografia em preto e branco, apesar de ser bem bonita (pelo menos para o meu gosto pessoal), não serve à trama. E se a fotografia em preto e branco naturalmente evoca um certo saudosismo de época, isso é destruído rapidamente ao vermos personagens em um contexto mais do que contemporâneo, com seus iPhones tocando.

filme frances ha greta gerwig

Co-escrito pelo diretor Baumbach e pela protagonista Greta Gerwig, a maior parte de Frances Ha me parece uma sitcom barata sobre o nada, ao estilo de Seinfeld, mas tirando toda a graça. Sim, porque as risadas provocadas pelo filme são quase em sua totalidade por vergonha alheia das situações que a protagonista passa, mas sem muito brilhantismo. Em grande parte da projeção o que vemos é basicamente a mesma coisa: Frances com algum problema, lidando da pior maneira possível, como se fosse uma pré-adolescente. Talvez a intenção tenha sido essa mesma, a de criticar essa geração de jovens adultos despreparados para o que o mundo lhes reserva, um fenômeno contemporâneo que assume diversas formas em diversas culturas, como os hikikomori no Japão ou os nem-nem no ocidente (jovens que nem trabalham, nem estudam).

Se foi essa a intenção, o resultado foi mais enfadonho do que qualquer outra coisa, já que foca muito nessas situações e pouco tempo reserva para o crescimento da personagem, que fica estagnada a maior parte do filme (e cujo crescimento no final não parece acontecer de maneira muito orgânica). A impressão que fica é que quase tudo o que vemos em Frances Ha é descartável e nada acrescenta à trama ou à personagem, como a (curtíssima) temporada que Frances passa na França ou mesmo grande parte das férias de fim de ano com sua família.

filme frances ha greta gerwig

Apesar dos grandes problemas, Frances Ha não é de todo ruim. Gerwig faz uma ótima atuação e é só por causa dela que o filme se torna minimamente assistível: sua personagem, apesar da infantilidade e falta de maturidade, é charmosa e além disso, consegue nos inspirar confiança de que nem toda esperança está perdida. Mesmo com suas loucuras e trapalhadas, conseguimos nos identificar um pouco com ela: afinal, a vida adulta não é nada fácil e quem não deixa escapar um pouco de infantilidade de vez em quando (como Frances faz ao mentir como forma de proteger o orgulho, por exemplo)?

Frances Ha tem alguns bons diálogos e boas cenas pontuais, como o arco do relacionamento de Frances e Sophie (o melhor do filme, que é deixado de lado por quase metade do filme no seu meio), especialmente numa das cenas finais, que evoca um diálogo sobre relacionamentos perfeitos feito num jantar anterior a ida à França, ou algumas das cenas iniciais, que mostram Frances correndo pelas ruas de Nova York. Infelizmente, o saldo do filme ainda é negativo. A falta de desenvolvimento da trama e da personagem, com situações descartáveis, deixa o ritmo lento e enfadonho. Uma pena, já que o filme toca em temas interessantes, como a adolescência estendida e os diferentes tipos de amores e relacionamentos. E nem todo o charme de Gerwig salva Frances Ha.

Trailer:



Para saber mais: crítica no AdoroCinema e no blog do Rubens Ewald Filho.

2013-09-19

Filme: Rush - No Limite da Emoção

Antes de mais nada, tenho que confessar que não gosto de Fórmula 1. Não, estou sendo generoso demais. Eu detesto Fórmula 1, acho muito enfadonho e sem graça. Por isso, foi uma grata surpresa assistir o filme Rush - No Limite da Emoção (apenas Rush, no original) e sair da sessão com um sorriso no rosto, por ter visto um excelente filme.

filme rush - no limite da emoção poster cartaz

Rush - No Limite da Emoção nos traz a história real da histórica rivalidade entre dois pilotos de Fórmula 1 nos anos 70, o austríaco Niki Lauda (interpretado no filme por Daniel Brühl) e o inglês James Hunt (interpretado por Chris Hemsworth, mais conhecido como Thor). A rivalidade entre eles se inicia ainda na Fórmula 3, no início de suas carreiras, e culmina no campeonato de Fórmula 1 de 1976, um dramático ano, quando Lauda sofre um acidente que quase custa-lhe a vida.

filme rush - no limite da emoção james hunt niki lauda

Não bastasse a história interessante, Rush - No Limite da Emoção (ou apenas Rush daqui em diante) tem o grande mérito de saber contá-la muito bem. Na primeira parte do filme, o roteiro de Peter Morgan vai construindo a história individual de Lauda e Hunt, como se fosse uma corrida em que cada um se reveza um pouco na dianteira, com eventuais esbarrões onde eles interagem. Ou seja, o filme dá um espaço igual aos dois pilotos, o que acentua ainda mais a diferença entre eles: enquanto Hunt é mulherengo, bon-vivant e destemido, Lauda é cauteloso, calculista e inteligente. O que eles têm em comum é o desejo de vitória, apesar de mesmo as motivações para isso serem diferentes, coisa que é acentuada desde o primeiro encontro, até o último mostrado no filme, nas cenas finais.

filme rush - no limite da emoção chris hemsworth champagne

Além do ótimo roteiro, visualmente também Rush é fantástico. Com uma fotografia granulada, que simula os filmes dos anos 70, Rush tem uma boa direção de arte, que recria bem o visual setentista. Outro destaque são as cenas que ilustram as corridas de Fórmula 1, sejam aqueles planos de dentro do carro, sejam aqueles clássicos planos de câmeras do lado da pista. Mesmo com o eventual uso de CGI (computação gráfica), o visual é extremamente realista. Adicione-se a isso os excelentes design de som e edição, e o resultado são cenas muito empolgantes (mesmo para quem acha as corridas um tédio na vida real, como eu).

filme rush - no limite da emoção daniel bruhl ferrari

Tudo isso, entretanto, seria vazio se Rush não apresentasse personagens humanos e críveis. Nesse ponto, Rush também não perde a pole: as atuações estão excelentes. Apesar do papel de Hunt não oferecer tanto desafio assim a Chris Hemsworth, o ator funciona bem como o cara que quer aproveitar o máximo da vida sem pensar muito no amanhã. O destaque, entretanto, é para o excelente Daniel Brühl. Fisicamente impecável como Niki Lauda (a princípio não reconheci o ator, que usa próteses dentárias para ficar com a "aparência de rato" de Lauda), o ator, que já se mostrou um grande intérprete em vários filmes (destacando-se para o grande público em Bastardos Inglórios), não só consegue interpretar o personagem de maneira ótima antes, mas também durante e depois do acidente que Lauda sofre e o desfigura parcialmente (destaque para a cena da entrevista pós-retorno, com uma atuação fantástica).

filme rush - no limite da emoção alexandra maria lara daniel bruhl

E em se tratando de Fórmula 1, não é possível deixar de lado as belas mulheres. E o filme tem pelo menos três beldades que merecem destaque, não apenas pela beleza, mas pelas atuações que nada deixam a desejar: a sempre sensual Olivia Wilde como a modelo (ex-)esposa de Hunt Suzy Miller, Alexandra Maria Lara como Marlene Lauda, esposa e grande apoiadora de Niki, e a linda Natalie Dormer, mais conhecida pelos fãs de Game of Thrones como Margaery Tyrell, num papel secundário como uma das "peguetes" de Hunt (Huntete?).

filme rush - no limite da emoção olivia wilde

No final das contas, Rush - No Limite da Emoção é menos sobre carros, velocidade e Fórmula 1 do que sobre rivalidade, competitividade e até mesmo amizade. E isso é o que torna o filme excelente e passível de identificação por qualquer um. Nem todo mundo gosta de carros e velocidade, mas só quem não é humano não reconhecerá a grande história por trás desses pilotos e sua rivalidade.

Trailer:



Para saber mais: críticas no AdoroCinema, Omelete e blog do Rubens Ewald Filho.

2013-09-18

Filme: Tanta Água

Do lado de lá da tela, rostos cansados e aborrecidos, frustrados por não terem muito o que fazer enquanto a chuva cai incessantemente. Do lado de cá da tela, um sentimento dividido entre a curiosidade e o cansaço. Assistir o filme Tanta Água (Tanta Agua no original em espanhol) exige um pouco mais do espectador, não exatamente em termos cognitivos, mas com uma paciência e dedicação de um observador/pesquisador científico interessado em pessoas comuns e suas dinâmicas e relacionamentos.

filme tanta água poster cartaz

Tanta Água nos leva a conviver com Alberto (Néstor Guzzini), pai divorciado de dois filhos, a adolescente geniosa (e qual adolescente não é?) Lucía (Malú Chouza) e seu irmão mais novo, Federico (Joaquín Castiglioni), durante um período de mais ou menos uma semana, em que Alberto leva os filhos para passarem férias em uma instância termal no Uruguai. Claramente desacostumados a conviverem juntos (os filhos moram com a mãe), a falta de intimidade e o desconforto são visíveis, especialmente quando a chuva não para de cair e a família é obrigada a passar um bom tempo junto numa diminuta cabana no balneário ou então dentro do carro, criando um clima um tanto constrangedor e claustrofóbico.

filme tanta água chuva

Com um ritmo lento, o filme tem dois momentos distintos. No primeiro, o foco se dá em Alberto. Aqui vemos um pai tentando se reconectar com os filhos, ainda que esse esforço não se dê através de um caloroso contato. Ao contrário, como pai, ele tenta impor alguma disciplina aos filhos. É também visível um certo ressentimento dele para com a ex-mulher (que envia muitos lanches, por exemplo, o que Alberto de certa forma vê como um desprezo, como se ele não pudesse ou soubesse alimentar direito os filhos). É um retrato bastante interessante de um homem que tenta ser um bom pai, mesmo com suas limitações inerentes, tudo isso contado de maneira sutil, sem explicações expositivas, como tem sido o padrão em filmes recentes, sobretudo os blockbusters.

filme tanta água guzzini

No meio do filme em diante, o foco passa a ser Lucía. Depois de resolver alguns dos conflitos de Alberto, as diretoras e roteiristas Ana Guevara e Leticia Jorge passam a colocar a lente de aumento sobre a personagem adolescente, que como todo adolescente, está fadada a cometer erros idiotas. No caso de Lucía, ela age de maneira não muito correta com uma recente "amiga", ao se apaixonar por um rapazinho, mentindo também para o pai e até mesmo se arriscando (como mostra a cena em que ela desembarca de um ônibus em direção a uma balada).

O grande mérito de Tanta Água é, sem dúvida, o elenco e suas atuações. Néstor Guzzini, como Alberto, é excelente: seu olhar cansado, mas que se renova a cada pequena conquista no relacionamento com os filhos, é ótimo. Malú Chouza com sua Lucía também exibe uma grande performance, ao retratar uma jovem adolescente que passeia por humores, do tédio de passar férias com os familiares, até a alegria infantil que exibe com as brincadeiras com o irmão mais novo, passando pela tentativa de entrar no mundo adulto com seus amores e relacionamentos, tudo isso de maneira tridimensional. Joaquín Castiglioni, como o filho mais novo Fede, também não faz feio.

filme tanta água chouza

Talvez eu não tenha gostado do ritmo lento de Tanta Água por já estar cansado e com fome (dica: levar uma barra de cereal se for assistir 3 filmes seguidos num lugar onde não tem bomboniere), achando que o filme se arrasta demais. Outro problema é a mudança de foco: ao passar de Alberto para Lucía, a impressão que fica é de termos dois filmes distintos, ou como se fossem dois episódios de uma série, e não uma história única. De fato, por si só, isso não é um problema. Mas ao fazer isso, o filme deixa de explorar mais o relacionamento inter-familiar, que vinha sendo trabalhado de forma interessante, para se focar na adolescência feminina, que acaba se mostrando não tão interessante, com um desenvolvimento e um final previsíveis.

filme tanta água guzzini chouza

Tanta Água é o trabalho de estreia das suas realizadoras, Ana Guevara e Leticia Jorge, em longa-metragens. O filme pode se mostrar um pouco enfadonho à primeira vista. De fato, assim como o relacionamento dos personagens em sua dinâmica familiar, Tanta Água melhora aos poucos. Mas tem uma recaída adolescente no final, que apesar de acrescentar mais dinamismo ao ritmo, se mostra mais desinteressante como história. No fim das contas, é um filme razoável, ao mostrar, de maneira bem realista, um relacionamento familiar. Mas não esqueçamos que a realidade, não raramente, pode ser bem aborrecedora, dependendo do seu olhar, e que dias de chuva alcançam a todos nós.

Trailer:



Para saber mais: site oficial de Tanta Água.

2013-09-13

Filme: A Coleção Invisível

Provavelmente o filme brasileiro A Coleção Invisível será mais lembrado devido ao fato de ter sido o último trabalho do ator Walmor Chagas do que devido aos seus próprios méritos (não que a escalação de Chagas não tenha sido um deles). Mas o fato é que A Coleção Invisível é um bom filme, que apesar de se mostrar bastante sensível, tem também vários defeitos, sobretudo no roteiro.

filme a coleção invisível poster cartaz

A história de A Coleção Invisível acompanha o jovem Beto (Vladimir Brichta) que, depois de um evento traumático, assume o controle do antiquário da família. Endividado, surge uma oportunidade de ganhar muito dinheiro quando um conhecido lhe informa que as gravuras de um falecido artista baiano estão bem valorizadas e com comprador garantido, gravuras estas que foram comercializadas pelo falecido pai de Beto há vários anos atrás. Em busca do colecionador que comprou essas gravuras, ele passará pelo interior da Bahia, conhecendo uma visão bastante decadente de parte do estado, ao passar pela região cacaueira afetada pela praga da Vassoura-de-bruxa. Ao finalmente chegar ao seu destino, ele ainda encontrará resistência por parte da família de Samir (Walmor Chagas), o colecionador, nas figuras da mulher Clara (Clarisse Abujamra) e da filha Saada (Ludmila Rosa).

filme a coleção invisível walmor chagas

Em termos de fotografia e direção de arte, A Coleção Invisível se mostra bastante eficaz. Transparece na tela a decadência econômica da região cacaueira, em especial quando o filme retrata as fazendas de cacau e suas cercanias, outrora pujantes, agora caindo aos pedaços, ao mesmo tempo em que ainda é possível se deslumbrar com o visual da natureza do lugar.

filme a coleção invisível vladimir brichta e ludmila rosa

Outro destaque positivo do filme são as atuações dos seus principais atores e atrizes. Brichta consegue se distanciar da aura cômica que seus personagens geralmente assumem em outras produções (sobretudo televisivas), entregando um personagem interessante, ainda que sua jornada não apresente grandes surpresas. Ludmila Rosa está linda e forte em sua personagem, que infelizmente é prejudicada pelo roteiro, ao correr no desenvolvimento do relacionamento de Saada e Beto. E Chagas, que na época das filmagens já não enxergava bem, não representa um personagem; ele é. Simplesmente assim.

filme a coleção invisível vladimir brichta walmor chagas

Dirigido por Bernard Attal, que co-escreve o roteiro com Sérgio Machado baseado no conto homônimo de Stefan Zweig, A Coleção Invisível tem em seu roteiro o seu elemento mais fraco. O drama pessoal de Beto, que inicia o longa, não é bem resolvido, bem como sua relação com a mãe. A sua relação como Saara também se desenvolve aos saltos, sem aquela suavidade esperada no desenvolvimento de qualquer relacionamento. O "lado social" do roteiro também sofre um pouco: apesar de bem resolvido no que tange ao personagem Wesley (Wesley Macedo), um menino pobre da cidade onde Beto se hospeda, o roteiro deixa a desejar a apenas citar a situação ecológica da região, sem oferecer maior desenvolvimento ou mesmo explicações que possam aprofundar o conhecimento de quem não conhece a área.

Entretanto, mesmo com os problemas de roteiro, A Coleção Invisível é um filme interessante, que apesar de seu ritmo até um pouco lento (sem piadas baianas) no desenvolvimento do personagem, consegue prender a atenção. E é, além de tudo, um filme sensível sobre família, perdas e ganhos inesperados.

Trailer:



Para saber mais: site oficial de A Coleção Invisível e crítica no Adoro Cinema.

2013-09-12

Filme: Jobs

Muitos diriam que se fossem descrever Steve Jobs em uma palavra, usariam "gênio". Tendo lido a sua biografia escrita por Walter Isaacson (um calhamaço de mais de 600 página que vale cada linha), a palavra que me vem à mente quando ouço o nome Steve Jobs é "cretino". De fato, estou até sendo benevolente, pois apesar de sua inegável genialidade comercial, pessoalmente, frequentemente ele foi um canalha. Mas também foi admirável. Se isso soa paradoxal, acostume-se: Jobs era assim mesmo. Um personagem fascinante, cuja história pessoal é inseparável da empresa que criou, a Apple, e cuja cinebiografia Jobs infelizmente falha em retratar.

filme Jobs cartaz poster

Dirigido pelo relativamente desconhecido Joshua Michael Stern, o filme Jobs não é um filme ruim, mas se mostra bastante fraco, especialmente por causa de seu roteiro, assinado pelo estreante Matt Whiteley. Englobando um longo período de tempo, desde a década de 70 (com a faculdade e o surgimento da Apple) até o começo dos anos 2000 (terminando com o lançamento do primeiro iPod), o filme peca em mostrar de relance ou apenas mencionar vários episódios importantes da vida de Jobs, como a sua viagem à Índia (mostrada de relance), seu conflito interno por ser adotado (apenas mencionado durante uma "viagem") e especialmente, o relacionamento com sua primeira filha, Lisa, que depois de ser abandonada e relegada por Jobs durante boa parte de sua juventude, aparece magicamente convivendo com ele, depois de um salto temporal no filme. São várias coisas que o filme cita ou mostra rapidamente (como a mulher de Jobs), mas não se aprofunda. A impressão para quem não conhece a história real é uma sensação de incompletude, mostrando acontecimentos que nunca mais serão citados nem concluídos.

filme Jobs Steve Woz

Jobs, o filme, reúne um grande conjunto de bons atores coadjuvantes, com destaque para Dermot Mulroney como Mike Markkula (o primeiro investidor da Apple) e Josh Gad como Steve Wozniak (o gênio da engenharia por trás do talento comercial de Jobs). E apesar da boa caracterização de Ashton Kutcher como Steve Jobs, com o visual e imitação de trejeitos merecendo aplausos, a atuação do protagonista deixa um pouco a desejar, se revelando inconstante ao longo da projeção: ora sendo caricato demais (andando como Jobs mais velho), ora faltando expressão (nos momentos mais dramáticos, em que a sua expressão facial falha em mostrar um sentimento).

filme Jobs equipe reunida Apple original

Steve Jobs era uma pessoa de extremos. Realizou grandes feitos, mas também fez muita merd@ na vida. Com seus paradoxos e idiossincrasias, era também extremamente humano. E tudo isso o filme falha em ser: não se enquadra em nenhum extremo (não é tão bom assim, mas também não é tão ruim assim, ficando naquela área da mediocridade) e também falha em ser humano (Jobs ora é retratado com reverência reservada a um deus, ora se mostra um vilão cartunesco). Se fosse vivo e assistisse este filme, provavelmente teria um de seus famosos ataques de temperamento. Sem deixar de ter uma boa razão.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Cinema em Cena e no Omelete.

2012-12-11

Filme: A Sombra do Inimigo

À primeira vista, o filme A Sombra do Inimigo (no original Alex Cross) parece ser apenas mais um filme genérico medíocre de ação e suspense policial. Entretanto, se pararmos para analisá-lo, veremos que, na verdade, ele é bem ruim.

filme a sombra do inimigo alex cross poster cartaz

A Sombra do Inimigo tem uma histórica até meio clichê de filmes policiais. Ela acompanha o protagonista (que dá o título original ao filme) Alex Cross (Tyler Perry) e sua equipe, composta entre outros pelo parceiro Tommy Kane (Edward Burns) e pela novata Monica Ashe (Rachel Nichols), investigando um assassinato. Quando eles se encontram pela primeira vez com o assassino profissional (vivido por Matthew Fox), frustrando os seus planos, a coisa torna-se pessoal.

A Sombra do Inimigo tem vários problemas como filme, a começar pelos personagens. Cross é um psicólogo brilhante, que aparentemente mostra poderes de dedução e observação no nível de Sherlock Holmes ou House. Entretanto, sem o carisma e charme desses dois citados, provenientes tanto de seus dons quanto de seus defeitos, igualmente colossais, o personagem Cross se mostra um bom-moço chatíssimo, demasiadamente "certinho", pai de família exemplar e que tenta ajudar uma jovem negra (como ele) convencendo-a a delatar o tio que cometera o crime pela qual estava presa.

O assassino vivido por Matthew Fox também não desperta interesse, com um roteiro sem explorar suas motivações e/ou passado, retratando-o apenas como "provavelmente um ex-militar" lunático. Com este personagem, Fox consegue se desvencilhar de seu personagem mais icônico, o Jack de Lost. Isso, no entanto, não quer dizer que seja uma boa atuação, já que o assassino vivido por Fox é unidimensional e não dá muitas oportunidades de atuação, ficando relegado a caras e bocas de maluco, que produzem no final, uma atuação exagerada e caricata.

filme a sombra do inimigo alex cross tyler perry

De fato, o assassino lembra o personagem de videogame da série Hitman ao (tentar) executar os assassinatos com planos mirabolantes (nadando por tubulações de água ou hackeando um trem). Entretanto, se no game (e em menor parte, no filme baseado nele) é divertido ver o assassino, neste A Sombra do Inimigo a diversão se perde um pouco, já que o filme se leva a sério demais para situações claramente absurdas.

Este talvez seja um dos maiores problemas do filme: se levar a sério demais, mesmo quando seus personagens são claramente caricaturas, incluindo o elenco de apoio, como o chefe da divisão policial que, no melhor estilo "chefe de cabelos pontudos do Dilbert", quando decide fazer algo por conta (para receber os créditos políticos) e não escutar Cross, só faz besteira.

filme a sombra do inimigo alex cross matthew fox

Dirigido por Rob Cohen (que sempre fez filmes mais ou menos, como o último e sofrível capítulo da franquia A Múmia), A Sombra do Inimigo também falha na condução do ritmo. Querendo imprimir uma ação rápida (inclusive abusando do recurso de câmera na mão, tremendo a imagem), o filme abandona quase que totalmente o suspense depois de um terço da projeção, fazendo com que não se sinta que haja uma ameaça a espreita. O drama também tem pouco destaque, puxando logo para o tema vingança pessoal. E, por fim, a resolução final também é bem fraca, com a revelação do mandante dos assassinatos sem nenhum impacto. Ou talvez tenha sido só o cansaço e a vontade de ver o filme acabar logo que me fizeram achar o final fraquíssimo.

Baseado na série de livros de James Patterson tendo o personagem Alex Cross como protagonista, A Sombra do Inimigo parece ir ao contrário da direção dos livros. Pelo menos em termos de qualidade e aceitação do público. Enfim, A Sombra do Inimigo é um filme ruim. Com um roteiro genérico e medíocre, poderia render um filme apenas medíocre, caso fosse melhor conduzido. Os fãs de Patterson provavelmente estão decepcionados.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Omelete e no Adoro Cinema.

2012-12-07

Filme: Laurence Anyways

Uma história de amor. Diferente e única (como todas são, aliás). O filme Laurence Anyways num primeiro momento parece nos trazer uma história inusitada, mas que na essência, acaba se revelando uma (boa) história de amor.

filme laurence anyways poster cartaz

Laurence Anyways nos mostra um pouco mais de uma década do relacionamento entre Laurence Alia (Melvil Poupaud), um professor e escritor que parece ter uma boa carreira a frente, e Fred Belair (Suzanne Clément), uma moça de estilo aberto e alternativo que trabalha com cinema, na produção de filmes. O casal vive um romance feliz e alegre, com ares adolescente, com muitos risos, cigarros e sexo no carro em dias chuvosos. O desenrolar do filme começa em 1989, logo depois de Laurence ganhar um prêmio local. Não aguentando mais esconder quem é, ele revela a Fred que é transexual e pretende começar a viver de acordo, usando vestidos e outras roupas femininas, e depois, a tomar hormônios para deixar o corpo condizente com a sua alma. Obviamente, ela a princípio não aceita bem, mas em nome do amor, permanece com ele. Até quando e até onde, é o que descobriremos no filme.

filme laurence anyways

Antes de ser sobre identidade/orientação sexual, Laurence Anyways é um filme sobre um relacionamento. A questão da troca de gênero de Laurence, de homem para mulher, obviamente tem o seu peso e o seu espaço durante o filme, mas essas situações não são tão exploradas quanto a dinâmica do relacionamento entre Laurence e Fred. De fato, as situações envolvendo a transexualidade de Laurence são até óbvias e pouco inspiradas, às vezes caindo em clichês, como a perda do emprego devido ao preconceito da "alta cúpula" sem rosto, ou a os machucados resultantes de uma briga devido a homofobia.

filme laurence anyways

O cerne de Laurence Anyways é realmente o relacionamento entre Laurence e Fred. O diretor e roteirista Xavier Dolan, gay assumido e que já produziu dois outros filmes envolvendo fortemente aspectos da sexualidade (Eu Matei a Minha Mãe e Amores Imaginários), acompanha de perto a vida dos personagens, de maneira quase documental. Isso se traduz em frequentemente filmar os personagens de costas, seguindo-os por cima do ombro. Além disso, nas cenas de brigas (que casal não as tem?), Dolan abusa dos closes nos rostos e das tomadas mais longas, com menos cortes (não cortando para o rosto do personagem que fala no momento), valorizando a atuação dos atores. Atuação esta que merece destaque. Se Melvil Poupaud se apresenta bem como protagonista, Suzanne Clément se entrega de alma e corpo (quase que literalmente) a sua Fred.

filme laurence anyways

Com uma trilha sonora excelente, que vai desde músicas populares das épocas que o filme passa, incluindo Duran Duran e Celine Dion, até músicas clássicas de Beethoven e Tchaikovsky, Laurence Anyways tem um ritmo lento e intimista. Infelizmente, o ritmo parece ser o seu maior problema. Com cerca de duas horas e quarenta minutos de projeção, o filme se torna um pouco cansativo no seu terço final.

SPOILER ATÉ O FINAL DO PARÁGRAFO. Apesar do último terço do filme ser prejudicado pela duração, que torna-o um pouco cansativo, Laurence Anyways tem um final genial. Aliás, dois finais. O primeiro final, que mostra o último encontro do casal, já há muito separado, num bar, e depois a fuga de cada um deles sem o outro saber, pela porta da frente e pelos fundos, decidindo (dolorosamente) deixar o passado feliz onde ele está (no passado) e indo em direção ao futuro, reconhecendo o que tiveram e aceitando que tudo muda, pode não ser romântico estilo água com açúcar, mas é romanticamente real. E para quem gosta de um final mais emotivo, Dolan ainda coloca um segundo final, que apesar de clichê (é a mesma ideia da última sequência de Um Dia, por exemplo), é eficiente. Neste final, ele mostra um flashback de como o casal se conheceu e o primeiro flerte deles, com Laurence convidando Fred para sair, voltando ao começo de tudo.

filme laurence anyways

Laurence Anyways é um bom filme de drama e romance, tendo como fundo a transformação de Laurence de homem para mulher. Ao contrário do que é vendido no trailer, o filme não é sobre um transexual, mas sobre o relacionamento de duas pessoas. Que, por si só, já teria drama de sobra. Como toda boa história de amor.

Trailer:



Para saber mais: site oficial do filme (em francês) e críticas no Adoro Cinema e no Blog do Rubens Ewald Filho.

2012-12-05

Filme: E Agora, Aonde Vamos?

Pode parecer que o segundo filme de Nadine Labaki tenha pouco a ver com a sua estreia na direção, a dramédia romântica Caramelo. Entretanto, é possível ver muios pontos em comum com o novo E Agora, Aonde Vamos? (no original, Et maintenant on va où?), sobretudo no olhar sobre as mulheres libanesas em sua cultura.

filme e agora, aonde vamos? nadine labaki poster cartaz

E Agora, Aonde Vamos? nos traz a história de um pequeno vilarejo no Líbano, isolado por minas terrestres e acessível apenas por uma pequena passagem. Afastado, esse vilarejo se mantém praticamente alheio ao mundo exterior, a ponto de conseguirem ligar e assistir uma velha televisão ser tratado como um grande evento. Essa falta de contato com o exterior faz com que os homens do vilarejo ignorem os conflitos que aumentam no país por motivos religiosos, a tensão entre católicos e muçulmanos. E esta ignorância é tratada como uma bênção pelas mulheres, que, cansadas de verem seus filhos, maridos e irmãos mortos por uma luta basicamente inútil (como todo conflito religioso o é), fazem de tudo para que as notícias de fora não influenciem ainda mais os ânimos dentro da aldeia.

filme e agora, aonde vamos? nadine labaki

Esta é basicamente a trama de E Agora, Aonde Vamos?: a união das mulheres de um vilarejo que, independente da religião de cada uma, buscam manter a paz acalmando os afoitos e emocionais homens, que por qualquer motivo estão prontos para partir para a briga (escalando cada vez mais até as últimas consequências) usando a religião como desculpa. Neste sentido, é interessante ver como as figuras masculinas e femininas se apresentam trocadas em relação aos seus estereótipos, com as mulheres usando a razão e os homens, a emoção, o que prova que esse estereótipo de gênero é uma bobagem.

filme e agora, aonde vamos? nadine labaki

Assim como em Caramelo, a diretora Nadine Labaki (que também atua e co-escreve em ambas produções), procura um tom ameno para contar a sua história. Entretanto, em E Agora, Aonde Vamos? ela adota um tom ainda mais de fábula, o que já é notável nas primeiras cenas, em que um grupo de mulheres vestidas de preto, em luto, caminham em direção ao cemitério, e ensaiam uma coreografia. Há números musicais clássicos no filme, como o "sonho" entre Amale, católica, personagem de Nadine, com seu "par romântico" muçulmano (uma relação meio Romeu e Julieta que acaba sendo pouco explorada), ou então quando as mulheres se unem para fazer guloseimas "especialmente recheadas", cantando. Esses números musicais servem para dar um ar mais cômico e leve à trama, e inseridos de maneira orgânica (na forma do sonho, por exemplo), não incomodam como em filmes musicais em que os personagens do nada resolvem cantar e dançar.

filme e agora, aonde vamos? nadine labaki

Não pense, entretanto, que este filme é apenas comédia. Apesar do tom de fábula e por vezes caricato, o filme toca em pontos dramáticos bastante comoventes, sempre de maneira sensível, ainda que não fique pesado demais. A história da mãe de um dos garotos que percorre a trilha entre o vilarejo e a cidade grande realizando a única rota de comércio, por exemplo, é bem emocionante.

Apesar de todas as suas qualidades, incluindo aí o final absolutamente genial, a bela fotografia e as ótimas atuações, E Agora, Aonde Vamos? não é livre de pontos baixos. Sem uma linha dramática bem estabelecida do início ao fim, às vezes o filme parece episódico demais, além de subtramas pouco e/ou mal exploradas, como o já citado romance entre a católica e o muçulmano, ou mesmo a vinda de garotas de um clube de strip-tease, contratadas pelas mulheres para servir de distração para os homens e evitar um conflito.

filme e agora, aonde vamos? nadine labaki

Enfim, E Agora, Aonde Vamos? é um ótimo filme de uma diretora ainda iniciante, mas que desde o primeiro filme, consegue lançar um olhar sensível e leve sobre o mundo feminino de seu país, mesmo que em obras com temas bem diferentes. E a pergunta do título do filme, cujo sentido dentro da trama fecha a película, deixa um quê de final em aberto, mas também com um tom de esperança. Se devolvêssemos a pergunta à diretora, aonde vamos em seguida, não importa muito a resposta. Pois onde ela nos levar, deverá ser interessante.

Trailer:

2012-12-01

Filme: Branco Como a Neve

Apesar de ser curto (tem menos de 80 minutos), o filme turco Branco Como a Neve (no original Kar Beyaz) parece maior. Efeito que é criado não apenas pelo seu ritmo, lento e intimista, mas também pelo tamanho dos dramas de seus personagens.

filme branco como a neve kar beyaz turquia poster cartaz

Branco Como a Neve nos apresenta o jovem menino Hasan (Hakan Korkmaz), morador de uma pequena vila no interior da Turquia. Depois do seu pai ter sido preso (por motivos nunca inteiramente explicados), a mãe de Hasan (Sinem Islamoglu) tem que sair de casa para trabalhar, numa outra vila, cuidando de uma velha senhora, e deixando Hasan responsável pela casa e pelos seus dois irmãos menores. Para arranjar algum dinheiro, Hasan caminha pelas montanhas e florestas até um posto de descanso no meio da estrada, onde tenta vender ayran (uma bebida a base de yogurt) para os viajantes que param por ali.

filme branco como a neve kar beyaz turquia

O filme todo se passa em apenas um único e fatídico dia de inverno, com a paisagem de um predominante branco de neve, e através de flashbacks é que somos apresentados à história. Além do drama familiar de Hasan, ainda somos apresentados a dramas de outros personagens, como o rapaz (Ziver Armagan Acil) que trabalha como recepcionista no posto (que espera por uma carta de amor) ou o passageiro anônimo (Kaya Akkaya) que, desconfortável, tem que ir a uma distante vila fazer um trabalho, ou ainda o velho Ruhan Odabas, que assim como Hasan, atravessa distâncias para ir ao posto tentar vender algum produto.

filme branco como a neve kar beyaz turquia

Branco Como a Neve, adaptado de um romance de Sabahattinn Ali e dirigido e roteirizado por Selim Gunes, tem um ritmo lento e intimista, onde planos abertos enfatizam a natureza e a sua impiedosa indiferença com os seres humanos. Nestes planos, onde a cor branca impera pelas camadas profundas de neve, são mostrados os pequeninos personagens humanos solitários percorrendo as distâncias, colocando um peso a mais no drama, especialmente de Hasan, que carregando o pote de ayran, parece carregar um peso maior do que deveria suportar, tanto metaforicamente quanto na realidade.

filme branco como a neve kar beyaz turquia

Branco Como a Neve tem ótimas atuações, e destaca-se a atuação do jovem Korkmaz com seu Hasan, que mostra-se ao mesmo tempo como uma criança amadurecida a força pelas circunstâncias (e a cena da revista em quadrinhos que se perde na correnteza é a síntese simbólica de tudo isso: a inocência que se vai, ao mesmo tempo em que o garoto não chora pela perda, mas apenas aceita o destino), assim como ainda no íntimo, preserva a falta de maturidade (como a insistência em ficar no posto tentando vender pelo menos um copo do iogurte, mesmo que a noite e seus perigos se aproximem).

Apesar de alguns clichês (como a insistência em denunciar o perigo iminente, na forma dos uivos dos lobos, ou o vermelho do sangue contrastando com o branco da neve num cavalo atacado, ou ainda o pressentimento de alguns personagens quanto ao drama que se aproxima), o filme se mostra bastante eficiente em nos comover, fazendo com que torçamos pelos personagens, mesmo que saibamos que as chances de um final feliz são inexistentes (algo que pode ser inferido tanto pela sinopse quanto pelo trailer).

filme branco como a neve kar beyaz turquia

Branco Como a Neve pode não ser um filme tecnicamente perfeito (apesar da fotografia ser boa, especialmente nas condições adversas em que foi filmado), mas é um drama interessante, que ainda tem a vantagem de mostrar (para nós, ocidentais) que, mesmo do outro lado do mundo, alguns dramas são universais. O filme não amarra todas as pontas, aliás, deixa várias soltas (como o porquê do pai de Hasan estar preso ou porque o incômodo do trabalhador em ir até aquele fim de mundo trabalhar), mas essas pontas soltas não incomodam tanto (afinal, o que mais existe na vida real são pontas soltas).

Enfim, Branco Como a Neve é um bom drama. É também uma boa oportunidade para conhecer um cinema diferente daquele a que estamos habituados, assistindo a um filme da Turquia. É o aspecto curiosidade que contrabalanceia toda a tristeza dos personagens do filme.

Trailer (legendado em inglês):



Para saber mais: site oficial do filme Kar Beyaz em inglês.

2012-11-15

Filme: Rota Irlandesa

Em Bagdá, entre a zona verde (a área pacificada de Bagdá restritamente controlada pelo governo americano e que dá nome a outro filme de guerra espetacular, com Matt Damon), e o aeroporto, existe uma estrada que é considerada a mais perigosa do mundo, chamada de Rota Irlandesa. Esta explicação é dada por um personagem em certa altura da projeção deste filme, que leva o nome da estrada (no original, Route Irish).

filme rota irlandesa poster cartaz

Apesar do pontapé inicial da história se passar no Iraque, a maior parte da trama se desenrola na Inglaterra, onde Fergus (Mark Womack), um soldado privado (uma palavra mais bonita para mercenário), desconfia das explicações oficiais para a morte de seu melhor amigo desde a infância, Frankie (John Bishop), morto na tal rota irlandesa que dá título ao filme. A partir dessa premissa básica, temos uma trama onde o diretor Ken Loach desenvolve um filme quadradinho, sem inovações, envolvendo investigação, um pouco de suspense, leves menções às sequelas dos soldados pós-guerra, mas principalmente, uma denúncia sobre o capitalismo, grandes corporações (sempre malvadas), a privatização de exércitos e os excessos cometidos por estes "caubóis" contratados.

filme rota irlandesa

Infelizmente, são nesses últimos aspectos, os mais focados, que Rota Irlandesa se perde. Ao querer chocar, inserindo imagens reais de arquivos jornalísticos mostrando algumas barbáries cometidas por soldados, em momentos da projeção, o filme não apenas quebra o ritmo da narrativa, mas também soa como pretensioso e panfletário, como se fosse um professor que tivesse que ficar repetindo à exaustão, uma lição que é óbvia para a classe.

filme rota irlandesa

Rota Irlandesa não deixa de ser uma diversão razoável em termos de filme-de-ex-soldado-fodão-buscando-vingança-pessoal, mas peca também em outro ponto: a mesmice. O trailer também não ajuda, estragando boa parte do final, denunciando de antemão os vilões e fazendo com que a reviravolta final (obrigatória) perca toda a sua força (que já não seria tão grande assim). Nesse sentido, pode-se dizer que Rota Irlandesa seja até mesmo um pouco burocrático, não inovando em absolutamente nada, mas entregando as cenas de ação e de investigação já esperadas pelos familiares ao gênero.

Enfim, Rota Irlandesa entrega o básico do gênero investigação/guerras/grandes corporações. A crítica social se faz presente, mas não se desenvolve bem, soando forçada. Ao contrário do caminho que dá nome ao filme, Rota Irlandesa segue por caminhos seguros, que muitas vezes se mostram também os menos interessantes.

Trailer:



Para saber mais: crítica no Omelete.
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